Uma meia verdade será (mais cedo ou mais tarde) uma mentira completa

Uma meia verdade será (mais cedo ou mais tarde) uma mentira completa

13, setembro 2017 em Psicologia 470 Compartilhados
Uma meia verdade será (mais cedo ou mais tarde) uma mentira completa

Não existe covarde pior do que o que faz uso constante da meia verdade. Porque quem conjuga a verdade com a falsidade mais cedo ou mais tarde mostra a mentira completa, porque os enganos camuflados com boas maneiras são prejudiciais e desgastantes, e costumam vir à tona, assim como as mentiras inteiras.

Dizia Unamuno em seus textos que não existe tolo bom, que todos, a seu modo, sabem como conspirar e implantar truques eficazes para nos pegar desprevenidos. Mas se há algo que existe excessivamente na nossa sociedade não são precisamente os tolos nem os ingênuos. A mentira incompleta ou a meia verdade é a estratégia mais familiar que vemos em quase todos os nossos contextos, principalmente nas esferas da política.

Fazer uso das verdades sem cabeça, ou das falsidades com muitas pernas curtas, oferece a quem as utiliza a sensação de que não está fazendo nada de errado, de que sai livre da responsabilidade que tem com o outro. Parece que a piedade por omissão descarrega as responsabilidades; é como quem nos diz “te amo muitíssimo, mas preciso de um tempo” ou “aprecio muito o seu modo de trabalho e valorizamos todo o seu esforço, mas temos que encerrar o seu contrato por uns meses”.

A verdade, mesmo que doa, é algo que todos nós preferimos e que às vezes precisamos. É a única forma por meio da qual podemos avançar e reunir forças para implementar as estratégias psicológicas adequadas para virar a página, deixando de lado a falta de certeza e, acima de tudo, essa instabilidade emocional que envolve não saber, desmascarando as falsas ilusões.

O sofrimento causado pela meia verdade

O sabor amargo da meia verdade

Curiosamente, o tema das mentiras e de suas análises psicológicas é bastante recente. Freud abordou pouco o assunto, pois até então era um aspecto que permaneceu nas mãos da ética e até mesmo da teologia e sua relação com a moralidade. No entanto, a partir dos anos 1980, os psicólogos sociais começaram a se interessar e a estudar em profundidade o tema do engano e toda a fenomenologia associada a respeito, para confirmar algo que o próprio Nietzsche já disse em sua época: “a mentira é uma condição de vida”.

Sabemos que pode parecer desolador, porque apesar de nos ensinarem desde bem pequenos sobre a necessidade de dizer sempre a verdade, pouco a pouco, a partir dos quatro anos, vamos percebendo que, às vezes, recorrer à mentira significa obter certos benefícios. Por sua vez, algo que fica claro numa fase muito precoce é que uma falsidade direta e sem cheiro de verdade quase nunca é rentável a longo prazo.

A máscara da meia verdade

Por outro lado, assim como nos demonstrou o professor Robert Feldman da Faculdade de Psicologia da Universidade de Massachusetts, muitas das nossas conversas mais comuns estão cheias dessas mesmas verdades incompletas. No entanto, 98% delas são inofensivas, não prejudiciais e até funcionais (como dizer a uma pessoa com quem não tenhamos muita confiança que “estamos bem, tirando isso e aquilo”, quando na verdade estamos passando por um momento complicado).

No entanto, os 2% restantes evidenciam a meia verdade camuflada, uma estratégia perversa onde a falácia da meia verdade causa uma mentira expressa por omissão. Além disso, a pessoa pretende sair incólume ao se justificar com a ideia de que como sua mentira não é completa, não há ofensa.

A mentira frente à honestidade

Muitos de nós podemos ter sido alimentados durante um tempo por essas meias verdades que, no final das contas, são mentiras completas. Pode ser que também nos tenham presenteado com falsidades piedosas ou até mesmo tenham repetido a mesma mentira mais de uma vez, com a esperança de que a assumíssemos como verdade. No entanto, mais cedo ou mais tarde essa verdade acaba vindo à tona como uma rolha boiando na água.

Existem várias explicações: que tudo é relativo ou que “ninguém pode sair por aí dizendo sempre a verdade”. No entanto, além de tudo isso, o que é aconselhável praticar e, por sua vez, exigir dos outros, é a chamada HONESTIDADE. Embora a sinceridade e a franqueza sejam associadas à obrigação absoluta de não cair na mentira, a honestidade tem uma relação muito mais íntima, útil e eficaz com o próprio ser e com os outros.

Arco-íris de luz

Falamos acima de tudo de respeito, de integridade, de ser genuíno, coerente e de não recorrer nunca a essas artimanhas onde a covardia é destilada com a agressão encoberta. Portanto, para concluir, temos que entender que não existe mentira mais prejudicial do que a verdade camuflada, e que não existe nada melhor que a honestidade para viver em harmonia e respeito. Uma dimensão que, por sua vez, precisa de outro pilar incontestável: a responsabilidade.

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