As microexpressões, segundo Paul Ekman - A Mente é Maravilhosa

As microexpressões, segundo Paul Ekman

julho 14, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
Microexpressões

Paul Ekman é considerado pela Associação Americana de Psicologia (APA) um dos psicólogos mais prestigiados e influentes do século XXI. Ele é uma das maiores referências no âmbito da detecção de mentiras e das relações entre as emoções e as expressões faciais. Além disso, foi um dos descobridores das microexpressões. Neste artigo explicamos o que elas são, como aparecem e qual é a sua importância.

Ekman considera que as microexpressões se manifestam no transcorrer de uma conversa, podem e costumam passar totalmente despercebidas pelo potencial receptor. No entanto, sua importância é manifestada porque são movimentos faciais rápidos, não controlados pela pessoa e que representam diferentes emoções.

Dos fatos para a teoria

Paul Ekman é uma das pessoas que melhor conhece como as emoções sinceras se esboçam em nossos rostos. Define a si mesmo como “um cientista cujas descobertas mudaram a minha forma de pensar”.

Depois de anos propagando a particularidade das emoções, ele conseguiu o financiamento para um projeto que se transformou no ponto de inflexão da sua carreira. Este aval lhe serviu para estudar, in situ e em profundidade, a origem das emoções em mais de vinte culturas.

Seus resultados serviram para estabelecer sua mais conhecida generalização: as emoções não são culturais, mas biológicas. Portanto, são universais e resultado da expressão genética.

Graças a esses genes, certos grupos musculares do rosto se contraem simultaneamente seguindo um determinado padrão em função do estado emocional no qual a pessoa está. Se ela está alegre, realizará movimentos radicalmente diferentes do que se fosse invadida pelo medo. Por sua vez, desta ideia derivam outras duas.

Paul Ekman

Universais e relacionadas com as emoções

A primeira é que a aparição das microexpressões ocorre de forma similar em todos os seres humanos. Ou seja, todas as pessoas, independentemente da cultura, do desenvolvimento, da maneira como foram criadas ou de como passaram a sua infância, por exemplo, abrem a boca para expressar surpresa.

A segunda, que existe um grupo de emoções universais que se encontram intimamente relacionadas com esses pequenos gestos. Um pequeno sorriso, um arqueio rápido de sobrancelha, uma coceira repentina no nariz… Tudo isso são pequenas variações nos músculos do rosto, praticamente imperceptíveis e involuntárias, que na maioria das ocasiões são o reflexo das nossas emoções.

Portanto, sua proposta central é que, dado que existem emoções bem definidas e uma maneira predeterminada de expressá-las, é totalmente plausível que outras pessoas possam reconhecê-las, entendê-las e, inclusive, usá-las com determinados propósitos.

Emoções que representam as microexpressões

Precisamos das emoções para tomar decisões, nos comunicar, entender os outros ou assegurar a transmissão dos nossos genes. Com esta motivação, Ekman chegou a identificar cerca de 10.000 expressões diferentes. Em 1978, junto com Wallace Friesen, ele as classificou com o seu Sistema de Codificação Facial (FACS), baseado na anatomia dos músculos faciais.

Você saberia dizer de que emoção estamos falando se alguém enruga o nariz e o lábio superior? Poderia chegar a saber se alguém sente medo só olhando nos seus olhos? Explicamos a seguir quais são as microexpressões que correspondem a essas 6 emoções universais:

  • Alegria: Elevação das bochechas. Comissura dos lábios retraída e elevada. Rugas na pele debaixo da pálpebra inferior. Ruga entre o nariz e o lábio superior e na zona externa dos olhos.
  • Nojo: Elevação do lábio superior. Geralmente assimétrica. Rugas no nariz e na área próxima ao lábio superior. Rugas na testa. Elevação das bochechas enrugando as pálpebras inferiores.
  • Raiva: Sobrancelhas baixas, contraídas e em disposição oblíqua. Pálpebra inferior tensa. Lábios tensos ou abertos em gesto de grito. Olhar proeminente.
  • Medo: Elevação e contração das sobrancelhas. Pálpebras superiores e inferiores elevadas. Lábios em tensão. Em algumas ocasiões, a boca está aberta.
  • Surpresa: Elevação das sobrancelhas, dispostas em posição circular. Estiramento da pele debaixo das sobrancelhas. Pálpebras abertas (superior elevada e inferior descendente). Descenso da mandíbula.
  • Tristeza: Ângulos inferiores dos olhos para baixo. Pele das sobrancelhas em forma de triângulo. Descenso das comissuras dos lábios que, inclusive, podem estar tremendo.

