Como trabalhar com órfãos por violência de gênero?

· junho 13, 2018

A perda da figura materna é sempre uma situação complexa. Na vida adulta este é um momento difícil e muito complicado de superar, mas é ainda pior quando somos pequenos. Pode ser que não cheguemos a compreender totalmente o que aconteceu, de forma que a vivência do luto se torna mais difícil. Esta situação pode ser muito mais difícil para os órfãos por violência de gênero. 

Nestes casos, não foi apenas sua mãe que morreu, mas o seu pai foi o responsável por esse acontecimento. A realidade é que a violência de gênero deixa múltiplas vítimas ao mesmo tempo… O que podemos fazer para ajudar os filhos de mulheres assassinadas por seus parceiros?

“As lágrimas não são para as pessoas que perdemos. São para nós. Para que possamos lembrar, celebrar, sentir saudades e nos sentirmos humanos.”
– C. J. Redwine –

Quais fatores influenciam o luto dos órfãos por violência de gênero?

Os órfãos por violência de gênero precisam enfrentar a um luto duplo: o causado pela morte de sua mãe e aquele devido à perda de seu pai, que muitas vezes se suicida, foge ou é preso. Esta situação tão complicada pode levar a um luto que se torna patológico.

Menina em plantação

A elaboração de um luto saudável ou patológico por parte das crianças vai depender de muitos fatores. Dentre eles, a idade e o desenvolvimento cognitivo e emocional delas, assim como a informação que lhes foi transmitida sobre o acontecimento e a pessoa que lhe comunicou sobre a morte da mãe. Além disso, o fato de estarem ou não presentes no momento do assassinato e a relação afetiva que mantinham com seus progenitores também influenciarão.

Como os órfãos por violência de gênero reagem diante da morte da mãe?

Depois do ocorrido, os órfãos por violência de gênero se encontram diante de um mundo desconcertante e inseguro, ao qual devem se adaptar sem as figuras de apego que lhes proporcionavam segurança e das quais dependiam. Assim, é normal que se sintam inseguros ou que surjam grandes quantidades de emoções como a raiva, a tristeza e a ansiedade.

“Se reprimirmos muito o luto, ele pode dobrar.”
– Molière –

Desta maneira surge o medo de ficarem sós e desprotegidos, assim como de serem abandonados. Por isso, costuma-se demandar uma dose extra de atenção e cuidado por parte de seus novos cuidadores, sentindo uma grande dependência em relação a eles. Inclusive, pode ser que surjam comportamentos correspondentes a crianças de idades inferiores.

A negação da realidade também é muito comum em órfãos por violência de gênero, assim como a incapacidade para expressar as emoções experimentadas por causa do acontecimento. Por outro lado, podem aparecer ideias obsessivas a respeito do que aconteceu, condutas de isolamento e negação ao estabelecer novas relações, e inclusive doenças físicas do tipo psicossomáticas.

Menino pequeno lidando com o luto

O que podemos fazer para ajudar aos órfãos por violência de gênero?

Diante de uma situação tão complicada, é normal que os órfãos por violência de gênero precisem de ajuda externa para preparar o luto de forma correta. Assim, é imprescindível que o pequeno entenda, aceite e reintegre o que aconteceu. Para isso, será fundamental que a criança expresse como se sente.

“Ninguém me disse que o luto se sente como o medo.”
– C. S. Lewis –

Assim, é primordial trabalhar a adaptação da criança ao seu novo lar e ambiente familiar, esse no qual sua mãe já não existe. Desta maneira, estaremos ajudando-o a conseguir outro passo chave: estabelecer novas relações saudáveis. Com isso, avançaremos na regulação da tristeza pela perda e a lembrança de sua mãe.

Por último, é importante trabalhar para que a criança normalize as emoções que aparecem associadas à sua mãe. Assim, iremos ajudá-la a legitimar sua raiva e confusão de forma que possa canalizá-las adequadamente.

Dada a complexidade da situação, é aconselhável contar com a ajuda de um psicólogo especializado. Desta maneira, estaremos proporcionando aos órfãos por violência de gênero a melhor ajuda possível.

Imagens oferecidas por Aaron Burden, Nathan Bingle y Kelly Sikkema.