O conselho de Mary Shelley para superar momentos sombrios

Mary Shelley escreveu "O Último Homem" em seu momento mais sombrio; logo após a morte de três de seus filhos e a de Percy B. Shelley. Neste livro, ela nos oferece conselhos valiosos para enfrentar aqueles momentos em que a vida parece não fazer sentido...
O conselho de Mary Shelley para superar momentos sombrios
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 13 fevereiro, 2023

Existem histórias de vida que nos inspiram, mesmo que sejam encharcadas por rios de tristeza. Exemplo disso foi a figura da autora de Frankenstein ou do Prometeu moderno. Sua existência sempre foi marcada por um amor apaixonado, mas trágico: o de Percy B. Shelley. Uma relação marcada por inúmeros altos e baixos devido aos episódios amoroso do poeta com outras mulheres.

Um de seus esforços constantes era fazer com que a poesia do marido fosse reconhecida. Freqüentemente, ela priorizava muito mais o trabalho dele do que o dela. Embora ela nunca tenha parado de criar, dando rédea solta ao seu pensamento e criatividade. Não podemos esquecer que sua educação foi primorosa, e que uma das obsessões de seu pai foi sempre treiná-la nas mais diversas disciplinas.

Sua mãe era a filósofa e escritora feminista, Mary Wollstonecraft, (que morreu logo após o parto) e seu pai, o romancista, jornalista e filósofo William Godwin. Mary Shelley deslumbrou o mundo com sua clássica obra gótica, mas também foi um exemplo de como o sofrimento traça nossos destinos com tinta invisível. A sua foi marcada por várias tragédias que enfrentou graças a uma mentalidade muito especial que vale a pena recordar.

«Só existe uma solução para o intrincado enigma da vida; melhorar a nós mesmos e contribuir para a felicidade dos outros”.

-Mary Shelley-

livro mary shelley
Há momentos em que a vida não tem sentido. É nesses momentos que devemos fazer o maior esforço para encontrar algo a que nos amarrar.

Mary Shelley e por que a vida sempre vale a pena ser vivida

“Frankenstein é a obra mais maravilhosa que tenha sido escrita nos últimos vinte anos. Você cultivou sua mente de maneira tão admirável que se tornou uma grande e bem-sucedida autora. Se você não pode ser independente, quem pode ser?” Estas palavras foram ditas por William Goldwin à sua filha, consciente de que esta obra faria parte da história da literatura.

No entanto, além do próprio Frankenstein, há outro livro de Mary Shelley que merece nossa atenção; estamos nos referindo a O Último Homem, publicado em 1826. Este incrível romance distópico não nos deixa indiferentes. É ambientado em 2092, data em que será comemorado o tricentenário do nascimento de seu amado marido, Percy B. Shelley.

É sobre uma terrível pandemia que acabou com a humanidade. Apenas um jovem, Lionel Verne, sobreviveu. Este ser solitário e idealista relembra seu passado, fazendo uma análise profética de onde a sociedade pode levar. Nessas páginas há pessimismo e esperança, mas o estilo de sua escrita é tão poético e estóico ao mesmo tempo, que funciona como um bálsamo para a superação.

«Para viver, segundo este sentido da palavra, não devemos apenas observar e aprender, devemos também sentir. Não basta sermos meros espectadores da ação, é preciso agir; não devemos descrever, mas ser sujeitos de descrição.

-Mary Shelley-

No meio da escuridão, vamos encontrar um propósito

Quando Mary Shelley escreveu O Último Homem, ela estava passando pelo pior momento de sua vida. Ela estava lidando com a depressão de seus abortos espontâneos, a morte de vários de seus filhos pequenos por doenças infecciosas e o profundo pesar pela perda de seu marido.

Percy B. Shelley partiu em 8 de julho de 1822 da costa de Livorno com dois amigos em um veleiro. Dez dias depois, seus corpos apareceram na costa de Viareggio. Lord Byron cremou seu amigo naquela mesma praia. Naquele momento, a fase mais sombria começou para ela e, embora ela continuasse ativa criando o filho que lhe restava, escrevendo e compartilhando o tempo com os amigos, nada mais era o mesmo.

Por que viver? O protagonista de O Último Homem constantemente se perguntava isso. O que esse personagem faz é voltar às suas raízes, ao seu lar. Num mundo completamente devastado, é preciso regressar ao que outrora deu sentido, a uma casa e, a partir daí, reformular propósitos.

No caso de Mary Shelley, seu objetivo era tornar seu marido um ícone poético por meio da publicação póstuma e da promoção de seu trabalho.

“Nada contribui tanto para aquietar a mente quanto um propósito firme, um ponto no qual a alma pode fixar seu olhar intelectual.”

-Mary Shelley-

Pessoa no meio da floresta escura pensando em Mary Shelley
Nos momentos sombrios, procuremos sempre dar o melhor de nós, deixando os rancores de lado.

Vamos melhorar como pessoas e fazer os outros felizes

Lionel Verney era o alter ego da própria Mary Shelley em O Último Homem. Naquele mundo solitário, em ruínas e sem vestígios de outro ser humano, o protagonista se dedica a observar a beleza da natureza. Não demora muito para se encantar por seus riachos, suas árvores, suas flores, suas matas frondosas e por essa sutil transformação com o passar de cada estação…

É aí, nesse cenário de equilíbrio natural, que ele descobre o quanto a terra é resistente. É nesse lugar que ele descobre que, apesar da desolação que o cerca, a beleza sempre surge de forma admirável. Nesse fim da própria humanidade, ele percebe que o ser humano também tem essa capacidade: florescer e se transformar em algo bom, em algo belo.

Em momentos sombrios, todos nós temos a oportunidade de florescer e melhorar a nós mesmos. Longe de ficar preso ao ressentimento pela perda, à raiva pelo que nos foi tirado, será sempre melhor dar o melhor de si para fazer os outros felizes.

A vida sempre será um intrincado enigma, mas se contribuirmos para o bem comum, daremos a ela maior sentido e significado. Essa é a chave.

Nota final

Mary Shelley faleceu aos 53 anos de idade devido a um tumor cerebral. Ela teve uma vida inteira dedicada ao que realmente amava -ainda mais que seu próprio marido-, a literatura. Seu pai a educou para que ela tivesse uma mente livre e fizesse da escrita seu modo de vida e seu mecanismo de liberdade. E ela o conseguiu.

Percy B. Shelley também a incentivou a conquistar sua própria reputação no mundo das letras. Ela conseguiu e por sua vez trinfou  no seu propósito de fazer de seu marido um ícone da poesia. Ela não é autora de um único romance, aquele que lhe deu sucesso. Ela é uma das figuras mais marcantes do romantismo e alguém a ser admirada por sua atitude, carisma e inteligência.


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