Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas: uma metáfora sobre a vida

· junho 11, 2018

Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003), dirigido por Tim Burton, é um filme repleto de simbolismo e metáforas sobre a vida. Não apresenta os cenários góticos, obscuros e sinistros típicos de Burton, pelo contrário: Peixe Grande é cor, luz e harmonia.

O filme fala sobre a vida de Edward Bloom e sua relação com seu filho: Will, que vive em Paris com sua esposa grávida. Há alguns anos sua relação com o pai havia piorado e eles se comunicavam através de sua mãe, Sandra. Um dia, Sandra liga para seu filho e conta que seu pai está gravemente doente, o que faz com que Will viaje com sua esposa para visitá-lo.

A relação pai-filho

Edward e Will haviam tido uma boa relação durante a infância de Will, mas com o tempo, ela acabou esfriando. Edward é conhecido por contar feitos extraordinários, com seres ainda mais extraordinários (gigantes, bruxas, lobisomens…). Will gostava destas histórias quando era pequeno, mas quando cresceu, percebeu que elas eram irreais e foi dominado pelo desejo de conhecer a verdade sobre seu pai.

Will não aceita que seu pai fuja dos fatos verídicos em suas histórias.

Will tenta convencer seu pai a contar a verdade, mas Edward está muito orgulhoso de suas histórias e isso não mudaria, nem pelo seu filho. O paradoxal é que Will é escritor, quer dizer, conta histórias ficcionais, que não existiram e nunca existirão.Vemos que Edward e Will, no fundo, não são tão diferentes: um conta sua história e o outro escreve as suas.

“O fascinante dos icebergs é que só podemos ver 10% deles, os outros 90% estão abaixo da água. Com você é a mesma coisa pai, só vejo um pedaço que aparece por cima da água”.
-William Bloom, Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas-

Will tem problemas para aceitar seu pai, desconfia dele e inclusive inventava algumas hipóteses para tentar justificar as ausências dele durante sua infância. No momento crucial em que se encontrava, se transforma em uma espécie de substituto de seu pai: a vida de Edward está se esgotando; outra está a caminho e Will será a figura paterna de que seu filho precisa.

No início, Will julga seu pai, critica-o e pensa que ele não foi um bom exemplo; entretanto, a tarefa de ser pai não é fácil e, agora, ele deverá enfrentar essa situação. Ele quer ser um pai totalmente diferente do seu, quer contar a verdade ao seu filho, mas pouco a pouco, Will terminará aceitando seu pai, compreendendo qual é a sua verdade; seu pai lhe deixará histórias como legado e ele assumirá seu lugar.

As metáforas em ‘Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas’

Peixe Grande é uma espécie de contos que apresenta e mistura uma grande diversidade de histórias, de episódios; é o conto da vida de Edward Bloom. O sobrenome é algo que é dado ao nascer, Bloom significa florescer e isso é o que Edward faz, igual as flores, nasce, alcança seu máximo esplendor e, pouco a pouco, murchará. São muitas as metáforas que aparecem no filme, por isso falarei das mais importantes ou interessantes:

O peixe

Quando Edward conta suas aventuras da infância, o peixe aparece como uma figura importante. O peixe é o fio condutor do filme, está presente do princípio ao fim, é a metáfora do próprio Edward. Quando era criança, leu sobre um peixe que adaptava seu tamanho ao lugar em que se encontrava e, em liberdade, poderia triplicar de tamanho.

Edward compreende que é como o peixe e que o aquário tem suas limitações. Edward percebe que, para conseguir tudo que quer, deverá considerar essas limitações.

Continuando a metáfora, ao sair do aquário ganhamos liberdade, decidimos nossas ações e alcançamos a grandeza. Ao mesmo tempo, sair do aquário pode ser assustador porque não sabemos o que está lá fora.

