Pensar em voz alta melhora o raciocínio mental

· março 23, 2018

Pensar em voz alta nem sempre é sinal de loucura. É um exercício de saudável juízo que melhora nosso raciocínio mental. A fala privada otimiza nossos recursos cognitivos, nos permitindo estar mais centrados, focalizados no “aqui e agora”. Estamos diante de um tipo de comportamento que vale a pena exercitar diariamente como mecanismo de autorregulação.

Quem tem filhos ou trabalha diariamente com crianças entre 5 e 7 anos terá notado o quão comum é o costume de pensar em voz alta entre os pequenos desta idade. Eles o fazem enquanto brincam, enquanto interagem com os objetos, estando sozinhos ou diante de outras pessoas. Longe de ser uma característica de imaturidade ou parte da etapa onde são comuns os amigos invisíveis, que tanto costumam preocupar os pais, cabe dizer que é uma prática essencial para o desenvolvimento da própria criança.

Pensar em voz alta permite que nosso cérebro processe melhor a informação para nos centrarmos no momento presente.

Pensar em voz alta é um modo de guiar o próprio comportamento. E mais, o desenvolvimento da fala e do pensamento são parceiros, por isso a comunicação egocêntrica é tão favorecedora quanto recomendada. No entanto, chegada uma idade, os adultos começam a recomendar que deixem de fazê-lo, posto que socialmente não é bem visto, e é necessário que aprendam a interiorizar aquela voz infantil que antes brincava livre, e que tinha se acostumado ao seu próprio som.

Assim, todos nós alcançamos nossa maturidade sendo pensadores mudos e leitores silenciosos. Tudo aquilo que realizamos em solidão (raciocinar, trabalhar, ler, etc) é feito nesse cenário de reservado mutismo, sem saber os benefícios que pode nos trazer ter uma conversa com a pessoa mais importante do mundo: nós mesmos.

Menino brincando com barquinho de papel

Pensar em voz alta, a fala privada

Pensar em voz alta foi, como já sabemos, um passo decisivo em uma etapa determinada de nossa infância. Agora, em nossas tarefas de adulto, acreditemos ou não, seguimos precisando desta prática, essa ferramenta de desenvolvimento pessoal e cognitivo que vale a pena utilizar em determinadas ocasiões. No entanto, cabe destacar que não se trata de falar em voz alta a cada instante como se nosso cérebro tivesse instalado um megafone.

O que devemos exercitar de forma pontual e em determinados momentos do dia é o que se conhece como “fala privada”. Trata-se de um mecanismos de apoio para nos dar “feedback”, para nos corrigir, nos guiar ou focar nossa atenção. Agora veja bem, existe um pequeno detalhe que não podemos descuidar: pensar em voz alta implica também fazê-lo respeitosamente. Dizemos isso porque é comum que muitas pessoas falem sozinhas em voz alta para se recriminarem e para enfatizar suas fraquezas, seus erros.

Por outro lado, algo que pode ser demonstrado em um estudo recente conduzido pela Universidade de Wisconsin e publicado na revista Quarterly Journal of Experimental Psychology, é que pensar em voz alta favorece nossa saúde neurológica. Regulamos muito melhor o estresse e, além disso, foi observada uma atividade muito intensa no giro frontal inferior esquerdo, associado com a resolução de problemas, o planejamento e a capacidade de focar a atenção.

Cérebro humano

Pensar em voz alta: as diferentes modalidades

Pensar em voz alta ou raciocinar para nós mesmos, quando estamos sozinhos, não é uma característica de loucura ou doença mental. É um diálogo consigo mesmo, que podemos utilizar em algum momento do dia como exercício de autorregulação. Ainda sim, esta ferramenta saudável pode ter diferentes finalidades, diferentes modalidades. Veja a seguir:

Raciocinar sobre diferentes opções

Em nosso cotidiano é comum ter que fazer escolhas quase de forma constante. Uma forma de facilitar a reflexão, a análise e o contraste de informação é pensando em voz alta. Isso nos ajudará a clarear as ideias, a analisar nossas emoções, a esclarecer os objetivos.

Motivar a nós mesmos

Se existe algo que muitos atletas fazem é se motivar em voz alta com mensagens de ânimo, de superação… Logo, e quando o instante assim o requer, não é demais se perguntar “Então, por que você está se sentindo assim agora? Você se esforçou muito para chegar até aqui, agora tem que seguir em frente”.

Favorece um diálogo mais positivo

O discurso negativo é o que nos invalida, o que se sustenta com os “você não pode, vai falhar, melhor não se atrever ou deixar para amanhã” é sem dúvida o que mais dano causa em nosso dia a dia. Assim, um modo de deter esse fluxo nefasto, de esvaziar essa água estancada que corrompe nossa autoestima e envenena esperanças, é colocar em prática a fala privada.

Pensar em voz alta organiza as ideias e orienta o pensamento para uma direção clara: para o que é útil e construtivo. Com este mecanismo de autorregulação, acalmamos muitos dos focos problemáticos de nosso interior para colocá-los para fora e nos sentirmos mais centrados, e também resolutos.

Pensar em voz alta

Para concluir, falar com nós mesmos em determinados instantes do dia é uma prática de saúde psicológica mais do que evidente. Fazê-lo em voz alta é também um recurso efetivo que potencializa muitos processos cognitivos, e leva nosso cérebro a outro nível, favorecendo outras conexões. Se precisar, se sentir em um momento pontual que pensar em voz alta vai ajudá-lo em algum aspecto, não tenha medo de fazê-lo.