Memórias felizes de infância, o segredo para a saúde psicológica

27 Março, 2021
As memórias felizes da infância são como aquela brisa quente e de cheiro inebriante que nos impulsiona para a idade adulta. Esse legado de bem-estar é sinônimo de equilíbrio psicológico, um toque de saúde que todo ser humano deveria ter na ponta dos dedos.

As memórias felizes de infância fazem parte do substrato que vai alimentar o nosso bem-estar na idade adulta. As primeiras experiências que exalam afeto e atenção sinceros são sementes que nutrem a saúde psicológica. Poucas experiências são mais emocionantes do que uma infância com a cor da alegria, da descoberta e daquelas experiências que sempre gostamos de relembrar.

As pessoas são feitas de memórias. A nossa mente foge constantemente para aquele baú no qual está a nossa história, aquele perfume, por vezes agradável, onde podemos dar sentido a nós mesmos, onde podemos relembrar o que fomos e o que, de algum modo, nos levou ao momento presente.

Uma infância feliz é um colchão a partir do qual os sonhos saltam, bem como um grande trampolim para o crescimento. É ali que os medos dormem e não nos incomodam, permitindo que nosso potencial continue a se desenvolver com otimismo e força.

Agora, sabemos que nem todas as pessoas podem desfrutar desse privilégio. Os passados ​​traumáticos também existem, assim como a educação em que o desapego ou a frieza afetiva habitou criando vazios. É muito difícil se realizar como pessoa quando não temos alguns pilares para nos sustentar.

No entanto, isso não significa que não possamos ter uma vida feliz na idade adulta. Significa apenas que pode ser um pouco mais difícil, que a jornada pode ser mais longa e trabalhosa, mas todos temos o direito e a obrigação de superar essas etapas difíceis para ser o que merecemos: pessoas com direito a bem-estar e plenitude.

“Uma das maiores sortes que você pode ter na vida é ter uma infância feliz.”
-Agatha Christie-

Memórias felizes de infância


Memórias felizes de infância, sinônimo de saúde física e psicológica

As memórias felizes de infância nos preenchem com força emocional. Esse dado, que pode parecer um tanto poético para nós, na verdade contém um fator óbvio que a neurociência está conseguindo comprovar. Um estudo publicado na revista Health Psychology e realizado pelos doutores William Chopik e John Eldestein aponta o seguinte.

Ter uma infância e uma adolescência felizes impacta o nosso bem-estar

De acordo com esse estudo, além de uma infância feliz, também é relevante desfrutar de uma adolescência significativa, repleta de experiências intensas, alegres e enriquecedoras. Isso significa várias coisas. A primeira é que o papel dos pais e do ambiente familiar é, sem dúvida, fundamental para estabelecer segurança, boa autoestima, capacidade de realização e uma inteligência emocional forte e saudável.

A segunda destaca a importância de uma adolescência feliz. O Dr. Chopik, da Michigan State University, fala sobre a importância de cuidar dessa grande faixa etária entre os 6 e os 18 anos. É aqui que entram em cena os nossos pares, os amigos e as pessoas da nossa idade que constituem o nosso contexto social. A escola, bem como as experiências que vivemos nesses ambientes, também determinarão nosso bem-estar futuro.

Neste estudo, também foi possível verificar como pessoas entre 40 e 50 anos que tiveram uma infância e adolescência felizes tiveram uma maior pontuação em saúde física e psicológica do que aquelas com experiências adversas ou traumáticas.

Irmãos sorrindo

As memórias felizes de infância ajudam a reduzir o estresse

As memórias felizes de infância são um bálsamo para reduzir o estresse na vida adulta. Elas significam tudo isso por um motivo muito simples: ter conseguido aproveitar os primeiros anos nos quais nossos medos foram tratados, possibilitando um sentimento de segurança e valorização, tornou nosso cérebro mais resistente.

Devemos levar em consideração que fatores como desatenção, gritaria, insegurança, assim como abusos físicos e psicológicos geram um nível muito alto de cortisol em nosso corpo. Esse hormônio prejudica o desenvolvimento normal do cérebro e nos mergulha em um estado de hiperatividade, de ansiedade constante. Tudo isso nos torna muito mais vulneráveis ​​à ansiedade e também a outros distúrbios psicológicos.

Também é importante ter em mente que aspectos como o bullying na adolescência são um fator de risco para o futuro bem-estar psicológico. As boas lembranças da infância colocam em nós uma primeira base de bem-estar, mas também é essencial ter uma adolescência na qual seja possível contar com a aliança de boas amizades, de vivências positivas e emocionantes.

Lidar com a adversidade também cria memórias positivas

As memórias felizes de infância não vêm apenas de experiências positivas e gratificantes. Muitas vezes, a experiência de um evento adverso e a forma como lidamos com ele também confere um grande valor psicológico a nós. Um exemplo disso é sofrer uma perda na infância.

Às vezes, a morte de um ente querido ou o abandono de um dos pais nos dá valiosas formas precoces de lidar com a perda e o luto. Conseguimos lidar com isso com o apoio do outro pai, dos nossos irmãos, tios, avós… Nem todas as infâncias são fáceis, sabemos disso. Mas, às vezes, certos impactos nos fortalecem e nos oferecem recursos psicológicos excepcionais para crescermos saudáveis, com coragem e esperança.

São oportunidades de crescimento mediados por muitos fatores, sem dúvidas. É aí que podemos ganhar resiliência, força mental e também abertura. A infância e a adolescência podem servir de trampolim para a nossa realização, mas em casos muito diferentes podem formar uma ferida, um muro, uma armadilha na qual podemos permanecer presos por muito tempo.

Porta entreaberta

Como disse o escritor Graham Greene em sua época, em cada infância deve surgir uma porta que abre o caminho para um futuro de esperança e felicidade. Ter esta porta sempre aberta também nos ajudará a ter boas lembranças, aquelas que nos levam à maturidade, assim como as vozes daqueles personagens do passado que serviram de exemplo e estímulo para sermos melhores a cada dia.

  • William J. Chopik and Robin S. Edelstein. “Retrospective Memories of Parental Care and Health from Mid- to Late Life.” Health Psychology (First published: November 5, 2018) DOI: 10.1037/hea0000694
  • William J. Chopik, Eric S. Kim, Jacqui Smith. “Changes in Optimism Are Associated With Changes in Health Over Time Among Older Adults.” Social Psychological and Personality Science (First published: June 29, 2015) DOI: 10.1177/1948550615590199
  • Melissa T. Merrick, Derek C. Ford, Katie A. Ports, Angie S. Guinn. “Prevalence of Adverse Childhood Experiences From the 2011-2014 Behavioral Risk Factor Surveillance System in 23 States.” JAMA Pediatrics (First published online: September 17, 2018) DOI: 10.1001/jamapediatrics.2018.2537