“Já pensou que talvez você não seja muito grande, mas esta cidade seja muito pequena?”
-Edward Bloom, Peixe Grande-

O olho

O que vamos temer se já sabemos qual é nosso fim? Nas histórias da infância de Edward, aparece uma bruxa que possui um olho de cristal que, se for observado por alguém, mostrará a maneira como a pessoa morrerá; Edward o olha, sabe como irá morrer e aceita.

Quando se encontra em uma situação de perigo, a enfrenta e diz a si mesmo “eu não vou morrer assim”, portanto, supera os obstáculos e pode prosseguir seu caminho. Edward aceita seu destino, o mesmo que o de todos os humanos: a morte. Ele o enfrenta e o supera, não deixa que o medo se apodere dele.

Cena do filme 'Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas'

Ashton

É o aquário de Edward, a cidade em que nasce, um povoado pequeno e limitado para um homem com grandes aspirações e sonhos. Apesar disso, goza de grande reputação entre os vizinhos e poderia conquistar grandes coisas dentro de seu aquário, sem ter que enfrentar muitos obstáculos.

O aquário é nossa zona de conforto, o conformismo, o lugar em que nos sentimos seguros e é difícil de sair, mas é um lugar onde a aprendizagem é limitada. Edward decide enfrentar o desconhecido fora da zona de conforto.

Espectro

Depois de sair de Ashton e iniciar sua viagem, encontra diversos obstáculos que deverá superar até chegar a Espectro, uma cidade utópica onde todos os habitantes andam descalços, onde nunca acontece nada.

Ali se encontra com um antigo habitante de Ashton, Norther Winslow, conhecido poeta na cidade que, da mesma maneira que Edward, estava destinado a grandes coisas e por isso empreendeu sua viagem.

No entanto, Norther foi fisgado por outro anzol e já não é capaz de continuar fazendo poemas, entrou em outro aquário: Espectro, apesar de ser um lugar maravilhoso, não deixa de ser outra zona de conforto.

Cena do filme 'Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas'

Edward pensa em ficar, mas reage e segue seu caminho, pois ainda falta muito para terminá-lo. O nome Espectro não foi escolhido ao acaso, refere-se aos fantasmas, aparições… esse lugar, além de ser um aquário, também é um lugar enganoso, há um peixe no rio que é confundido por Edward com uma mulher, porque dependendo da pessoa que o vir, aparecem coisas diferentes que representam os desejos do indivíduo. Aqui vemos o desejo de Edward, que é encontrar uma mulher.

O anel

Para que um peixe possa chegar ao seu tamanho máximo, não pode ser pescado, então Edward deverá evitar todos os anzóis que aparecem em sua vida. Deve evitar entrar em um aquário, ao menos até ter atingido todas as suas metas e chegado à zona de aprendizagem. Mas se o anzol certo aparece, todos podemos ser fisgados por ele.

Ou seja, Edward está rejeitando anzóis até encontrar o correto. O peixe de que Edward fala se deixou fisgar por seu anel de casamento, como o próprio Edward com Sandra.

Mas para conquistá-la, ele teve que superar muitos obstáculos fora de sua zona de conforto, alcançar a aprendizagem e, no final de sua vida, tirar seus sapatos em uma nova zona de conforto.

Cena do filme 'Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas'

Os sapatos

Os sapatos servem para proteger nossos pés quando caminhamos, e quando estamos em casa não precisamos deles. Em Espectro, todos os habitantes andam descalços, não necessitam avançar e, por isso, nunca mais precisarão de seus sapatos.

Apesar disso, Edward deixa Espectro sem seus sapatos, ou seja, desprotegido porque, naquela época, terá de enfrentar a zona de pânico. Do mesmo modo, no fim da vida, já não precisamos dos sapatos, podemos ficar confortáveis e pendurá-los.

‘Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas’ é um fantástico conto contemporâneo que mostra outra forma de ver a vida, de aceitá-la. Ele mostra como cada um de nós é capaz de fazer coisas extraordinárias se conseguir vencer os medos, sair da zona de conforto e traçar seu próprio caminho.

“Quando algo é muito difícil de ser feito, a recompensa que o espera no final é maior”.
-Edward Bloom, Peixe Grande-