Neocórtex: estruturas e funções

fevereiro 2, 2019

No nosso cérebro está a base física de tudo o que somos, o que sentimos e, ainda mais importante, de tudo o que podemos chegar a ser. Grande parte de nosso sucesso evolutivo se deve especificamente ao neocórtex, também chamado de isocórtex. Essa é a região mais recente do cérebro em termos evolutivos, assim como a maior de todas e que tornou possível processos tão sofisticados como a comunicação, a escrita, a sociabilidade, a criatividade e a tomada de decisões.

David Eagleman, escritor e famoso neurocientista da Universidade de Stanford, diz que cada cérebro é único e singular, como um floco de neve. Não existem dois iguais. Eles são o reflexo de nossas experiências, comportamentos e acontecimentos da vida.

No que diz respeito à estrutura, no entanto, todos somos o resultado do desenvolvimento filogenético, ou seja, da nossa espécie. E esse desenvolvimento é sem dúvida excepcional, com o neocórtex se colocando como um grande caso de sucesso da evolução.

Formado por uma grande quantidade de sulcos, seis camadas e dois milímetros de espessura, contém cerca de 30 bilhões de neurônios. É uma capa neuronal que cobre todos os lobos, entre eles o frontal, cujo desenvolvimento e especialização se destaca nos primatas e também, como não, nos seres humanos. Saber mais informações sobre essa área do nosso cérebro nos permitirá conhecer muito melhor a nós mesmos. Vejamos mais a seguir.

“A neurociência é, sem dúvidas, o ramo mais excitante da ciência, porque o cérebro é o objeto mais fascinante do universo. Cada cérebro humano é diferente, e o cérebro faz cada ser humano único e define quem ele é”.
-Stanley B. Prusiner (Premio Nobel de Medicina, 1997)-

Estrutura do cérebro

Neocórtex, a parte mais recente na evolução e mais extensa do nosso cérebro

O neocórtex não tem uma espessura muito impressionante. No entanto, cabe lembrar que esta estrutura está perfeitamente encaixada logo abaixo do crânio. Desse modo, a aparência clássica do cérebro, cheio de sulcos e giros – como as dobras são oficialmente chamadas – deve-se a ele. Se pudéssemos estender toda essa área dobrada ela teria, na verdade, um tamanho de cerca de 2 metros de longitude.

  • O neocórtex se divide em dois hemisférios cerebrais, o que favorece uma maior especialização neural. Cabe ressaltar também que o ser humano é o único mamífero que apresenta uma concentração tão elevada de neurônios em tão pouco espaço.
  • Por outro lado, o modo como as diferentes camadas do neocórtex estão conectadas só foi desvendado recentemente, sendo um mistério até pouco tempo atrás. Esse estudo publicado recentemente na revista científica Frontiers in Psychology mostra as camadas em forma de colunas. Ou seja, segundo os cientistas, as camadas dessa parte do nosso cérebro seguem uma organização e um padrão de conectividade que se dá dessa forma.
  • O neocórtex humano representa 76% de toda a nossa matéria cinzenta.
  • Como curiosidade, é interessante saber que essa estrutura não está presente nas aves nem nos répteis. Os cientistas, no entanto, descobriram que muita aves, como por exemplo os corvos, são incrivelmente inteligentes apesar de não possuírem um neocórtex definido.
Neocórtex

Quais são as funções do neocórtex?

Se sofrêssemos um traumatismo cranioencefálico que lesionasse o neocórtex, as consequências poderiam ser muito sérias. É por isso que é tão perigoso andar de moto ou de bicicleta sem capacete, um acidente pode fazer com que nossa capacidade de comunicação seja afetada, por exemplo.

Todos os nossos processos cognitivos, como a inteligência espacial, o poder de reconhecer faces, ou até mesmo de ter a nossa autoconsciência e o sentido de existência, integram-se nessa área tão especial do cérebro dos seres humanos e de alguns primatas.

Vejamos a seguir quais são as suas principais funções:

Funções executivas

Falamos sobre isso agora pouco. Nessa parte mais recente evolutivamente, e também mais especializada de nosso cérebro, está localizado o processamento que permite realizar tarefas como a solução de problemas, a tomada de decisões, a reflexão, a concentração, o autocontrole, a regulação do comportamento emocional e muitos outros.

São tarefas de alta complexidade que correspondem também a nossa capacidade de aprendizagem e aos processos que integramos ao ser humano durante a nossa evolução.

Linguagem e escrita

A linguagem, como já sabemos, é uma capacidade humana que nos coloca acima de outras espécies – ainda que já se saiba que algumas espécies de aves também podem falar, isso acontece por mera imitação, e não com um sentido intrínseco de comunicação social.

Por outro lado, o processo de ler e escrever também diz respeito a uma série de complexos processamentos que acontecem justamente no neocórtex. Estamos diante de uma capacidade altamente sofisticada por meio da qual podemos associar símbolos escritos e orais com um significado.

Mão escrevendo com caneta tinteira

Percepção sensorial

Entender e reagir diante do que vemos e sentimos é outra capacidade que é regulada e possibilitada pelo neocórtex.

Automatismos motores

O que torna possível que o ser humano possa escrever, dirigir, tocar instrumentos ou até mesmo caminhar de forma erguida e automática, sem ter que pensar em como fazer isso? Apesar de usarmos outras estruturas neurológicas para executar essas ações, como o cerebelo nesse caso, cabe dizer que todos esses processos são mediados e possibilitados pelo neocórtex.

Habilidades para a aprendizagem e a inovação

A capacidade de aprender e transformar aquilo que aprendemos – criar coisas novas – é o processo mais elevado e o que distingue o ser humano. Ou seja, as pessoas não estão limitadas só a transmitir informações, a adquirir novas competências. Nós somos capazes de transformar a realidade e criar conhecimento. Fazemos isso mediante a observação, a análise, a reflexão, a experimentação de tentativa e erro e a inovação.

Essa capacidade, a de aprender e criar, permitiu que nós, enquanto espécie humana, pudéssemos avançar. Assim como mostra Juan Luis Arsuaga em seu livro ‘A Espécie Escolhida’, a evolução do neocórtex surgiu como resultado de nossas interações sociais. Além disso, sabe-se que o tamanho dessa estrutura tem uma relação direta com a quantidade de indivíduos que formam um grupo social.

Portanto, não podemos deixar de lado esse aspecto tão interessante. Seguimos evoluindo e descobrindo. Foi só em 1999 que os neurocientistas descobriram a grande neuroplasticidade que o neocórtex possui. Ou seja, que o ser humano continua criando conexões neuronais ao longo de toda a sua vida.

Nossa experiência e comportamento pode favorecer e criar um neocórtex mais forte, mais habilidoso e mais resistente com o passar do tempo.

  • Arsuaga. J. L (1998). La especie elegida. Temas de Hoy.
  • Kandel, E.R., Schwartz, J.H. & Jessell, T.M. (2001). Principios de neurociencia. Madrid: McGraw Hill
  • Morgan, A.J. (2001). El cerebro en evolución. Editorial Ariel neurociencia.