Por que o luto pelos relacionamentos tóxicos é mais complicado?

05 Outubro, 2020
A perda de um relacionamento importante sempre causa dor. Mas quando este também era um vínculo tóxico, o sofrimento pode aumentar por vários motivos. 

O fim de um relacionamento, tanto pela separação quanto pela morte de um dos membros, é uma experiência dolorosa. No entanto, o luto pelos relacionamentos tóxicos, devido às características inerentes a esse tipo de vínculo, costuma ser muito complicado.

Quando falamos sobre relacionamentos tóxicos, pensamos em uniões de casais; no entanto, qualquer interação humana pode ter uma dinâmica prejudicial. Assim, tanto o fim de uma amizade quanto a morte de um parente próximo podem apresentar complicações, principalmente se o vínculo estabelecido não tiver sido saudável.

Homem chateado

Por que o luto pelos relacionamentos tóxicos é tão complicado?

Pode parecer ilógico que seja mais difícil “deixar ir” as pessoas que nos magoaram do que aquelas que nos deram o seu amor. Aqueles que enfrentam a perda de um relacionamento tóxico muitas vezes são mal compreendidos e julgados pelo seu entorno. Para entender como isso funciona, é necessário concentrar a nossa atenção em alguns fatores importantes.

Personalidade

Em geral, as pessoas que estabelecem relacionamentos tóxicos e permanecem neles têm certos problemas emocionais nos quais precisam trabalhar. É comum que esses indivíduos tenham muito medo da rejeição e do abandono, que sejam inseguros, indecisos e sujeitos à dependência emocional.

Mesmo que não seja de uma forma saudável, o relacionamento cobre essas feridas internas e o dependente concentra toda a sua energia no outro. Quando o relacionamento termina, ele é obrigado a enfrentar o seu próprio mundo interno, a voltar toda a sua atenção para si mesmo.

Assim, os medos e as feridas emocionais ressurgem com maior força, tornando a situação emocionalmente insuportável. Lembremos que, no luto, cada um de nós é o seu principal suporte. Se estivermos feridos na base, não poderemos nos apoiar de forma adequada.

Autoestima

Um dos aspectos mais afetados quando alguém se envolve em um vínculo tóxico é a autoestima. Esses tipos de relacionamentos nos quais você experimenta tanto sofrimento vão minando a sua autoconfiança.

O valor que a pessoa atribui a si mesma diminui à medida que permanece nessa interação prejudicial. Assim, ela acaba se sentindo fraca, inadequada e incapaz de “seguir em frente” sem a outra pessoa.

O amor próprio é essencial para detectar o abuso e acabar com ele. É ele que nos lembra que somos valiosos e capazes de nos defender. É a força que nos leva a não tolerar nenhum tipo de abuso, mesmo que a consequência seja a solidão.

Nos relacionamentos tóxicos, o amor próprio está destruído. A pessoa se subestima, chegando a pensar que não merece mais do que está recebendo. E, por outro lado, a sua confiança em suas habilidades está tão diminuída que ela não consegue enfrentar uma separação. A base sólida de que precisamos para dizer “chega” foi quebrada pela humilhação constante.

Mulher preocupada no sofá

Paz interior

Quando mantemos um relacionamento saudável, geralmente não há assuntos pendentes. Cada um cumpriu seu papel, trazendo carinho, segurança e compreensão para o outro. Dessa forma, quando os caminhos se separam, é mais fácil fechar o ciclo priorizando as boas lembranças e os bons sentimentos.

Pelo contrário, no luto dos relacionamentos tóxicos, emoções como raiva, ressentimento ou decepção tendem a se enraizar. No fundo, existe a ideia de que todo esforço feito e todo sofrimento suportado devem ser recompensados. Assim, espera-se que a outra parte mude em algum momento e nos retribua por toda a entrega. Quando o relacionamento termina, essa esperança é quebrada e surge a raiva.

Além disso, durante o luto podem aparecer pensamentos disfuncionais. Podemos nos perguntar por que não fomos suficientes, por que a outra pessoa nunca nos amou ou o que poderíamos ter feito para mudar isso. Essa ruminação mental intensifica o desconforto e dificulta um enfrentamento eficaz.

No entanto, superar a dor dos relacionamentos tóxicos não é impossível. Podemos dizer que o luto de um relacionamento é semelhante ao seu transcurso. Assim, em relacionamentos saudáveis ​​e respeitosos, encontraremos lutos igualmente calmos e conscientes.

Por outro lado, após uma relação tóxica, o luto será carregado com o mesmo sofrimento e desespero que caracterizou a união do casal. Para seguir em frente, será necessário um profundo trabalho pessoal que permita restabelecer os pilares do amor próprio e da confiança, essenciais para curar e não repetir padrões.

  • Guzmán, M. O., & Ortega, N. G. R. (2011). Nivel de maltrato en el noviazgo y su relación con la autoestima. Estudio con mujeres universitarias. Uaricha Revista de psicología8, 34-citation_lastpage.
  • Blasco, C., & del Concepto, J. A. (2005). Dependencia emocional. In I Congreso Virtual de Psiquiatría 1 de Febrero-15 de Marzo 2000 [citado:*]; Conferencia 6-CI-A:[52 pantallas]. Disponible en: http://www. psiquiatria. com/congreso/mesas/mesa6/conferencias/6_ci_a. htm.