Já não somos os mesmos

· agosto 4, 2016

Como seria um reencontro repentino de duas pessoas que tiveram uma relação anos depois do término, quando ambos não são mais os mesmos? Vamos imaginar uma história, uma história qualquer…

Nos reencontramos de forma repentina. Pode parecer poético, mas dobramos a esquina e batemos de frente. Sem escapatória.

Fazia três anos que não nos víamos e nossas vidas transcorriam em rotinas paralelas. Cada um em seu trem, ou talvez em vagões distintos, com bagagens diferentes. Doeu. Doeu que tudo terminasse depois de quatro anos de relacionamento.

Nos últimos meses, os problemas entre nós nos faziam andar pela vida olhando para o chão, pelo insuportável peso da tristeza e da raiva, ou então contemplando o céu e pensando no que passou e no que gostaríamos que voltasse a ser.

“Continuei e destruí cada lembrança concreta, porque já não quero encontrá-la em meus cantos, e menos ainda em meus sonhos, e é por isso que você está onde já não te busco, e agora busco a felicidade.”
-Julio Cortázar-

Já não somos os mesmos

Deixamos de ser os mesmos

Deixar de ser o mesmo é aceitar, em parte, uma ruptura com o seu interior. Uma parte de você, que já não o representa, segue desejando que volte aquela ilusão, por isso deixá-la ir é uma fratura, às vezes, muito necessária.

Parece que, em muitas ocasiões, continuamos apaixonados por aquele tempo passado que vivemos. Por aquele reflexo que já não está presente em nossa realidade. No entanto, para evitarmos enfrentar esta dissonância, aceitamos viver de uma lembrança, de uma sombra.

É claro que as relações mudam e que podem ser uma montanha-russa com diversas voltas. E é claro que a paixão se esvai e o amor pode manter unidas duas pessoas que aceitam que as mudanças são apenas isso: mudanças.

É claro que este caminho não apenas não prejudica as relações, mas também as torna cada vez maiores, mais maduras, mais fortes, quase imortais.

Quando tudo se acaba

Mas esta não é uma história de luta, é uma história de fugas, que também são batalhas. Esta é a história de um colapso, de problemas que vão mais além do emocional ou de uma etapa passageira.

Foi difícil aceitar que, por mais que tentássemos, a relação não nos fazia felizes. Pelo contrário: a infelicidade aumentava com cada tentativa frustrada.

Este estado inicial de estar apaixonados era coisa do passado, e o amor já não podia seguir crescendo, pelo menos não de forma natural e sincera, pois já não éramos os mesmos. Assim, decidimos seguir amando-nos à distância, de outra maneira.

Choramos nossa perda, nosso “deixar de ser” e nos quisemos mais do que nunca. Longe. Tão covardes quanto valentes.

Claro que havia nuances de rancor, perguntas que nunca terão resposta e um incômodo em nosso orgulho. Feridas que, ao final, acabaram por cicatrizar ao nos olharmos nesta esquina onde nos reencontramos, onde topamos de frente e sem aviso com nossos espelhos.

Já não somos os mesmos

Já não somos os mesmos. Somos aqueles que fomos, mas não nos reconhecemos desta maneira.

Apenas espero que você sorria e que também sinta menos peso em sua mochila após nos despedirmos de novo naquele dia. Como se reafirmássemos que não somos aquele reflexo e que, simplesmente, já não sentimos mais dor.

Também desejo, com todas as minhas forças, que o tempo tenha nos colocado em nosso devido lugar: felizes, assim como éramos quando nos conhecemos.

“Reuni os defeitos que havia abandonado
para estar junto a ti.
Convoquei a vingança,
o rancor
o orgulho.

Devolvi às minhas mãos os punhais
a crueldade à minha boca
e o egoísmo ao meu coração.

Por tirar de você as armas
com as quais me matava
fugi da pureza
e da sinceridade.

E afoguei em meu próprio sangue
o inocente que não soube
que dar tudo
o convertia em um homem sem nada.
Vazio para você.

Senti sua falta,
somente quando ainda me lembrava
do sabor dos seus lábios.
Ou da forma como o mar da sua nudez
se rompe contra a sua pele.

Mas hoje já estou a salvo
de seus olhos.
Os corpos das outras
já esqueceram o seu.

E em tudo que espero
já não me falta você.

Reuni o egoísmo
o rancor
o orgulho.
Como se equivoca o que consegue
a troco do que mais queria
a recompensa de sua liberdade.”

-Benjamín Prado-