O que é a linguagem inclusiva?

agosto 21, 2019
O que é a linguagem inclusiva? Por que devemos usá-la? Descubra neste artigo.

O fato de que as mulheres sofrem discriminação é incontestável. Entretanto, o uso da linguagem inclusiva dá abertura para um debate com diferentes opiniões.

O português, por sua estrutura, faz distinções entre gêneros. Há idiomas que distinguem mais, como o árabe e o hebraico, e outros que são mais inclusivos, como o basco e o alemão.

Assim, o debate encontra-se no fato de que a língua portuguesa exclui a mulher do masculino genérico. Por um lado, há aqueles que afirmam que o uso do masculino genérico reforça as estruturas patriarcais, e que o uso da linguagem inclusiva seria um primeiro passo para acabar com essa discriminação.

Por outro lado, há aqueles que defendem a linguagem como ela se encontra hoje em dia. Embora possa parecer que alguns defendem o feminismo enquanto outros não, ambas as posições têm suas razões, que serão explicadas a seguir.

A linguagem e o sexismo

Para compreender o papel que a linguagem exerce, vamos analisar a diferença entre significado e significante. O significado é a palavra, escrita ou pronunciada, enquanto o significante é a ideia que temos de uma determinada palavra.

Assim, “casa” é um significado, mas a imagem que temos de uma casa é o significante. A diferença está no fato de que o significante de casa pode incluir portas, janelas, chaminé, etc.

“A escravidão prolongada das mulheres é a página mais obscura da história da humanidade.”
-Elisabeth Cady Stanton-

Aplicado à linguagem inclusiva, o significante “Congresso dos Deputados” é masculino, mas seu significado inclui “deputados” e “deputadas”. Portanto, não se deve confundir “ausência de gênero feminino” no significante com “invisibilidade das mulheres” no significado.

No entanto, essa explicação esquece algo importante. O significado sempre acontece em um contexto. Dessa forma, o sentido seria o significado mais o contexto.

Bonecos simbolizando a discriminação contra as mulheres

O debate da linguagem inclusiva

Algumas pessoas atestam que o domínio masculino na sociedade apresenta-se como origem do predomínio masculino nos gêneros gramaticais. Mas esta afirmação, a priori, parece falsa.

Uma mesma língua pode ser usada tanto em sociedades machistas quanto em sociedades mais próximas à igualdade. Portanto, não se pode afirmar que a sociedade machista seja a causa da linguagem sexista.

“Hoje, assim como ontem, as mulheres devem se recusar a ser submissas, porque a dissimulação não pode servir à verdade.”
– Germaine Greer –

O mesmo acontece com as linguagens inclusivas ou que usam o feminino como genérico. Estas também são usadas em sociedades patriarcais. Consequentemente, não há relação comprovada de causa e efeito entre sociedade e linguagem em termos de dominância masculina.

Posicionar essa relação como se fosse verdade é equivalente a ver o problema em um plano (desigualdade real) e colocar a solução em outra (gramática).

O problema está no contexto. A linguagem só é compreendida em uso, em sua aplicação concreta. Ou seja, em um contexto. Se falarmos sobre a seleção de futebol, certamente a pessoa que estiver lendo ou escutando vai pensar na seleção masculina.

Portanto, mesmo que a solução para a discriminação da mulher passe por mudar a realidade, a mudança na linguagem pode ter uma influência. Isto é, o contexto é o que vai alterar o significado das palavras sem a necessidade de alterar seu significante.

Linguagem inclusiva entre casal

Procedimentos linguísticos

De acordo com o observado, a solução é que as mulheres se apropriem dos genéricos, em vez de se excluir deles. Isso pode acontecer de várias formas. Uma delas é começando a usar a linguagem inclusiva.

Uma das opções para usar uma linguagem inclusiva é incluir duplicações como “cidadãos e cidadãs”, “brasileiros e brasileiras”, “todos e todas”. Estas formas também podem ser abreviadas ao escrever: brasileiros/as. Além disso, existem outras soluções escritas como usar um @ ou um x ([email protected] ou todxs).

Assim, a mudança no idioma pode facilitar a integração das mulheres no âmbito das palavras. No entanto, para construir uma sociedade mais justa, é necessário banir a violência machista, a disparidade salarial e a publicidade sexista.

Para isso, aplicar um ensino igualitário é fundamental, e a linguagem inclusiva pode ser uma parte dessa educação.

Assim, quando todos estes problemas estiverem resolvidos e existir uma verdadeira igualdade, o gênero gramatical perderá a importância. No entanto, até então, um primeiro passo pode ser usar uma linguagem não sexista para que as mulheres se sintam mais integradas.

Sendo assim, não podemos nos esquecer de que a principal mudança é a mudança de contexto que, por sua vez, mudará o sentido.

  • Arias, A. (1995). De feminismo, machismo y género gramatical. Valladolid: Universidad.
  • Calero, M. A. (1999) Sexismo lingüístico. Análisis y propuestas ante la discriminación sexual en el lenguaje. Madrid: Nancea.
  • Grijelmo, A. (2018). ¿Invisibiliza nuestra lengua a la mujer? El País. Recuperado de https://elpais.com/cultura/2018/11/28/actualidad/1543418937_639835.html
  • Marco, A. (1996). Estudios sobre mujer, lengua y literatura. Santiago de Compostela: Universidad de Las Palmas de Gran Canaria y Universidad de Santiago.