Algumas vezes, assim como nós, os heróis também se rendem

Os heróis também se rendem

outubro 22, 2016 em Psicologia 0 Compartilhados
Algumas vezes, assim como nós, os heróis também se rendem

Todos temos heróis ao nosso redor. Nossos heróis são as pessoas que lutaram incansavelmente contra o câncer ou contra qualquer outra doença degenerativa, aguda ou mortal. Essas pessoas com seu senso de humor e sua coragem não deixaram nunca de mostrar seu sorriso ao mundo apesar de todas as adversidades.

Eles, nossos heróis, nos ensinaram tudo aquilo pelo que vale a pena lutar. Ensinaram que o mundo pode ser de cores muito diferentes dependendo do cristal por meio do qual se olha para ele, que os verdadeiros amigos estão sempre lá mesmo nos piores momentos e que o que vale a pena sempre exige um pouco mais de esforço.

Também, ao menos para mim, ensinaram que há batalhas que uma vez que já não tenhamos mais condições de vitória é melhor simplesmente deixar de lado, deixar de lutar. Ensinaram que ser honesto consigo mesmo e com os próprios sentimentos não é ser covarde. Mas, sobretudo, ensinaram que render-se não costuma ser bem recebido ainda que em alguns casos seja o mais certo a se fazer.

A dor de querer partir

Quando a notícia de uma doença chegou, meu herói não podia acreditar, estava em choque. A negação foi sua primeira etapa da luta. A notícia é tão assustadora e tão pouco maleável. Essa etapa fez com que ele se protegesse, protegesse a si mesmo de seu sofrimento, pelo menos durante um certo tempo.

Quando os resultados dos exames médicos chegaram, ele começou a compreender o seu estado. Sentia-se como um pequeno porquinho-da-índia sem poder controlar nada ao seu redor, só sentia dor. Essa falta de controle e essa dor o levaram para uma segunda etapa, a raiva. Envolveu-se completamente na raiva, tornando-se uma pessoa inacessível, dura e intransigente. Houve um momento em que parecia que os outros tinham até mesmo culpa pela sua dor. Mas eu sabia que era sua única forma de lidar.

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A terceira etapa conhecida como negociação passou rápido porque seu estado piorava rapidamente. Porque de repente ele tinha um bom dia, mas não se sabia quanto tempo isso iria durar ou se esse dia ia ser realmente seu último dia bom. Ainda que ele fosse dado como curado e a doença como superada, poderia haver uma mudança a qualquer momento.

A seguir chegou a depressão, batendo à porta com seus garras porque o “se eu for morrer” virou um “quando eu morrer”. Mas ele não deixou com que as garras o pegassem, porque pela primeira vez deixou de pensar nele para pensar em todos os outros, aqueles que iria deixar para trás.

Foi então que chegou a aceitação. A última fase, a inevitável. Aceitou a morte como um processo a mais da vida, porque tudo tem seu final. O problema é que aqueles que se importavam com ele não aceitaram porque é difícil colocar o outro em primeiro lugar.

Disse a nós que já não ia lutar mais, que queria se despedir de todos porque não queria que o vissem se deteriorando, porque lutar já não servia mais de nada. Seu destino já estava escrito e decidiu simplesmente esperá-lo e pedir respeito pela decisão. Disse que doía sim partir, principalmente por todos que deixava para trás mas que doía ainda mais viver com a dor física que tinha em vida, fazendo com que a morte não despertasse tanto medo assim.

O egoísmo de não deixar ir

Dizem que crescer é aprender a se despedir. Então eu sou uma criança muito mimada cheia de medos que se agarram a mim com todas as suas forças. Não quero me despedir de você assim tão rápido, quero acompanhá-lo até seus últimos dias, quero que lute com todas suas forças nem que seja para conseguir alguns minutinhos a mais longe da morte.

Mas também sei que sua dor é insuportável e que sou muito egoísta impedindo que você se vá, recriminando que tenha decidido se render como se isso fosse algo assim tão ruim. Eu só ajo assim porque perdê-lo será a maior das minhas dores, mas você me ensinou que é possível viver com dor…

Não se preocupe, hoje eu decidi também entrar na fase da aceitação. Já aceitei que você vai embora e eu vou perdê-lo. E não se preocupe não, que ainda que eu diga que quando você se for minha vida vai acabar, porque minha vida é você, eu sei que isso não é certo, que estou sendo egoísta, é que não quero viver em um mundo em que você não esteja. Mas não vou me afogar na tristeza, me lembrarei de você sempre e viverei feliz como homenagem a você e a tudo o que poderíamos ter vivido.

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Eles sempre serão nossos heróis

A todos aqueles que decidem se render, queria lembrar a vocês que os heróis nem sempre carregam capas ou têm superpoderes. Às vezes carregam uma mochila pesada cheia de histórias, de sonhos, de amigos e família que deixam pelo meio do caminho mas que nunca vão esquecer.
O único modo de viver com sentido não é viver pensando só na dor dos outros, mas sim assumindo também a própria dor. Assumir que nem todas as histórias têm um final feliz depois de uma longa caminhada, mas que às vezes algumas histórias deixam de ser contadas. E ainda que a história não esteja completa e não tenha um final feliz, é uma história que não deixa de ser muito bela.
É uma beleza clichê de filme de Hollywood dizer que os doentes lutam até o final, que sua coragem nunca se abala ou que têm superpoderes. Isso não é o que acostuma acontecer. Os heróis também se rendem e nem por isso se tornam menos heróis.
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