O medo que se esconde por trás da raiva

· outubro 31, 2016

A raiva é o extremo desadaptativo do tédio e da irritação. Estas últimas são consideradas emoções saudáveis, básicas e universais, ou seja, que nos ajudam a resolver os problemas com que nos encontramos e que todos sentimos em algum momento da nossa vida.

A irritação tem a função de nos proteger daquilo que é suscetível a nos fazer mal. Assim, poderíamos dizer que é necessário ficar irritado quando a situação exige, delimitar limites coerentes com o mundo e com os outros e expressar as nossas expectativas e necessidades.

Quando acumulamos muitos aborrecimentos não expressados, estamos longe de sentir essa emoção no nosso corpo e fica muito mais difícil controlá-la. Acabamos explodindo, e é assim que surge a raiva.

A raiva já não é funcional, já não nos ajuda, apenas entorpece as nossas ações direcionadas à realização das nossas metas. Além disso, ela nos faz sentir muito mal a nível emocional, sem falar do quão prejudicial é para as nossas relações sociais em geral. O que acontece é que por medo de sentir dor, por receio de sofrer, aguentamos até que a emoção diga “Basta!” e precise ser expressada.

Como se fôssemos uma panela de pressão, nos enchemos de aborrecimentos não comunicados e de exigências sem sentido. Assim, acabamos raivosos, o que nos faz parecer pessoas hostis e agressivas.

Os outros deixam de nos levar a sério ou de nos quererem bem, e acabam por de cansar de nós. Assim, a forma agressiva que usamos para expressar a nossa dor nos faz perder a razão que no início até poderia estar ao nosso lado.

Por trás da raiva há muito medo

A pessoa raivosa, ainda que possa parecer dura, esclarecida e alguém que impõe respeito por onde passa, no fundo é um ser morto de medo. Ela precisa usar essa forma de se expressar, essa ira, para se defender. Do que as pessoas que sentem ira pretendem se defender? Evidentemente, de algo que pode lhes causar dano ou fazer sofrer. Elas têm muito medo de cair no sofrimento e utilizam essa estratégia da ira para se livrar dele.

A pergunta vem de imediato: Por que estas pessoas vão sofrer ou sentir dor? A resposta é clara: não ver supridas suas expectativas, necessidades ou exigências lhes dá muito medo, porque isso significa que nem sempre o mundo, a vida ou os outros vão fazer as coisas da forma como elas gostariam.

Nem sempre os outros vão agir em prol do nosso benefício e nem sempre a nossa vida vai ser fácil e cômoda, porque a vida quase nunca é fácil ou cômoda.

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A pessoa raivosa interpreta que ela está em uma situação de perigo por não ter essas exigências satisfeitas. Esse suposto perigo lhes dá medo e esse medo envia sinal ao corpo para criar a resposta de luta na qual implica sua defesa. Se for necessário, a pessoa com raiva irá colocar em prática qualquer estratégia que considere que pode salvá-la: gritar, intimidar, quebrar coisas, agir de forma exagerada, insultar…

Talvez com este comportamento você pense que as coisas irão mudar, mas no fim não é isso que acontece e a pessoa acaba encontrando mais problemas: brigas familiares ou com amigos, dores de estômago, consumir drogas para fugir dos problemas, etc…

Como gerir a raiva?

Para começar, temos que saber que o objetivo não é eliminar a emoção saudável de raiva, mas sim a ira que é a que está nos dando uma rasteira. Ficar com raiva é benéfico e nos permite ter relações sociais mais saudáveis além de uma grande libertação emocional para nós mesmos.

O primeiro passo que devemos dar para eliminar a raiva é, como ocorre com todas as emoções, aceitá-la e querer senti-la. Para isso, podemos nos retirar para uma sala silenciosa, fechar os olhos e deixá-la entrar no nosso corpo, criar um próprio espaço para ela, dar-lhe um nome, forma e cor para que possamos sentir que ela existe e para a observarmos.

Ter consciência de que a raiva existe e aceitá-la não significa julgá-la. Julgar as emoções é precisamente uma das coisas que faz com que elas aumentem, já que voltamos a repetir o círculo vicioso de nos “emburrarmos” com a mesma emoção por interpretá-la como perigosa.

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Uma vez que tenha aceitado a sua emoção e a sua intensidade tenha diminuído, você pode começar a questionar as suas exigências em relação ao mundo e aos outros. Para isso podemos fazer algumas perguntas: “O que eu estou dizendo a mim mesmo para sentir esta raiva? O que eu estou exigindo? Estas exigências são realistas? As pessoas podem agir como quiserem ou têm que sucumbir aos meus desejos?”

Você pode fazer essas perguntas a si mesmo até encontrar as suas exigências absolutistas e decidir que você tem que mudá-las por desejos e preferências, aceitando que mesmo que você queira que algo aconteça, pode ser que realmente não venha a acontecer.

Por último, mas não menos importante, você deve descobrir este medo que está no fundo de si e ver qual necessidade você tem que ainda não foi descoberta. Talvez seja algo que venha da sua infância, como uma necessidade de amor, de segurança, ou uma necessidade mais presente, relacionada ao amor, à família ou ao trabalho.

Assim que a identificar, anote-a, tire-a para fora, tome consciência e, assim como fez com as exigências, questione-a e perceba que você já não precisa de tudo isso de que acredita precisar. Se esta necessidade que você tem não for suprida, não vai acontecer nada terrível como você pode pensar, já que não se trata de algo realista.