É assim que o cérebro multiplica os problemas

09 Julho, 2020
O cérebro multiplica os problemas como consequência de um viés cognitivo que leva à instalação e ao desenvolvimento de padrões, que são generalizados ou aplicados em excesso sem nenhuma razão real para isso. Por isso, temos a sensação de que as dificuldades se acumulam, quando a realidade não é bem assim.

Muitas pessoas reclamam de que “os problemas nunca chegam sozinhos” ou de que “quando os problemas começam, nunca mais terminam”. De alguma forma, eles estão certos, mas isso provavelmente não se deve a um desígnio da fatalidade, mas a um viés cognitivo: o cérebro multiplica os problemas.

Os cientistas chegaram a esta conclusão através de várias experiências. O cérebro multiplica os problemas porque, apesar de ser um órgão fabuloso e complexo, também possui limitações. Tais limitações decorrem do fato de que a mente tende a criar padrões para tudo, pois essa é uma maneira de economizar energia. No entanto, essas diretrizes gerais são enganosas.

A importância de descobrir que o cérebro multiplica os problemas é que essa posição nos permite ser mais críticos e estar atentos ao funcionamento do pensamento, para colocar um limite onde for necessário. Caso contrário, as dificuldades e o gasto emocional que elas implicam se estenderão mais do que o necessário.

“Não podemos resolver os problemas pensando da mesma maneira que quando os criamos”.
– Albert Einstein –

Confusão mental

O cérebro multiplica os problemas

Para explicar o mecanismo pelo qual o cérebro multiplica os problemas, o psicólogo David Levari, da Universidade de Harvard, usa uma comparação ilustrativa. Ele diz que, quando confrontado com o perigo, o cérebro age de maneira semelhante aos sistemas de vigilância do bairro.

Tais sistemas são ativados quando há muita insegurança em um bairro. O papel que desempenham é alertar sobre a presença de estranhos ou ações suspeitas que levam a pensar em possíveis assaltos. Quando detectam que algo está errado, notificam imediatamente a polícia para que tomem uma providência.

Esses sistemas geralmente funcionam, diminuindo assim a insegurança. O lógico seria que, nesse caso, os alertas também diminuíssem, mas isso não acontece. O que geralmente ocorre é que os vigilantes começam a ver sinais de perigo em situações ou ações que anteriormente não despertavam suspeitas.

É como se um estado de alarme tivesse sido acionado e não pudesse ser extinto. O cérebro funciona de maneira semelhante. Uma vez que os alertas são acionados pela presença de um problema (e todo problema implica um perigo implícito), ele não consegue “desligá-los” ou bloqueá-los por conta própria, mas os alimenta.

Um experimento revelador

Para concluir que o cérebro multiplica problemas, vários experimentos foram realizados. Um dos mais conhecidos, que mais tarde se tornou um teste viral nas mídias sociais, foi publicado na prestigiada revista Science.

Para fazer o experimento, foram convocados 1.000 participantes, todos com visão completamente normal. Todos eles receberam uma imagem composta por 1.000 pontos, com cores que variavam de azul muito intenso até um roxo intenso. As diferentes tonalidades estavam distribuídas aleatoriamente.

Os participantes foram convidados a dizer quais pontos eram azuis e quais eram roxos. Durante a primeira sessão, a maioria identificou os pontos coloridos sem problemas.

No entanto, nas sessões seguintes, o conceito de cor azul parecia se expandir cada vez mais. Assim, no final, os voluntários viram até os pontos que eram claramente roxos como azuis. O que isso significa?

O cérebro multiplica os problemas

O viés cerebral

O experimento nos mostra que, na realidade, o cérebro tende a estabelecer padrões de maneira cada vez mais rígida. Assim, os participantes, que inicialmente conseguiam distinguir claramente azul e roxo, estavam cada vez mais propensos a aplicar os critérios de cor azul a “tudo”.

Por que isso mostra que o cérebro multiplica os problemas? Quando enfrentamos um problema, aparece um sinal subjetivo de alerta. Por isso, dedicamos os nossos esforços a resolver o assunto. No entanto, mesmo depois de conseguir isso, o cérebro continua a aplicar critérios de risco àqueles fenômenos que não se enquadram nessa categoria.

Um exemplo cotidiano: uma pessoa discute com o seu chefe e isso a deixa chateada. Então, ela vai para sua mesa e não encontra a sua caneta, não porque a perdeu, mas porque ainda está atordoada e os seus sentidos permanecem sequestrados de alguma forma. Não é incomum uma pessoa nessa situação dizer “hoje tudo está dando errado para mim”, quando a realidade não é bem assim.

Em tempos de pandemia isso também acontece, precisamente porque todos nós estamos enfrentando um grande problema. Portanto, não é raro que um vento forte ou um terremoto sejam interpretados como um sinal do fim dos tempos. Simplesmente, o cérebro está agindo sob um padrão de alerta e não consegue parar. Devemos estar vigilantes para que esse viés cognitivo não prevaleça.

Aguado, L. (2002). Procesos cognitivos y sistemas cerebrales de la emoción. Revista de neurología, 34(12), 1161-1170.