Mary Wollstonecraft: biografia da primeira feminista

maio 3, 2019
A história de Mary Wollstonecraft não interessou ninguém durante muito tempo; ninguém queria que uma mulher exigisse os mesmos direitos entre homens e mulheres. Sua vida foi marcada por acontecimentos trágicos, mas também por uma luta incansável para defender o que considerava justo.

Quando o feminismo ainda não era uma corrente tão importante, quando as mulheres eram relegadas ao lar, a avó de Frankenstein começou a abrir o caminho. Falamos de Mary Wollstonecraft, mãe de Mary Shelley, uma mulher realmente atípica para o tempo em que viveu. Filósofa e escritora, viveu uma vida entre cartas.

A figura de Mary, infelizmente, esteve envolvida em polêmica, foi duramente criticada e questionada por seus contemporâneos. Morreu logo após trazer ao mundo sua filha, Mary Shelley, devido a uma infecção resultante do parto.

Depois de sua morte, seu marido William Godwin, também escritor e filósofo, tentou homenageá-la publicando suas memórias. No entanto, apesar da boa vontade de Godwin, Wollstonecraft seria unicamente lembrada por suas polêmicas e, consequentemente, seria uma figura rejeitada pelos intelectuais do momento.

Sua história e seu trabalho foram silenciados, mantidos em segredo para que ninguém, como Mary, ousasse pensar, reivindicar os direitos das mulheres. Isso até algum tempo depois, quando a nova onda do feminismo do início do século XX se encarregou de tirar o pó de seus textos e os devolver à luz.

Virginia Woolf e outras feministas da época foram responsáveis ​​por ressuscitar Mary Wollstonecraft, uma mulher incompreendida e, sem dúvida, à frente de seu tempo.

“O uso adequado da razão é a única coisa que nos torna independentes de tudo, exceto da própria razão, a cujo serviço está a liberdade perfeita”.
-Mary Wollstonecraft-

Mary Wollstonecraft: infância e juventude

Em 27 de abril de 1759 nasceu Mary Wollstonecraft em Spitalfields (Londres, Reino Unido). Nasceu em uma família com uma posição financeira estável, mas seu pai acabou desperdiçando todas as economias da família. Seu pai, além disso, bebia demais e espancava sua esposa. Wollstonecraft se uniu profundamente às suas irmãs e tornou-se um importante pilar para elas.

Wollstonecraft sempre defendeu a independência da mulher e tentou desafiar as convenções. Assim, aconselhou sua irmã Eliza a deixar sua família, mas o mundo não estava preparado para tal coisa e o destino de Eliza foi bastante precário.

Mary teve duas amizades importantes em sua juventude que influenciaram grandemente seu futuro profissional: Jane Arden e Fanny Blood. Arden a trouxe, por influência de seu pai, ao mundo da filosofia. Blood morreu depois de dar à luz e esse fato marcou muito a vida de Mary.

Após a morte de sua amiga, Wollstonecraft tomou uma decisão fundamental: tornar-se escritora. Seus primeiros textos foram uma pequena reflexão sobre os problemas das mulheres no sistema de educação e de trabalho. Quando queria encontrar um emprego, percebia que suas chances eram reduzidas a duas: ser governanta ou cuidadora. Além disso, a educação recebida pelas mulheres era muito diferente da dos homens e, como consequência, era tremendamente limitada.

Mary Wollstonecraft: biografia da primeira feminista

Mais tarde, começou a trabalhar como governanta, mostrando-se bastante atípica com a educação que dava às crianças. Como resultado desta experiência, ela escreveu Reflexões sobre a educação das filhas (1787) e Histórias originais da vida real (1778), sua única obra de literatura infantil. Sua primeira obra seguiu um estilo bastante comum na época, mas é verdade que adiantou algumas das reflexões sobre a mulher solteira, especialmente suas limitações financeiras.

