Não se lembram dos dias, se lembram dos momentos

Não se lembram dos dias, se lembram dos momentos

abril 25, 2016 em Psicologia 0 Compartilhados
Não se lembram dos dias, se lembram dos momentos

A memória está longe de ser uma função exclusivamente intelectual. As lembranças de uma pessoa não são como as de um computador: não armazenam dados, mas dão atenção a experiências. Isso significa que nos lembramos de imagens visuais, de palavras, mas também de cheiros, sabores, sensações, momentos…

Pode-se dizer que a memória do ser humano é uma função basicamente afetiva. A informação e as vivências que são lembradas quase nunca correspondem a dados objetivos. A memória humana é criativa e, por isso, suprime ou adiciona elementos às lembranças, dependendo dos sentimentos que estão envolvidos.

De fato, há ocasiões em que nos lembramos de eventos que nunca aconteceram. Isso acontece principalmente com as vivências da infância. Uma fantasia foi vivida com tanta intensidade que acaba sendo integrada à memória, sem que tenha realmente acontecido.

As vivências que são lembradas

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Na realidade, a memória é capaz de armazenar absolutamente tudo o que vivemos ao longo da nossa existência. No entanto, somente alguns destes eventos são lembrados conscientemente; os demais ficam submersos no inconsciente.

Com toda a certeza, há um lugar em nossa memória onde está impressa a lembrança do momento em que abrimos os olhos para o mundo. No entanto, nenhum de nós pode se dar conta desse fato e isso se deve a duas razões: primeiramente, segundo um estudo realizado no Canadá, as memórias dos primeiros anos se apagam devido à produção constante de novos neurônios.

E em segundo lugar, não temos estas lembranças presentes porque, durante essa etapa, são produzidas várias experiências mais profundas em nossa psique e estas terminam sendo reprimidas, pois podem ser intoleráveis para a nossa consciência. É o que acontece com o Complexo de Édipo.

Ainda assim, muitas dessas lembranças persistem e aparecem na consciência como uma sensação isolada e, ao mesmo tempo, muito profunda. Por exemplo, quando escutamos uma melodia e uma emoção é ativada, nos remitindo ao passado, mas não podemos dizer exatamente a data ou a situação específica em que uma determinada situação ocorreu.

Em termos gerais, pode-se dizer que o que é lembrado conscientemente é aquilo que exigiu uma grande atenção ou concentração e que teve um conteúdo compreensível para nós. Podem ser situações positivas ou negativas, mas relativamente razoáveis e carentes de conteúdo emocionalmente confuso ou contraditório.

Nos lembramos mais do incomum

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Aquelas situações que captam por completo nossa atenção implicam o compromisso de uma série de componentes. A concentração mental, os sentidos de alerta, um forte sentimento associado e algum elemento de surpresa ou novidade que está relacionado aos três componentes anteriores. Por essa razão, é relativamente simples lembrar os eventos incomuns e, por outro lado, nos esquecemos facilmente daqueles que são cotidianos.

Nos lembramos conscientemente daqueles momentos que, de um modo ou de outro, exigem uma atenção completa e têm um impacto afetivo sobre nós. Mas estes momentos devem ser também perfeitamente compreensíveis para que se fixem na consciência, pois caso contrário serão reprimidos.

Os momentos inesquecíveis

O que não se esquece é aquilo que nos obriga a viver intensamente o presente em uma situação. Aqueles momentos em que você se sente como o universo, onde não existe nada além do que está ao seu redor e você sente como se o mundo começasse e terminasse ali onde você está. Isso vale tanto para experiências agradáveis quanto para as que são terríveis.

São os momentos nos quais você sente o pulso da vida em sua pele. Não importa se é dia ou noite, se faz frio ou calor. A única coisa que importa é que você se sente o protagonista de uma história fugaz e, ao mesmo tempo, eterna.

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Estes instantes tornam-se tão duradouros que mesmo após anos podem ser evocados com uma emoção muito similar. Quase voltamos a viver aquele momento, pois ficam reminiscências com intensidade suficiente para que seja assim.

Dependendo das experiências anteriores ou posteriores a este momento, a invocação é mais ou menos exata. Se o que sucedeu um evento negativo foram momentos agradáveis, certamente é possível relembrá-lo com menos dramatismo e até com risadas. Se após o evento tivemos outras situações difíceis, teremos um profundo valor de aversão em nós mesmos.

Se o que foi vivido foi positivo e foi seguido de eventos negativos, será lembrado com nostalgia. Se o que veio depois foram outros momentos agradáveis, a emoção da lembrança pode ser muito intensa e gratificante.

A memória é assim: criativa e flexível. É como uma esponja que absorve estes instantes únicos e irrepetíveis, que marcam a diferença da vida. Como um grande álbum cheio de fotografias que repassamos quando o coração pede, e que permite compreender que não nos lembramos de dias, e sim de momentos.

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Créditos das imagens: Jennifer Holmes, Kim Joone

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