A falta de esperança: quando achamos que tudo está perdido

agosto 13, 2019
A falta de esperança é exaustão mental, emocional e comportamental. É estar cansado de tantas decepções e tristezas acumuladas.

A falta de esperança é um veneno que pouco a pouco apaga sonhos, motivações e energias. É uma camada de decepção permanente.

É aquela sensação que nos faz respirar através da amargura até nos mergulhar em uma armadilha psicológica muito perigosa. Porque com o tempo, esses estados nos deixam muito vulneráveis à depressão e a outros transtornos com um alto custo emocional.

Na prática clínica do dia a dia, sabemos que grande parte das condições psicológicas dispõem de intervenções estabelecidas que podem servir de ajuda às pessoas.

Sabemos, por exemplo, qual terapia e quais estratégias oferecer a um paciente com um transtorno de ansiedade, com um transtorno de estresse pós-traumático, com fobias, etc.

No entanto, há outras realidades que, por mais curioso que pareça, são altamente desafiadoras para qualquer profissional.

Falamos de situações nas quais alguém diz ter perdido o sentido da vida, alguém que se sente aprisionado pela falta de esperança, alguém que sofre emocionalmente sem saber muito bem a razão…

Esses estados nem sempre aparecem no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). São muitos os pacientes que ainda não cruzaram essa linha a partir da qual existe uma condição clínica.

No entanto, estão no abismo, na beira desse precipício, momento no qual é necessária uma rápida intervenção para que não caiam, para que se possa agir a tempo.

Porque se há algo que a maioria de nós sabemos é que a falta de esperança é uma crença perigosa e irracional que faz a pessoa chegar a pensar que tudo, absolutamente tudo, está perdido…

“A falta de esperança se baseia no que sabemos, que é nada. E a esperança se fundamenta no que ignoramos, que é tudo”.
-Maurice Maeterlinck-

A Esperança na Prisão do Desespero

A falta de esperança, a resposta emocional e comportamental que precede a depressão

Vamos observar a imagem acima por um momento. É uma obra da pintora pré-rafaelita Evelyn De Morgan, intitulada A Esperança na Prisão do Desespero. 

Nela, observamos uma escura masmorra na qual há uma mulher inclinada que esconde o rosto. Ela está diante de uma janela, mas não quer se aproximar nem um pouco para ver a luz do sol. Essa figura é a falta de esperança.

Atrás dela, há um jovem que segura uma fonte de luz: é a esperança tentando iluminar a mulher, reconfortá-la, trazer para ela o otimismo, a coragem e a força interior.

Nessa obra, a pintora quis representar esse ser inspirador que todos devemos invocar a fim de sair da prisão pessoal na qual frequentemente vamos colocando nossas decepções, mágoas, frustrações e vazios.

O que exatamente é a falta de esperança?

A palavra esperança vem do termo francês “espoir”, e significa respiração. Portanto, a falta de esperança seria a simbolização não apenas da falta de respiração, mas também da ausência de “espírito” ou da perda da essência que nos torna humanos. 

Para além desse significa simbólico, sem dúvida há a realidade objetiva que se desprende desse sentimento. A falta de esperança, longe de possuir apenas uma explicação, tem na verdade uma complexa rede de dinâmicas e processos internos muito significativos.

Isso faz com que, por exemplo, seja tão complicado para a pessoa responder por quais motivos ela se sente sem esperança.

  • O que se sente é a perda de significado. De repente, nada mais tem sentido para a pessoa.
  • Há um acúmulo de experiências negativas que não foram processadas de maneira correta.
  • Há uma baixa autoestima.
  • Observa-se, ao mesmo tempo, uma vulnerabilidade evidente. Chega-se a um ponto no qual se considera como certo que nada, nenhuma ação específica, poderá mudar as coisas.
  • Há a presença de sentimentos como a tristeza, a apatia, o cansaço físico, a desmotivação, o desinteresse por tudo que antes definia a pessoa.
  • Há frustração, amargura e um grande pessimismo.

Um aspecto que não podemos deixar de lado ao viver toda essa sintomatologia é que, se essas dinâmicas psicológicas e comportamentais forem persistentes, abriremos caminho a um evidente processo depressivo.

Homem sofrendo com a falta de esperança

Recuperar a esperança para prevenir a depressão

A falta de esperança, geralmente, vem e vai. É uma inquilina incômoda que nos visita em determinadas épocas, mas que aos poucos tende a desaparecer quando mudamos a perspectiva ou colocamos novos hábitos em prática.

Alguns estudos, como o realizado pela Universidade de Twente, na Holanda, afirmam que a falta de esperança costuma estar vinculada ao nosso estilo de personalidade.

Há perfis com uma maior tendência ao pessimismo e à vulnerabilidade. No entanto, isso não quer dizer que estejam obrigatoriamente destinados a sofrer uma depressão após a outra.

Todos nós temos a possibilidade (e a obrigação) de fazer uso de recursos pessoais adequados para enfrentar a falta de esperança. Algumas dicas para refletir são as seguintes:

  • Entenda como você se sente, tentando nomear cada estado mental e emocional.
  • Compreenda que a falta de esperança frequentemente segue a regra dos três: estou exausto por me sentir triste, frustrado, decepcionado. Afinal de contas, é um estado cumulativo. É ter deixado passar muitas coisas sem tê-las resolvido previamente. Portanto, é importante tentar se livrar da origem desses sentimentos.
  • A falta de esperança é um estado emocional que se intensifica, ao mesmo tempo, pelos nossos comportamentos. Seguir as mesmas rotinas vai fazer com que alimentemos essa situação, esse estado. Portanto, devemos colocar novos hábitos em prática. Devemos tentar nos conectar com a realidade de outros modos, inovar, iniciar novos projetos, ser criativos na medida do possível.
Mulher em busca de esperança

Para concluir, quando nos encontramos nessa prisão da falta de esperança simbolizada no quadro de Evelyn De Morgan, o mais importante é gerar alternativas, abrir novas portas, transitar por novos ares.

Fica claro, no entanto, que nem sempre é possível sair desses cubículos de dor psicológica sozinhos.

Terapias como a cognitivo-comportamental podem nos ajudar nesses casos. Não devemos hesitar, portanto, em buscar ajuda profissional se for necessário.

  • Seligman, Martin (2018) El circuito de la esperanza: viaje de un psicólogo desde la desesperanza al optimismo. Ediciones B
  • Lazarus, R. S. (2018). Hope: An Emotion and a Vital Coping Resource Against Despair. Source: Social Research66(2), 653–678. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2013.07.113