O que são os medos atávicos?

05 Dezembro, 2020
A lista dos medos atávicos não é muito longa, mas a lista das suas derivações sim. Muitos dos nossos medos diários derivam daqueles medos antigos que herdamos e que ajudam a nos proteger de ameaças sérias.

Os medos atávicos representam os medos compartilhados pela maioria de nós e por nossos ancestrais. Temos consciência deles desde o início da nossa existência, porque estão intimamente ligados a ela. Assim, eles têm sido mantidos e transmitidos de geração em geração, e independentemente do quanto avançarmos, é muito provável que permaneçam.

A palavra atávico se refere ao passado ancestral ou arcaico. Por isso, quando falamos de medos atávicos, estamos falando de um passado remoto, muito remoto. Desnecessário dizer que é interessante explorar esses medos antigos e perceber os meios que usamos para gerenciá-los.

Em princípio, o medo é uma resposta adaptativa ao risco ou perigo. É um alerta interno que nos avisa e nos convida a adotar uma postura cautelosa. Portanto, ele desempenha um papel muito importante na preservação da vida e integridade. Os medos atávicos passam a ser uma adaptação coletiva às ameaças mais graves.

“A emoção mais antiga e intensa da humanidade é o medo, e o mais antigo e intenso dos medos é o medo do desconhecido”.
– H.P. Lovecraft –

Mulher fugindo em floresta

Os 5 grandes medos atávicos

Existem vários medos que são universais. No entanto, cinco deles definitivamente estiveram presentes em diferentes épocas e culturas; eles foram transversais através do espaço e tempo. Na verdade, existem muitos poderes que os usaram para se consolidar ou se manter. Esses medos são os seguintes.

Medo de ser enterrado vivo ou perder completamente a autonomia

Este é um dos grandes medos atávicos, que em princípio é definido como ser enterrado vivo. No entanto, por extensão, está associado a qualquer forma de aprisionamento, paralisia ou limitação que impede a ação, mas mantém a consciência. O assustador é isso: estar ciente de uma impotência radical diante de uma ameaça de morte.

Medo de ser atacado quando estamos sozinhos

Não importa o quão solitários ou independentes sejamos, no fundo temos uma parte de nós que é puramente social e que se sente muito mais confortável quando sabe que existem outros animais como nós por perto.

O ser humano é um mamífero frágil que conseguiu sobreviver, em grande parte, graças ao grupo. Recebe grandes contribuições de grupos que não existem mais e constrói realidades para quem vier depois. Quando está sozinho em uma floresta, por exemplo, o medo atávico de ser atacado vem à tona.

Medo dos maus odores

Este é um dos medos atávicos que se expressa, acima de tudo, como rejeição. Um mau cheiro, em condições normais, gera repulsa porque se refere ao que está em decomposição e que, portanto, é perigoso para a saúde e a vida. Se um mau odor desconhecido for detectado, uma forte sensação de medo pode surgir, pois isso está associado a risco e agressão.

Medo de mutilação ou perda de unidade

Este não é um medo frequente em nossa linha de pensamento, mas é um dos medos atávicos que se manifesta com mais frequência. A mutilação não tem a ver apenas com a perda física de uma parte do corpo, mas também com a perda da sua função. Portanto, o medo da doença faz parte disso. É uma tentativa de preservar o nosso corpo como o conhecemos e o entendemos.

Medo de agressão sexual

Está presente em mulheres e homens. As mulheres temem ser agredidas sexualmente porque sabem que esse desejo está presente em muitos homens. Estes, por sua vez, temem que as mulheres que amam sejam agredidas sexualmente e, em menor grau, que eles sejam as vítimas dessa humilhação. É um dos medos atávicos mais evidentes.

Mulher caminhando com medo

Os antídotos dos medos atávicos

Boa parte da configuração dos nossos prédios, cidades e sistemas sociais e culturais foi projetada para afastar esses medos atávicos. A religião e a ciência também são uma resposta aos medos universais dos quais ninguém escapa.

Outra forma de evitar esses medos é não pensar neles, criando situações que nos afastam dessa ideia ou nos distraem a tal ponto que esses medos não nos afetam. A sociedade atual tem enfatizado esse caminho e, por isso, o universo das distrações e do entretenimento é tão amplo.

No entanto, não importa o quanto os tiremos da mente, esses medos estão e estarão sempre aí. Eles nos lembram de que somos mamíferos curiosos e engenhosos, mas frágeis e mortais, evidenciando os nossos paradoxos mais importantes.

Padilla, I. (2013). El legado de los monstruos. Tratado sobre el miedo y lo terrible. Taurus.