Mulher cobrindo um olho e deixando o outro aberto

Aprender a detectar mentiras em 32 horas

Paul Ekman assegura que a razão mais comum pela qual as pessoas mentem é para evitar o castigo derivado da quebra de uma regra. Ele acredita que, devido à preocupação atual dos que nos rodeiam com a honestidade, as microexpressões podem nos ajudar a detectar mentiras.

Estas microexpressões duram uma 25ª parte de um segundo. Isto é imperceptível pelo olho humano se você não está treinado para isso. Por isso, o psicólogo decidiu realizar uma prova em aproximadamente 15.000 pessoas, com a qual demostrou que 99% dos participantes não foram capazes de percebê-las.

A partir daí, ele começou a ressaltar as repercussões de saber ler isso nos outros. Então, começou a ministrar cursos sobre como pegar os mentirosos e descobrir essas microexpressões que os delatam. O que mais surpreende é que ele assegura que é possível aprender a detectá-las em somente 32 horas!

A chave é identificar as variações/dissonâncias do comportamento normal da pessoa. Por exemplo, se alguém está afirmando algo e, ao mesmo tempo, levanta ligeiramente os ombros, provavelmente está dizendo uma mentira. O mesmo pode acontecer ao coçar o nariz ou mover a cabeça para um lado.

No entanto, nada é 100% fiável. Sempre existe uma pequena margem de erro. Como mostra o escritor Roberto Espinosa, a fiabilidade da detecção depende mais de quem analisa do que de quem gesticula: “Diz-se que não existem mentirosos ruins, mas bons peritos”.

O automatismo das microexpressões

Estar suficientemente treinado na detecção das microexpressões pode ser mais fácil pelo automatismo das mesmas. Ou seja, elas não podem ser escondidas nem dissimuladas de maneira absoluta. Embora possamos tentar ocultá-las durante um momento determinado, é praticamente impossível mascará-las o tempo todo.

Até as pessoas mais mentirosas e mais acostumadas a enganar o resto são incapazes de controlar de forma indefinida o seu inconsciente. Cedo ou tarde, para o olho treinado, elas acabam se delatando.

Também é certo que, apesar do treinamento ser básico para conseguir decifrar estas microexpressões, às vezes não é tão simples. Na prática, detectá-las consiste em prestar muita atenção no outro, olhar para ele fixamente, observá-lo de uma certa distância, etc. Isso pode ser bem incômodo para a pessoa que está sendo avaliada sem perceber.

Além do mais, em algumas ocasiões o “ruído informativo” que mascara a maneira de gesticular também afeta a analise. Por isso, às vezes é necessário usar um equipamento especializado para poder captar estes momentos.

A maioria das mentiras triunfa porque ninguém se incomoda em verificar a verdade.
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Rosto de mulher jovem

Permitem que nós desenvolvamos certas habilidades

Segundo Paul Ekman, treinar a detecção das microexpressões pode nos ajudar a desenvolver certas habilidades sociais e emocionais. Entre elas, nossa inteligência emocional ou a empatia, melhorando o controle das nossas próprias emoções.

Esconder uma emoção também é mentir.
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Ser hábeis e rápidos na identificação destes pequenos gestos nos permite reconhecer certas condutas e apreciar melhor os sentimentos dos outros. Também nos ajuda a ser mais conscientes e expressar de forma mais precisa as nossas próprias emoções, aumentando a possibilidade de que os outros nos entendam. Assim, nos tornamos pessoas mais sensibilizadas com a escala das emoções, o que melhora nossa conexão com o resto das pessoas.

Muitos o comparam a figuras como Darwin, Wundt, Pavlov, Watson, Skinner, Cattell ou Sternberg. Paul Ekman, sem dúvida, se converteu em um dos emblemas da psicologia atual. Suas contribuições nesse âmbito assentaram as bases de uma verdadeira corrente educativa emocional.

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