Nós, de Jordan Peele: da risada ao horror, mas sem esquecer a crítica

maio 6, 2020
Neste artigo, tentaremos não revelar a trama do último filme de Jordan Peele, 'Nós'. O cineasta, que possui apenas dois filmes sob seu nome, já se consagrou como um mestre que sabe unir harmoniosamente o terror, a comédia e a crítica sociopolítica. Por isso, sem mais delongas, falaremos sobre um dos lançamentos cinematográficos mais interessantes do ano.

‘Nós’ é a última perversão de Jordan Peele, e digo perversão não no sentido estrito da palavra, mas sim no sentido mais crítico, o de romper com a ordem em vigor.

Terror e comédia andam de mãos dadas nesse filme, entrelaçando-se para construir uma obra que se torna absurda nos mesmos momentos em que se torna genial. Um massacre quase carnavalesco e satírico acaba se tornando uma profunda crítica ao capitalismo e, com certeza, ao mundo como o conhecemos.

A força de suas imagens, o recurso do doppelgänger, o humor nos momentos mais críticos e um uso genial de metáforas têm como pano de fundo uma crítica política da qual, em um primeiro momento, não somos conscientes.

Se em seu primeiro longa-metragem, ‘Corra!’, Jordan Peele abraçou a crítica ao racismo na sociedade americana, em ‘Nós’, ele não deixou suas intenções tão claras.

Uma família norte-americana, liderada por uma mãe com um trauma profundo do passado, passará por um estranho acontecimento. Toda a ação dura apenas uma noite e algumas horas.

Os protagonistas encontram uma família estranha na porta da casa onde passarão as férias. Um reflexo ou duplo deles mesmos, pessoas como eles, mas que não vieram exatamente em busca de paz.

O título da versão original, ‘Us’ – nós, em inglês – supõe um jogo de palavras que remete a US (United States – ou Estados Unidos). Isso se materializa em um dos momentos cruciais do filme através da declaração do duplo da protagonista: ‘We Are Americans’ (Nós somos americanos).

E sim, são americanos, são iguais à família protagonista, iguais a nós, mas na verdade são também o preço a ser pago pelo “sonho americano”.

‘Nós’ e a temática dos duplos

O tema do duplo, ou doppelgänger, é um dos recursos mais explorados do mundo artístico, especialmente na literatura. Uma questão muito vinculada à dualidade, ao obscuro e ao mal.

Com o tempo, essa ideia do duplo ganhou diferentes conotações. Dessa forma, vemos representações diferentes em O Duplo, de Dostoievski, e em O Médico e o Monstro, de Stevenson.

O duplo, além disso, pode se manifestar de diversas formas, mais ou menos explícitas. Ele pode aparecer através de espelhos, de reflexos, de sombras, ou por meio de algum tipo de gêmeo maligno.

Por exemplo, se pensarmos no personagem mitológico Narciso, veremos nele uma das primeiras manifestações do tema. Nessa ocasião, o duplo aparece como um reflexo.

Em ‘Nós’, Jordan Peele parte dessa tradição, mas a reinventa e a traz para o presente. A primeira pista que temos do duplo da protagonista acontece na sala de espelhos. Ou seja, em um lugar que facilmente é capaz de distorcer a realidade e, ao mesmo tempo, supõe um componente da realidade e da verdade.

Dessa forma, em meio aos espelhos, uma criança se encontra com seu duplo, mas não com um reflexo como seria o esperado, e sim com uma criança exatamente como ela.

Estamos diante de um duplo maligno? É isso o que Peele nos faz pensar durante o filme. As pistas estão diante de nossos olhos e nos dão alguns indícios que nos fazem pensar que nada é o que parece e nada é por acaso em ‘Nós’.

A dualidade estará presente em todo o filme: um mundo verdadeiro oposto a uma cópia ou uma paródia dessa realidade.

A partir de um uso genial da tradição e da questão do duplo, o filme usa outras metáforas de uma forma muito inteligente para, finalmente, chegar a uma espécie de William Wilson contemporâneo, no qual acabamos apunhalando a nós mesmos.

Cena do filme 'Nós'

Um jogo de metáforas

O que significa o cartaz que aparece algumas vezes: ‘Jeremias 11:11’? Como era de se esperar, o texto faz referência a uma citação bíblica que diz: “Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar a mim, eu não os ouvirei”.

