A neurobiologia do apego humano

· maio 11, 2019
Os vínculos humanos experimentados ao longo da vida são transformadores. Assim, têm o potencial de reparar relações negativas nos estágios iniciais da vida por meio de relações saudáveis posteriores.

O apego é uma característica dos mamíferos. Assim, o estudo sobre a neurobiologia do apego humano também se baseia nas pesquisas realizadas com animais. Segundo pesquisas recentes, o apego parece se basear na interferência da ocitocina e da dopamina no corpo estriado.

O que parece definitivo é que, ao longo da vida, os diferentes apegos humanos compartilham a neurobiologia na qual se baseiam. Em geral, caracterizam-se pela sincronia do comportamento e pela integração das redes corticais e subcorticais envolvidas nos mecanismos de recompensa e motivação, simulação incorporada e mentalização.

A neurobiologia comum do apego humano

Segundo Ruth Feldman, pesquisadora no campo da neurobiologia do apego humano, o estudo do apego dos mamíferos deve ser feito a partir de uma perspectiva de desenvolvimento. Isso porque o córtex cerebral associativo está conectado, em grande parte, por experiências iniciais em contextos de criação de filhos entre 2 e 4 anos.

Os apegos criados posteriormente, tanto com parceiros amorosos quanto com amigos íntimos ou membros de um grupo, reutilizam o mecanismo básico estabelecido pelo vínculo inicial mãe-filho durante “períodos sensíveis”.

Esses “períodos sensíveis” são definidos como momentos iniciais e específicos na vida, quando o cérebro deve obter determinadas contribuições ambientais para um amadurecimento adequado (5). No contexto do apego, os períodos sensíveis, como resultado, envolvem os comportamentos típicos de criação da espécie.

Proposições do modelo de neurobiologia dos apegos humanos

Proposições do modelo de neurobiologia do apego humano

Em sua pesquisa, a Dra. Feldman reúne algumas proposições do modelo de neurobiologia do apego humano. São as seguintes:

  • Como dissemos anteriormente, a pesquisa sobre os apegos humanos implica uma perspectiva de desenvolvimento. Assim, o vínculo entre os mamíferos estaria respaldado por sistemas neurobiológicos. Estes são formados pela relação da mãe com o filho durante os primeiros períodos sensíveis (6).
  • A continuidade nos sistemas neurobiológicos sustenta as relações humanas. Assim, os apegos humanos reutilizam o mecanismo básico estabelecido pelo vínculo pai-filho na formação de outros apegos ao longo da vida. Por exemplo, o apego romântico ou as amizades íntimas (7).
  • As relações humanas são seletivas e duradouras. Os vínculos, portanto, têm como objetivo o apego e duram longos períodos, inclusive toda a vida (1).
  • A relação baseia-se no comportamento desencadeado pela expressão de padrões de comportamento específicos da espécie, específicos da pessoa e também da cultura. A relação envolve processos ascendentes. As áreas do cérebro relacionadas à união e aos sistemas neuroendócrinos são ativadas pelo comportamento relacionado ao apego (4, 8).
  • A sincronia do comportamento biológico é uma característica fundamental dos apegos humanos. Assim, os apegos humanos são caracterizados pela combinação do comportamento não verbal com a resposta fisiológica coordenada entre os envolvidos no contato social (9).
  • O papel central do sistema de ocitocina e da ligação dopamina-ocitocina está envolvido na maternidade humana. Também na paternidade, na coparentalidade, no apego romântico e na amizade íntima. Assim, a integração de ocitocina e de dopamina no corpo estriado promove a união. Além disso, envolve os apegos com motivação e vigor (10).
A neurobiologia comum do apego humano

