Permanecer na ignorância ou nos informar se deve a três fatores

Algumas pessoas se informam sobre tudo o que as preocupa, enquanto outras preferem não fazer isso, recorrendo às próprias deduções e ideias. Por que isso está acontecendo? O que diferencia essas duas abordagens?
Permanecer na ignorância ou nos informar se deve a três fatores
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 29 dezembro, 2022

Permanecer na ignorância ou nos informar sobre o que nos preocupa se deve a uma série de fatores que a ciência está tentando compreender há muito tempo. Vivemos em um presente repleto de mudanças e incertezas, mas também com vários recursos ao nosso alcance para obter respostas. Porém, há quem não as procure.

Na psicologia geralmente se fala sobre um fenômeno denominado “ignorância motivada“. Essa é uma situação em que a pessoa não quer saber o motivo de eventos específicos. Ela acontece por exemplo quando alguém se sente mal e não quer ir ao médico por medo. O fato de que alguém lhes diga a causa do desconforto provoca mais ansiedade que permanecer na ignorância.

Esse tipo de comportamento costuma ser visto no território das ideologias políticas. Existem pessoas que não querem aprender sobre certas coisas para que as suas crenças não sejam contestadas. Isso explica por que os terraplanistas ou negacionistas das mudanças climáticas evitam buscar informações confiáveis, científicas e comprovadas sobre as ideias que possuem.

No entanto, existem mais fatores que explicam essa realidade psicológica que vale a pena compreender.

Mulher pensando se deve permanecer na ignorância ou se informar.

Ignorar ou se informar?

Alguns apontam que a ignorância (ou o desejo expresso de não ser informado sobre as coisas) está polarizando por completo a nossa sociedade. Mais ainda, poderíamos dizer que ocorre ainda outro fenômeno não menos importante: há aqueles que são informados, mas recorrem a fontes não confiáveis e tendenciosas apenas para encontrar dados que corroborem as suas crenças e ideologias.

A verdade é que esse é um fenômeno muito complexo. Estudos, como os conduzidos na Universidade de Winnipeg e na Universidade de Illinois em Chicago conduziram uma experiência muito impressionante em 2017. Uma grande amostra de pessoas foi solicitada a ler e responder a perguntas sobre uma opinião com a qual concordavam ou ler sobre o ponto de vista oposto.

A questão levantada foi sobre o casamento gay. Se os participantes decidissem ler a opinião com a qual concordam, eles poderiam ganhar $ 7. Se optassem por ler a opinião contrária poderiam ganhar 10. E qual foi o resultado? 63% das pessoas optaram por ler as informações consistentes com as próprias convicções.

O propósito de alguém não querer descobrir algo que não se encaixa na sua ideologia é evitar a dissonância cognitiva (desconforto que surge quando dois pensamentos se contradizem).

Às vezes, quando nos informamos de determinadas coisas podemos encontrar dados que contradizem o que tínhamos como certo. Isso pode ser irritante para muitas pessoas. Em vez disso, outras aceitam essa contradição com uma mente aberta para se permitirem aprender e assumir perspectivas mais corretas.

Emoções, utilidade e familiaridade

Permanecer na ignorância ou nos informar depende de três fatores, segundo a ciência. A Universidade de Londres realizou um estudo para compreender essas diferenças individuais na busca de informações. Saber por que algumas pessoas querem aprender sobre determinados temas enquanto outras optam por não fazer isso é algo que sempre chamou a atenção dos especialistas.

Este trabalho revelou o seguinte:

  • Em primeiro lugar, as pessoas procuram ou não determinadas informações com base em como o que podem encontrar as fará sentir. É aqui que entra o aspecto emocional e também o motivacional. Isso me interessa? O que eu encontrar vai me incomodar? Isso vai fazer eu me sentir pior?
  • O segundo aspecto é a utilidade. Escolher entre permanecer na ignorância ou nos informar sobre um tópico específico parte do fato de acharmos que essa informação será útil ou não. Por exemplo, e com relação às vacinas: aqueles que não acreditam na eficácia delas não verão motivo para ler relatórios científicos sobre a sua eficácia. “Por que vou fazer isso se não quero ser vacinado e não vou vacinar os meus filhos?”
  • O último fator está relacionado ao fato de a informação encontrada estar em sintonia com a própria perspectiva. Aqui novamente aparece a necessidade de fornecer dados que estejam em conformidade com as crenças de cada um, a fim de evitar as incômodas dissonâncias cognitivas.
Homem pensando em permanecer na ignorância ou em se manter informado.

Cada um quer viver a própria realidade

Vivemos em uma época de acesso à informação sem precedentes. É verdade que abundam dados falsos e tendenciosos, mas com um pouco de esforço você poderá encontrar fontes confiáveis sobre quase todos os assuntos. Então, por que as pessoas optam por permanecer na ignorância nos dias atuais?

Os pesquisadores George Loewenstein, Russell Goldman e David Hagmann da  Universidade Carnegie Mellon forneceram outra resposta não menos interessante em um trabalho de 2017.

  • Muitas pessoas evitam aprender sobre coisas que podem ameaçar a estabilidade da realidade autoconstruída que elas possuem. Por exemplo, isso faz com que alguém coma o que quiser sem checar se os alimentos consumidos são prejudiciais, têm muitas calorias, etc. Além disso elas escolhem apenas fontes de notícias alinhadas com as próprias ideologias políticas.

Para concluir, permanecer na ignorância ou nos informar sobre as coisas tem muito a ver com a nossa personalidade. Existem mentes inflexíveis que não toleram ser contrariadas ou alterar a realidade autoconstruída que possuem, em que tudo é como elas desejam.

Por outro lado e felizmente, existem muitas pessoas que não têm medo de descobrir informações inovadoras, que sabem que aprender sobre as coisas e ler o máximo possível de fontes amplia as perspectivas e permite uma tomada de decisão muito melhor. Esse é o segredo.


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  • Kelly, C.A., Sharot, T. Individual differences in information-seeking. Nat Commun 12, 7062 (2021). https://doi.org/10.1038/s41467-021-27046-5

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