No filme, não temos nenhum Deus que julga o homem, mas temos humanos que julgaram ser deuses, temos uma verdade aterrorizante e uma perseguição que não deixa lugar para a esperança.

O versículo é, então, uma espécie de sinopse do que vamos ver, como uma verdade oculta que em algum momento descobriremos.

‘Nós’ é transformado por Jorden Peele, em diversos momentos, em uma versão assustadora de Alice no País das Maravilhas. Só que em vez de cair em uma toca ou atravessar um espelho, aqui descobrimos uma terrível verdade.

A aparição dos coelhos no filme tem um significado ainda maior, sendo o caminho para o mundo subterrâneo e fantástico que Alice encontrou e que, em ‘Nós’, é uma espécie de paródia do nosso mundo.

Por outro lado, encontramos também uma referência ao passado recente. Nos anos 80, uma campanha chamada Hands Across America foi realizada nos Estados Unidos. A finalidade era formar uma corrente humana e arrecadar dinheiro para os mais desfavorecidos.

A campanha fracassou enormemente e a sociedade preferiu seguir grudada na televisão. Esse evento foi representado em ‘Nós’, mas nesse caso não será um ato pacífico e sem importância, e sim um autêntico banho de sangue.

‘Nós’ e a crítica de Jordan Peele: entre a sátira e o terror

‘Nós’ articula um filme que se encaixa perfeitamente nas bases do gênero do terror, recorre a um elemento tradicional como é o doppelgänger para, finalmente, desembocar em uma crítica feroz ao capitalismo.

O ritmo ágil e a habilidade de Peele para dirigir nosso olhar faz com que ‘Nós’ até se afaste em alguns momentos do seu gênero cinematográfico.

Peele se converte em um regente de orquestra capaz de fazer o tambor soar no momento mais intenso e dramático, capaz de silenciar o momento mais crucial com um enorme estrondo.

No meio do terror, o humor também tem vez. Colocando uma piada ou outra no meio de ‘Nós’, Jordan Peele nos desperta do terror, nos deixa respirar e alivia nossa angústia.

Desse modo, o filme se torna perfeitamente adequado para os amantes do terror e também para aqueles que se assustam mais facilmente.

Duas crianças com máscaras no escuro

Poucos filmes costumam me deixar com medo, e reconheço que ‘Nós’ conseguiu, em alguns momentos, me fazer tremer. Mas justo quando o medo começava a me envolver, a risada interrompia o processo, sem esquecer uma tremenda carga política. Isso porque a crítica é, na realidade, um aspecto chave de ‘Nós’.

Peele volta a criticar o racismo, dando os papéis protagonistas a atores negros em uma escolha que, longe de ser casual, converte-se em um ato de rebeldia.

Enquanto o cinema é marcado por um mundo de homens brancos, Peele reivindica esse papel aos que, durante anos, foram os esquecidos. E, ao mesmo tempo, os contrapõe a uma família branca acomodada para nos mostrar que, ainda hoje, existem desigualdades.

Falamos desse fascínio que os brancos muitas vezes sentem em relação a tudo o que é “diferente”, uma admiração aparentemente inocente mas que esconde um passado histórico vinculado ao racismo bem enraizado.

Mas ‘Nós’ não acaba aí. Isso seria voltar ao outro filme de Peele, ‘Corra!’, e dessa vez ele está decidido a contar algo mais. É que, no fim, o mundo capitalista não se importa com sua raça se você tem dinheiro no bolso, se você pode gastar com entretenimento ou com bens materiais.

A crítica ao materialismo, à nossa era e aos absurdos que surgem diante de muitas das nossas ações cotidianas se verbaliza, respira e se materializa em ‘Nós’.

‘Nós’ oferece uma visão caricatural da realidade, do capitalismo e da nossa hipocrisia em relação aos problemas do outro, tudo isso em um filme capaz de atrair a massa, de manter o suspense e de nos fazer rir até no momento mais terrível.

Sem dúvida, estamos diante de um dos grandes lançamentos de 2019. Uma grande lição em uma comédia no meio de um apocalipse no qual, de certo modo, podemos ver um reflexo nosso.