O desespero que há por trás do transtorno depressivo

setembro 27, 2019
Nos momentos em que nos sentimos desesperados, angustiados por não encontrar sentido nas coisas, chateados com nós mesmos, quem acaba pagando por isso são os demais. A verdade é que por trás destas realidades psicológicas tão angustiantes, pode haver uma depressão.

O desespero é o eco que emerge do vazio. É a raiva de perder a esperança, é a tristeza transformada no lamento de quem acredita ter perdido tudo e já não enxerga a luz no horizonte, nem significado em seu presente.

Poucos estados psicológicos podem ser tão perigosos como este cume no qual a pessoa já não sabe que caminho seguir ou quais desvios são corretos.

Sabemos que o desespero é uma experiência humana comum. Filósofos como Søren Kierkegaard falaram dele ao longo século, definindo-o como falta de espírito, de sentido e de desafio.

Jean-Paul Sartre, por sua vez, disse inclusive que há nesta dimensão uma frustrante incapacidade de seguir em frente, assim como há um negativismo quase covarde que, frequentemente, nos é empurrado pela sociedade.

Entretanto, a partir de um ponto de vista psicológico, ninguém se aprofundou e esmiuçou tão bem o desespero humano quanto Viktor Frankl.

O pai da logoterapia e sobrevivente de vários campos de concentração nazistas definiu este conceito através de duas ideias muito básicas: sofrimento e perda de sentido.

Estas experiências são, sem dúvida, as mais desoladoras para uma pessoa, mas ainda assim é possível sobre(viver) a elas. Todos nós podemos passar por elas e encarar a vida com novos e melhores recursos.

“O que costumamos chamar de desespero é apenas a nossa dolorosa fome de esperança”.
– George Eliot-

Jovem desesperado

Desespero psicológico, uma emoção angustiante

Se cada pessoa neste planeta fosse afastada de seus propósitos, de sua visão de si mesma e do significado que atribui a sua vida, nós as levaríamos ao desespero mais absoluto.

Assim, embora frequentemente definamos esta dimensão como uma mistura de tristeza e falta de esperança, cabe sinalizar que há algo mais profundo.

É vazio e também é cair em um estado mental no qual nós não deixamos de fazer perguntas sem respostas a nós mesmos. É comum, de fato, que surjam questões do tipo: que sentido a vida tem? O que eu estou fazendo neste mundo? O que eu posso fazer agora, nesta situação, quando nada faz sentido?

Este tipo de pergunta só alimenta o ciclo de desespero, criando um buraco de escuro psicológico no qual a pessoa fica presa.

Desespero alimentado pela ansiedade

Pesquisas como a realizada pelo dr. Martin Bürgy, da Universidade de Stuttgart, na Alemanha, sinalizam que o desespero foi até pouco tempo um fenômeno psicopatologicamente descuidado por parte dos cientistas.

De alguma forma, deixávamos o desespero nas mãos do universo filosófico quando, na verdade, ele se relaciona melhor com problemas existenciais.

No entanto, a psicologia cognitiva tem consciência de que este conceito tem uma grande transcendência clínica. O desespero pode aparecer de forma pontual em nossas vidas.

Podemos senti-lo quando, em um determinado momento, tudo parece dar errado em nossas vidas e nos sentimos bloqueados e até mesmo perdidos temporariamente. No entanto, em outros casos, a situação se complica um pouco mais.

Acontece quando caímos em ciclos de pensamentos ruminantes e obsessivos nos quais alimentamos a negatividade e o desamparo. Adiciona-se a estes pensamentos negativos um complexo emaranhado de emoções como a tristeza, a angústia, a raiva, a frustração, etc.

Assim, é muito comum que, no início, o desespero surja como resultado da própria ansiedade. Entretanto, se esta situação se mantiver no tempo, a pessoa acabará desenvolvendo, inevitavelmente, um transtorno depressivo.

Homem enfrentando momento de desespero

O desespero nos obriga a enfrentar a nós mesmos

O desespero levado ao seu extremo acaba gerando ideias extremas na mente da pessoa. A idealização suicida é o resultado dessa perda total de sentido e esperança, sem dúvida a parte mais perigosa do desespero. Por isso, é crucial dispor de ajuda psicológica.

Sendo assim, é comum que o desespero seja um elemento quase sempre presente na depressão maior e até mesmo no transtorno bipolar. São situações muito delicadas que exigem um tratamento farmacológico junto com a terapia psicológica.

Entretanto, assim como sinalizamos no início, estas realidades podem ser superadas com ajuda especializada e com um compromisso.

Para isso, é recomendável refletir sobre algumas questões.

A raiva que habita o desespero pode nos ajudar

A raiva continua sendo uma emoção desconhecida. É energética, poderosa, reivindicativa e transformadora se a canalizarmos bem.

  • O desespero é feito da raiva de quem não vê sentido em nada. Há um sentimento de raiva com o mundo e também consigo próprio. E isso, embora nos surpreenda, é bom. Porque o mais perigoso é a apatia, a imobilidade, não sentir nada, experimentar um vazio e não se importar.
  • Porém, se colocarmos a raiva a nosso favor e gerarmos mudanças, as coisas podem encontrar, pouco a pouco, um novo equilíbrio. Só é preciso canalizar a energia de forma que o potencial positivo caia sobre a realidade.

Homem sem saber o que fazer

Cara a cara com si mesmo para começar de novo

Há quem diga que o desespero é a prisão do nosso pior “eu”. É o nosso lado mais obscuro, que nos quer fracos e perdidos. Carl Jung dizia que o propósito da terapia psicológica é a transformação e, acima de tudo, alcançar uma individualidade na qual a pessoa encontre seu próprio sentido de vida.

Portanto, é nossa obrigação aceitar essa “sombra” da qual Jung falava para sermos capazes de, depois, transcendê-la. Para sermos capazes de alcançar o lado mais iluminado e forte para encontrar de novo a esperança e a segurança.

Precisamos ter consciência de que essa é uma viagem cheia de dificuldades, mas que, sem dúvidas, é um caminho que vale a pena iniciar para deixar o sofrimento para trás.

  • Buergy, M. (2007). Una introducción a la desesperación como fenómeno psicopatológico. Nervenarzt , 78 (5), 521- +. https://doi.org/10.1007/s00115-006-2057-3
  • Hicks, D. (1998). Stories of Hope: a response to the ‘psychology of despair.’ Environmental Education Research4(2), 165–176. https://doi.org/10.1080/1350462980040204