O que acontece com as crianças que têm pais que exigem demais?

fevereiro 20, 2020
Os pais exigentes têm uma única coisa em mente: querem que seus filhos deem o melhor de si mesmos. No entanto, será que a estratégia que eles utilizam funciona ou provoca o efeito contrário?

Os pais que exigem demais só querem que seus filhos deem o melhor de si mesmos. O problema reside no fato de que eles não os incentivam da forma mais adequada: se esquecem de como as crianças estão percebendo e recebendo estas exigências. Por isso, o que conseguem é justamente o efeito contrário.

Muitos dos pais que exigem demais de seus filhos tiveram pais que agiam da mesma forma com eles. Nada parecia suficiente; havia uma insatisfação que não se reduzia apenas às notas. Se praticavam algum tipo de esporte, nunca eram bons o suficiente. Sempre havia um “mas” ou um “você pode melhorar”.

Como este foi o ambiente em que eles foram educados, consideram que é a forma como devem educar seus filhos. No entanto, esta decisão tem graves consequências.

Criança triste olhando para baixo

Em busca de uma perfeição inexistente

As crianças que têm pais exigentes tentam cumprir com as suas expectativas. Infelizmente, como nada do que fazem parece valer, começam a ter uma sensação de desilusão e até de culpa. Além disso, as crianças podem começar a exigir demais de si mesmas, muito além das suas próprias possibilidades ou dos recursos com os quais contam no momento. Este fenômeno pode desencadear quadros de estresse e ansiedade.

Isso é muito grave. Segundo a Fundação ANAR (Ayuda a Niños y Adolescentes en Riesgo, uma organização espanhola) “[…] uma determinada estrutura da personalidade (autoexigência, necessidade de controle, busca pelo perfeccionismo…) pode determinar o surgimento de certos transtornos alimentares, como a anorexia e a bulimia”.

Se os pais de uma criança lhe dizem “Seria incrível se você tirasse um 7 em matemática” e, quando ela consegue, dizem “Viu como você consegue? Agora tem que tentar tirar 9”, será difícil que a criança sinta que o que conseguiu deixou seus pais orgulhosos.

Pode ser que isso não aconteça no início, mas com o tempo, os pais podem exigir um 10 quando o filho tirar 9, e depois querer que ele tire esta nota em todas as matérias. Assim, a criança vai acabar explodindo.

Este é um hábito que se torna destrutivo quando os pais insinuam que vão amar mais o seu filho quando ele tirar notas mais altas. Falamos de um ambiente exigente que pode ser ideal para o desenvolvimento dos transtornos mencionados, a anorexia e a bulimia.

No entanto, esta não é a única maneira por meio da qual as crianças com pais que exigem demais podem reagir.

“Uma lição universal relacionada à criação dos filhos: é uma boa ideia dar-lhes um respiro de vez em quando”.
-Mary Beard-

Mãe e avó exigentes demais

Pais que exigem demais e não veem resultados

As crianças com pais que exigem demais podem acabar não correspondendo à pressão de seus progenitores.

O jornal La Vanguardia publicou uma frase de Isabel Menéndez (psicóloga especializada em crianças e adolescentes) que explica muito bem o que acontece quando as crianças são submetidas a altos níveis de exigência por um longo período de tempo: “Quando exigimos demais, causamos estresse nas crianças. Ao chegarem à adolescência e aos cursos mais difíceis de ensino superior, muitos deles acabam se quebrando […] porque estão fartos, cansados, e se rebelam”.

Como nada do que fazem é suficiente, as crianças podem começar a mostrar diferentes atitudes. Elas podem variar, já que a personalidade de cada um é diferente. No entanto, além dos transtornos já mencionados, estes são alguns sinais de alerta que avisam que algo não está indo bem:

  • Atitude passiva na qual parece que nada mais importa para eles. Sentem-se tristes, desanimados, e se mostram cabisbaixos na maior parte do tempo. Em seu interior, notam que fracassaram. Isso pode levá-los a uma depressão.
  • Atitudes rebeldes nas quais são agressivos com os pais ou começam a fazer coisas erradas. O objetivo é chamar atenção para uma situação que não conseguem controlar.

Existem muitas variáveis, mas as crianças não conseguem estar sempre em alerta, buscando o reconhecimento e tentando atingir as expectativas de seus pais.

Cedo ou tarde, elas acabam mergulhando em uma profunda tristeza ou se posicionando de maneira automática contra as expectativas dos pais, já que as associaram à frustração. O problema é que, em ambas as reações, sobram tristes consequências decorrentes da exigência recebida.

Com frequência, as crianças interrompem os estudos ou abandonam aquele esporte do qual tanto gostavam. Jogam a toalha porque não conseguem mais. A pressão as supera. Por isso, embora os pais exigentes ajam tentando motivar e incentivar seus filhos a darem o melhor de si mesmos, na grande maioria dos casos, só conseguem obter o efeito oposto.

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