Mais tarde, conseguiu um emprego na editora dirigida por Joseph Johnson, trabalhou como tradutora e publicou Vindicação dos direitos dos homens (1790). Este texto, na verdade, foi uma resposta à publicação de Reflexões encobertas sobre a Revolução Francesa (1790). Wollstonecraft atacou enormemente os direitos hereditários e a aristocracia, defendendo a república. Mas este texto polêmico foi apenas a primeira pedra para o que viria a seguir…

“Como desde a infância aprendem que a beleza é o cetro da mulher, a mente se adapta ao corpo e, vagando por sua jaula de ouro, só busca adorar sua prisão”.
-Mary Wollstonecraft-

O primeiro feminismo

Mary Wollstonecraft desembarcou, em 1792, em uma Paris mergulhada no caos na qual Luís XVI seria guilhotinado. Neste momento, Wollstonecraft começou a se desestabilizar: por um lado, escreveu Vindicação dos direitos das mulheres (1972); por outro, se apaixonou perdidamente por Gilbert Imlay, com quem teve uma filha. O relacionamento com Imlay foi um fracasso e Wollstonecraft lhe escrevia cartas desesperadas como resultado da depressão em que se viu afundada.

Era o século XVIII, uma época de revolução, e Wollstonecraft estava sozinha com uma filha. Após seu retorno ao Reino Unido, tentou cometer suicídio. Paradoxalmente, essa mulher que defendia seus direitos e sua independência estava em uma profunda depressão devido a um fracasso sentimental. Falar sobre feminismo em Wollstonecraft é um pouco contraditório, uma vez que o termo foi consolidado mais tarde.

No entanto, quando lemos Vindicação dos direitos das mulheres, percebemos que os primeiros passos dessa luta estavam presentes. O que exatamente Mary criticava? Mary via um problema no romance cor-de-rosa que estava associado às mulheres, porque justificava de alguma forma a dependência do homem e as impedia de pensar. Ela defendia uma educação racional, para educar as meninas cedo e permitir que tivessem as mesmas oportunidades que os homens.

As habilidades da mulher não eram uma causa de sua natureza, mas residiam no próprio sistema e, mais especificamente, na educação recebida. Mary atacava, assim, quase todos os pensadores de seu tempo, mas Wollstonecraft foi além do texto, levando seu rompimento com as convenções quase ao extremo.

Ela chegou a propor ao artista e escritor Henry Fuseli que abrisse seu relacionamento com sua esposa e, assim, vivessem os três juntos. É claro que, numa época em que o poliamor era um enorme tabu, as consequências dessa proposta foram muito duras.

Mary Wollstonecraft

Última etapa

Mary Wollstonecraft teve dificuldade em superar sua decepção amorosa, por isso, escreveu inúmeras cartas e tentou cometer suicídio pela segunda vez.

Em 1796, publicou uma obra em que relembrou uma de suas viagens: Cartas escritas na Suécia, Noruega e Dinamarca. Ela fez esta viagem com a intenção de recuperar Imlay, mas descobriu que tudo estava perdido. Nesta obra, refletiu sobre várias questões sociais e até sobre sua própria identidade e a relação do “eu” com o mundo. Reivindicou novamente a liberdade e a educação das mulheres e, finalmente, aceitou que sua história com Imlay havia terminado.

Em Londres, conheceu William Godwin, filósofo e escritor precursor do pensamento anarquista. Ambos se casaram e estabeleceram uma norma para respeitar sua independência: viver em casas separadas, mas contíguas.

A partir deste momento, Wollstonecraft mergulhou novamente em seu trabalho como escritora. Infelizmente, a felicidade desapareceu rapidamente e Mary morreu pouco depois de dar à luz sua segunda filha, Mary Shelley, aos 38 anos. Suas filhas ficaram a cargo de Godwin que, mais tarde, voltou a contrair matrimônio.

Godwin publicou, em 1798, Memórias da autora de Vindicação sobre os direitos das mulheres, embora sua recepção, como previmos, não tenha sido muito boa. Neste trabalho, Godwin se baseou em pessoas que conheceram Wollstonecraft, reagrupou todas as suas cartas e obras.

Hoje, o que Wollstonecraft pediu nos parece mais lógico, mas na época gerou uma grande controvérsia. Talvez o mundo não estivesse preparado para receber uma mulher como ela.

Às vezes, Wollstonecraft é vista como a primeira feminista e, de certo modo, foi; embora não seja a única mulher na história que se atreveu a reivindicar seus direitos. O feminismo ainda não havia nascido, mas ela começou a desenvolvê-lo em sua obra, que seria recuperada no século XX. Com Wollstonecraft, o feminismo estava um pouco mais próximo.

“Façamos das mulheres criaturas racionais e cidadãs livres, e elas rapidamente se tornarão boas esposas e mães, isto é, se os homens não negligenciarem os deveres de maridos e pais”.
-Mary Wollstonecraft-