Seguindo as propostas…

  • A formação de vínculos implica uma maior atividade e uma interferência mais estrita entre os sistemas relevantes. A ativação e os vínculos mais estreitos entre os sistemas que respaldam a afiliação, a recompensa e o gerenciamento do estresse são observados durante os períodos de formação de apego. (11)
  • Os apegos humanos promovem a homeostase, a saúde e o bem-estar ao longo da vida. Assim, os apegos sociais melhoram a saúde e a felicidade, enquanto o isolamento social aumenta o estresse e o risco de morte, e deteriora a saúde (12).
  • Os padrões de apego são transferidos de uma geração para outra. Os padrões de comportamento experimentados no início da vida organizam a disponibilidade de ocitocina e a localização do receptor no cérebro do bebê. Assim, configuram a capacidade para criar a próxima geração (13, 14).
  • O cérebro humano é um órgão formado pelo apego mãe-filho e pela proximidade do corpo da mãe para funcionar dentro da ecologia social. O cérebro imaturo do mamífero jovem ao nascer apresenta a necessidade de estar próximo de uma mãe que amamenta o cérebro como um “órgão localizado”. Além disso, responde constantemente alinhado ao mundo social (15).
  • Os vínculos humanos experimentados ao longo da vida são transformadores. Como resultado, têm o potencial de reparar relações negativas nos estágios iniciais da vida através de relações benévolas posteriores. Assim, a grande plasticidade do cérebro social humano e sua natureza baseada no comportamento permitem que os vínculos posteriores reorganizem as redes neurais e reparem, pelo menos em parte, as experiências negativas nos estágios iniciais da vida (16).

Para concluir

Parece que a neurobiologia do apego humano é baseada, portanto, nas interações da ocitocina e da dopamina no cérebro. Parece que, além disso, estes sistemas cerebrais são formados durante o apego na infância. Assim, é interessante saber que esses sistemas são reciclados para a criação dos vínculos seguintes da vida, como a amizade ou o amor.

  1. Feldman, R. (2017). The neurobiology of human attachments. Trends in Cognitive Sciences, 21(2), 80-99.
  2. Rilling, J. K. (2014). Comparative primate neuroimaging: insights into human brain evolution. Trends in cognitive sciences, 18(1), 46-55.
  3. Kundakovic, M., & Champagne, F. A. (2015). Early-life experience, epigenetics, and the developing brain. Neuropsychopharmacology, 40(1), 141.
  4. Feldman, R. (2015). The adaptive human parental brain: implications for children’s social development. Trends in neurosciences, 38(6), 387-399.
  5. Feldman, R. (2015). Sensitive periods in human social development: New insights from research on oxytocin, synchrony, and high-risk parenting. Development and Psychopathology, 27(2), 369-395.
  6. Carter, C. S. (2014). Oxytocin pathways and the evolution of human behavior. Annual review of psychology, 65, 17-39.
  7. Feldman, R. (2016). The neurobiology of mammalian parenting and the biosocial context of human caregiving. Hormones and Behavior, 77, 3-17.
  8. Feldman, R. (2012). Oxytocin and social affiliation in humans. Hormones and behavior, 61(3), 380-391.
  9. Feldman, R. (2012). Bio-behavioral synchrony: A model for integrating biological and microsocial behavioral processes in the study of parenting. Parenting, 12(2-3), 154-164.
  10. Love, T. M. (2014). Oxytocin, motivation and the role of dopamine. Pharmacology Biochemistry and Behavior, 119, 49-60.
  11. Ulmer-Yaniv, A., Avitsur, R., Kanat-Maymon, Y., Schneiderman, I., Zagoory-Sharon, O., & Feldman, R. (2016). Affiliation, reward, and immune biomarkers coalesce to support social synchrony during periods of bond formation in humans. Brain, behavior, and immunity, 56, 130-139.
  12. Cacioppo, J. T., Cacioppo, S., Capitanio, J. P., & Cole, S. W. (2015). The neuroendocrinology of social isolation. Annual review of psychology, 66, 733-767.
  13. Weaver, I. C., Cervoni, N., Champagne, F. A., D’Alessio, A. C., Sharma, S., Seckl, J. R., … & Meaney, M. J. (2004). Epigenetic programming by maternal behavior. Nature neuroscience, 7(8), 847.
  14. Feldman, R. (2007). Mother‐infant synchrony and the development of moral orientation in childhood and adolescence: Direct and indirect mechanisms of developmental continuity. American Journal of Orthopsychiatry, 77(4), 582-597.
  15. Akers, K. G., Yang, Z., DelVecchio, D. P., Reeb, B. C., Romeo, R. D., McEwen, B. S., & Tang, A. C. (2008). Social competitiveness and plasticity of neuroendocrine function in old age: influence of neonatal novelty exposure and maternal care reliability. PloS one, 3(7), e2840.
  16. Schore, A. N. (2013). Relational trauma, brain development, and dissociation. Treating complex traumatic stress disorders in children and adolescents: Scientific foundations and therapeutic models, 3-23.