A neuropsicologia do envelhecimento

dezembro 22, 2019
O envelhecimento é um tema que tem despertado interesse nos últimos anos. Isso se deve ao aumento de expectativa de vida ao nascer, assim como à proporção de pessoas maiores de 60 anos com relação à população geral.

Todos nós envelhecemos. Gostando ou não, sabemos que nossas células envelhecem com o tempo e que tanto a nossa aparência física quanto a nossa cognição vão mudando com os anos. Um dos campos que se ocupam de estudar essas mudanças a nível neuronal é a neuropsicologia do envelhecimento.

Segundo a Organização Mundial da saúde (OMS), a partir do ponto de vista biológico, o envelhecimento é a consequência da acumulação de uma grande variedade de danos moleculares e celulares ao longo do tempo, o que leva a um descenso gradual das capacidades físicas e mentais.

Além disso, o envelhecimento também leva a um aumento do risco de doenças e, finalmente, à morte.

No entanto, além das mudanças biológicas, também há outros fatores que influenciam o envelhecimento. Assim, influenciam também os entornos físicos e sociais, particularmente a moradia, o bairro e as comunidades que rodeiam a pessoa.

Além disso, as características pessoais de cada um (sexo, etnia, nível socioeconômico…) também têm a ver com a forma como envelhecemos.

Árvores em forma de cabeça

Envelhecimento normal e patológico

A neuropsicologia do envelhecimento normal

As mudanças fisiológicas que acontecem no envelhecimento normal podem levar a perdas funcionais e dependem de vários fatores:

  • Estado cognitivo;
  • Incapacidade física;
  • Fatores emocionais;
  • Doenças médicas intercorrentes;
  • Qualidade de vida.

Patologias como a hipertensão, a diabetes e doenças cardiovasculares supõem com o tempo uma perda das habilidades físicas e funcionais. Assim, por exemplo, a ansiedade e a depressão aumentam o risco de desenvolver uma deterioração cognitiva.

No envelhecimento normal, o grau de perda de função é influenciado pela reserva cerebral e cognitiva. A reserva cognitiva é a capacidade do cérebro adulto de manter uma função normal quando é afetado por agressões.

Assim, o impacto das agressões é menor quando há mais reserva cognitiva. Isso acontece porque o tecido cerebral saudável é capaz de suprir a perda de neurônios e sinapses. Assim, em indivíduos com menor reserva cognitiva, a mesma patologia produziria um maior déficit.

Neste sentido, o modelo neuropsicológico do envelhecimento concentra-se nas relações existentes entre a cognição e os fatores de risco, os fatores protetores, o cérebro e o estado clínico dos pacientes. Sendo assim, para o estudo das mudanças cognitivas associadas à idade, são analisados alguns aspectos da cognição, como:

  • Velocidade de processamento;
  • Atenção;
  • Memória e aprendizado;
  • Linguagem;
  • Funções executivas;
  • Funções pré-motoras, visuoperceptivas e visuoespaciais.

Testes associados ao envelhecimento normal

Sobre o estado cognitivo geral, a atividade funcional e o estado de ânimo:

  • Mini-mental state examination (MMSE);
  • Blessed Dementia Scale (BDS);
  • Questionário funcional da atividade (FAQ);
  • Back Depression Inventory (BDI);
  • Subteste de informação (WAIS-III).

Sobre a velocidade de processamento e a atenção:

  • Tarefa de tempos de reação (PC,  Vienna System);
  • Paced Auditory Serial Addition Test (PASAT);
  • Trail Making Test (TMT-A);
  • Color Trails Test (CTT).

Por último, sobre as funções visuoespaciais, viusorreceptivas e visuoconstrutoras:

  • Ressonância magnética estrutural;
  • Ressonância magnética funcional.

Mudanças cognitivas na neuropsicologia do envelhecimento normal

No envelhecimento, a variabilidade individual de cada um, que nos leva a apresentar uma ou outra mudança em nosso corpo, é importante. No entanto, existem vários fatores que contribuem para essa variabilidade:

  • Estado de saúde geral: física, mental e emocional;
  • Nível cultural;
  • Nível da atividade física e cognitiva;
  • Fatores hereditários;
  • Fatores econômicos, sociais e familiares.

As funções cognitivas na neuropsicologia do envelhecimento normal

Quando envelhecemos, algumas funções cognitivas são mais afetadas do que outras. Sendo assim, o envelhecimento afeta mais as habilidades fluidas do que as habilidades “cristalizadas”. As primeiras incluem o raciocínio, a memória de trabalho, a velocidade de processamento, etc. As segundas fazem referência aos conhecimentos acumulados e à experiência.

Assim, sabemos graças às pesquisas que a deterioração de algumas funções começa na juventude, enquanto outras permanecem em um mesmo nível até idades avançadas. Dessa forma, algumas funções como o vocabulário, a informação geral ou a lembrança de episódios históricos ou pessoais passados mantêm-se relativamente estáveis.

Outras funções, como a habilidade aritmética, diminuem a partir dos 25 anos. A velocidade de processamento da informação, a memória episódica e a fluência verbal diminuem a partir dos 70 anos.

Homem com o cérebro se despedaçando

Neuropsicologia do envelhecimento patológico

Em muitas patologias associadas ao envelhecimento, encontramos o comprometimento cognitivo leve (CCL). Trata-se de um “estado” de afetação cognitiva superior ao da faixa etária pertinente, não chegando a suprir os critérios estabelecidos para a demência.

Assim, de acordo com Petersen (2001), para o diagnóstico de CCL é preciso observar os seguintes  sintomas durante pelo menos seis meses:

  • Queixas subjetivas de memória, preferivelmente reveladas por pessoas confiáveis;
  • Queixas subjetivas de uma ou várias áreas cognitivas, preferivelmente reveladas por pessoas confiáveis;
  • Deterioração cognitiva na memória ou algum outro domínio cognitivo;
  • Atividades da vida diária preservadas;
  • Ausência de demência.

Assim, parece claro que, com a idade, as funções cognitivas diminuem. A população de pessoas mais velhas é cada vez maior e, por isso, é preciso colocar em prática mecanismos que melhorem sua qualidade de vida.

O mundo precisa estar preparado para atender de forma subjetiva e integral aos problemas relacionados ao envelhecimento progressivo da população que podem surgir.

  • Hernández, L., Montañés, P., Gámez, A., Cano, C., & Núñez, E. (2007). Neuropsicología del envejecimiento normal. Revista de la Asociación Colombiana de Gerontología y Geriatría, 21(1), 992-1004.
  • Petersen, R. C., Doody, R., Kurz, A., Mohs, R. C., Morris, J. C., Rabins, P. V., … & Winblad, B. (2001). Current concepts in mild cognitive impairment. Archives of neurology, 58(12), 1985-1992.
  • Petersen, R. C., Stevens, J. C., Ganguli, M., Tangalos, E. G., Cummings, J. L., & DeKosky, S. T. (2001). Practice parameter: early detection of dementia: mild cognitive impairment (an evidence-based review): report of the Quality Standards Subcommittee of the American Academy of Neurology. Neurology, 56(9), 1133-1142.