Neurobiologia da intuição: a origem dos palpites

junho 11, 2019
A neurobiologia da intuição e a ciência que a estuda indicam que seu uso é mais importante do que nunca. Em um mundo às vezes caótico e complexo, saber ouvir essa voz interior pode nos ajudar a tomar melhores decisões.

A neurobiologia da intuição existe e nos revela algo muito interessante: muitas das nossas decisões são baseadas em palpites.

Afinal, a intuição nada mais é do que aquela voz interna que está em contato com a nossa identidade e com a essência de tudo que vivemos, sentimos e experimentamos. Assim, ao darmos espaço ao nosso lado intuitivo, tiramos proveito de uma ferramenta de grande valor.

Vamos admitir: a intuição muitas vezes nos leva a reinos invisíveis, para nos conectarmos com um lado nosso que opera nos recantos mais profundos do subconsciente.

Às vezes, é tão estranha para nós que é comum pensarmos que essa dimensão tem pouco de científica, que, por não ter lógica, entra no reino do místico. No entanto, assumir isso é um erro.

A intuição é o nosso sexto sentido e, como tal, esta dimensão tem extensa literatura científica. Temos livros tão interessantes quanto Educar a intuição de Robin M. Hogarth ou Inteligência Intuitiva de Malcolm Gladwell.

Nesses trabalhos, assim como em muitos outros que coletam dados contrastados, lembramos a importância desse tipo de recurso que nos ajuda a complementar o pensamento analítico.

O pesquisador médico Jonas Salk, conhecido em sua época pelo desenvolvimento da vacina contra a poliomielite, escreveu um artigo interessante em 1983 intitulado Fusão da Intuição e da Razão, no qual falou da necessidade de ter presente o nosso sexto sentido no dia a dia.

Todos nós precisamos dessa voz interna para nos ajudar a tomar melhores decisões.

“A única coisa realmente valiosa é a intuição.”
-Albert Einstein-

Neurobiologia da intuição

O que a neurobiologia da intuição nos diz?

Primeiro, a neurobiologia da intuição nos diz que esses processos mentais não vêm da imaginação humana. Eles realmente têm um correlato neurológico.

Foi o Dr. Keiji Tanaka, do Instituto de Ciências do Cérebro RIKEN, que realizou um estudo interessante para tentar dar respostas sobre como o sexto sentido é articulado a nível cerebral.

Para isso, ele usou como sujeitos experimentais alguns habilidosos jogadores de shogi. Trata-se de um jogo de estratégia muito semelhante ao xadrez, em que as pessoas mais habilidosas recorrem brilhantemente à intuição para realizar movimentos surpreendentes.

O Dr. Tanaka também realizou uma série de ressonâncias magnéticas nesse grupo de pessoas, para ver quais áreas do cérebro eram usadas em maior grau.

O pré-cúneo

Dentro da neurobiologia da intuição, pode-se ver que a área que mais se iluminou foi o pré-cúneo. É uma pequena parte do lobo parietal superior que, por sua vez, está localizado bem no meio de ambos os hemisférios cerebrais.

O pré-cúneo, além disso, está relacionado à memória episódica, processamento visoespacial, e o que é mais interessante, com a nossa consciência.

O córtex pré-frontal ventromedial

Outra área interessante que é ativada quando usamos essas respostas mais intuitivas é o córtex pré-frontal ventromedial. Esta é, sem dúvida, uma estrutura muito relevante.

Ela armazena informações sobre recompensas passadas, bem como o peso dos erros sofridos ou fatos que devemos evitar para não sofrer consequências desagradáveis.

  • Foi o famoso neurocientista Antonio Damasio que determinou a importância dessa área em nossa tomada de decisão. O mais notável nessa área é que ela nos encoraja a emitir respostas baseadas em emoções.
  • Para entender melhor, daremos um exemplo. Nós conhecemos alguém em uma festa, alguém que nos convida depois para ir para casa.
  • O córtex pré-frontal ventromedial pode fazer uma análise rápida baseada em experiências passadas. Talvez a personalidade, a aparência, o modo de falar dessa pessoa nos cause desconfiança, porque nos faz lembrar de outra cujos resultados não foram bons.
  • Portanto, essa estrutura emitirá uma emoção de alarme para nos dar um toque de atenção. Essa será a maneira pela qual a voz da intuição se tornará presente em nossa mente consciente.

Agora, uma vez que a voz interna é ouvida, temos duas opções. Prestar atenção nela ou, então, passar esse sentimento através do filtro do pensamento mais analítico para fazer uma avaliação mais minuciosa.

Mão tocando o horizonte

O núcleo caudado

Estudos científicos sobre a neurobiologia da intuição também falam sobre o núcleo caudado. Essa estrutura faz parte dos gânglios basais, áreas ligadas a processos de aprendizagem, nossos hábitos e comportamentos mais automáticos.

O núcleo caudado, portanto, facilita esse impulso para o sexto sentido, para nos ajudar a tomar decisões rápidas e quase automáticas baseadas em experiências anteriores ou aprendizados.

“Não deixe que o barulho das opiniões alheias silencie a sua voz interior. E, o que é mais importante, tenha a coragem de fazer o que seu coração e sua intuição dizem. De alguma forma, você já sabe o que realmente quer se tornar.”
-Daniel Goleman-

Desta forma, como podemos ver com todos esses dados, há pouco espaço para suspeitar que esses processos respondem à mera imaginação ou ao acaso.

A intuição não tem apenas correlatos neurais; parte de nossa experiência é nutrida pela essência da nossa personalidade e pelo baú do subconsciente onde a essência do nosso ser dorme.

Falar de palpites não é falar de pseudociência, é fazer uso desse mecanismo que definiu o ser humano, independentemente de seu gênero ou de sua cultura. Vamos refletir sobre isso, atendamos sempre a essa voz interna, complementando-a com o pensamento analítico.

  • The Neural Basis of Intuitive Best Next-Move Generation in Board Game Experts. Xiaohong Wan et al. in Science, Vol. 331, pages 341–346; January 21, 2011.Developing Intuition: Neural Correlates of Cognitive-Skill Learning in Caudate Nucleus. Xiaohong Wan et al. in Journal of Neuroscience, Vol. 32, pages 17,492–17,501; November 28, 2012.
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