O autoengano no alcoolismo

maio 26, 2020
O autoengano nos vícios é um dos fatores que os mantém ao longo do tempo. Uma automedicação a longo prazo que envolve uma tortura psicológica para quem a sofre.

Alguns anos atrás, uma colega psicóloga me disse que não conseguia entender os alcoólatras. Não entendia esse autoengano no alcoolismo, esse desprezo pela vida por causa de uma substância. Infelizmente, esses tipos de “profissionais” são comuns no tratamento de vícios. Uma perspectiva tendenciosa e moralista, incapaz de oferecer alternativas atrativas e dinâmicas, que só aprofundam o sentimento de incapacidade e perpetuam a culpa paralisante.

Deve-se entender que o autoengano no alcoolismo é um dos fatores que interferem na continuidade do vício e na ocorrência de recaídas. No entanto, o autoengano não é o que causa o vício, embora, em muitos casos, seja o fator decisivo que o mantém. Entendendo esse ponto, seremos capazes de desvendar o autoengano no alcoolismo para oferecer uma visão mais reabilitadora do comportamento viciado.

O alcoolismo é cada vez mais considerado um transtorno biopsicossocial pelos especialistas, e considerando sua etiologia e evolução, é impossível ignorar os fatores ambientais. Como destacamos, é crucial entender o autoengano e a perpetuação do problema (Zucker e Williams, 1994).

O autoengano nos vícios

O autoengano no alcoolismo e a evitação de uma realidade aversiva

Pessoas com um vício podem parecer completamente irracionais e incompreensíveis para os outros. Com pesar e exasperação, os não-viciados se perguntam como uma pessoa pode estar tão equivocada e não ver a dor que pode estar causando. Como o autoengano no alcoolismo pode ser tão destrutivo?

Gregory Bateson foi o primeiro a tentar entender o alcoolismo através de uma epistemologia complexa. Seu ensaio A cibernética do Eu: Uma Teoria do Alcoolismo considera o comportamento alcoólico como uma experiência corretiva.

Se, de certa forma, é a vida sóbria do alcoólatra que o empurra a beber, não devemos esperar que procedimentos direcionados à sobriedade reduzam ou “controlem” o seu alcoolismo.

O mesmo ambiente que nos leva ao vício não vai nos afastar dele

Existem estilos de vida sóbrios que levam a beber. Realidades, discussões e memórias que pedem para ser anestesiadas. Existem normalidades que contêm erros, ou até uma patologia para muitas pessoas sensíveis demais. Não encontram a embriaguez em suas próprias vidas, em seu trabalho ou família. Em sua própria existência.

A intoxicação apenas traz uma correção (subjetiva) desse erro existencial. Em outras palavras, para essas pessoas, em comparação à sobriedade, a intoxicação é “boa”.

Para Luigi Cancrini (1993), o alcoolismo, assim como o vício em drogas, pode ser visto como uma tentativa autoterapêutica diante das dinâmicas de relacionamento e familiares que são fonte de sofrimento.

Uma vez que o álcool apenas destrói, como funciona o autoengano para continuar bebendo?

Os tratamentos mais contemporâneos de autoengano se concentraram legitimamente no requisito de intencionalidade de Butler. Quando somos motivados a acreditar em algo, tendemos a operar com um certo viés de confirmação. Buscamos evidências para apoiar nossa crença e tendemos a não dar tanta atenção ao que a desafia.

As pessoas aceitam mais facilmente como evidência o que está diante de seus olhos, especialmente quando apoia suas crenças. Portanto, o autoengano no alcoolismo implica uma crença motivadora, mesmo que seja falsa.

Muitas das pessoas que têm um vício não consideram que têm um problema. Só iniciam uma intervenção pelo impulso e força do ambiente. Nesse caso, as pessoas recorreriam à terapia pelos outros – para que não sofram, para não vê-los sofrer, porque não suportam a pressão a que são submetidos todos os dias – e não por si mesmas. Nesses casos, é provável que a pessoa siga a intervenção “de fachada”.

Além disso, ela pode basear sua ideia de ausência de problema apontando outras pessoas em seu círculo de conhecidos que consomem mais do que ela e ainda não sofreram danos. Também pode criar uma desculpa para apontar o fato de que, no passado, parou de consumir o álcool quando quis.

Mulher alcoólatra

O autoengano como forma de continuar acreditando em si mesmo

Enquanto a motivação permanecer inativa para uma pessoa, será muito difícil convencê-la da falsidade de uma crença. Por outro lado, se ela conseguir começar a entender o que a motiva a manter certas crenças e pontos de vista, vai adquirir um conhecimento crucial.

O vício é, de certa forma, um hábito. Um hábito que é mantido automaticamente, sem intenção consciente. Quando desaceleramos as ações usuais ao nos perguntarmos por que estamos fazendo algo, saímos do modo de piloto automático.

Em conclusão, compreender o autoengano e a tendência de confirmação pode fornecer um terreno comum para as pessoas que querem entender como os outros podem ser vítimas de seus próprios vícios. Os profissionais de psicologia devem estar em primeiro plano nesse panorama.