As pessoas curiosas são mais inteligentes?

· junho 7, 2018

O que acontece em nosso cérebro quando algo nos provoca muito interesse? Será que as pessoas curiosas são mais inteligentes?

Um estudo publicado na revista Neuronda Cell Press, explica que, além de ser muito benéfica para a autorrealização, a curiosidade é uma característica associada a uma boa memória e a uma boa capacidade de aprendizado. 

No entanto, o estudo de associação entre inteligência e curiosidade apresenta um problema. Enquanto a primeira pode ser “medida” por meio do conhecido coeficiente intelectual, a segunda é uma característica da personalidade. Como podemos, então, vincular estes dois conceitos? 

Não existe uma definição homogênea de inteligência

A primeira pergunta que temos que fazer para saber como a curiosidade influencia a inteligência é saber o que é exatamente isso que chamamos de inteligência. No entanto, a resposta não é nada simples. Pelo contrário. É um conceito muito difícil de definir, dada sua quantidade de interpretações e funções e áreas que engloba.

A maioria dos especialistas concorda que a inteligência é uma capacidade mental que implica diferentes habilidades. Entre elas, racionalizar, dotar de sentido a realidade, planejar, resolver problemas, memorizar, pensar de maneira abstrata, compreender ou gerar informação nova a partir de outra.

Então, surge outra pergunta: se potencializarmos algumas das habilidades anteriores, é possível aumentar com isso nossa inteligência? Esta é uma das questões que traz o estudo a que nos referimos e que explicaremos a seguir.

Inteligência humana

A curiosidade melhora nossa memória

As pessoas curiosas retém melhor a informação (Gruber, 2014). Ou seja, é mais fácil memorizar certos dados se o tema nos atrai do que se é indiferente para nós. Por que isso acontece? Porque a curiosidade está muito ligada à motivação. Se nos sentimos motivados, nosso poder de memorização se multiplica. Mostramos um exemplo para entender melhor.

Um amante dos animais terá mais facilidade para manter em sua mente o nome da espécie exata do primata do qual somos evolução do que alguém cuja sensibilidade pelo meio ambiente seja nula. Nas palavras de Gruber, “a curiosidade pode colocar o cérebro em um estado que lhe permita aprender e reter qualquer tipo de informação, como um vórtex que absorve o que está motivado para aprender, e também tudo que o rodeia”. 

Curiosidade e motivação intrínseca

Continuando com o exemplo anterior, vemos que a motivação do menino por conhecer o mundo animal é muito alta. Ou seja, seu interesse o leva a querer saber mais sobre esse tema, porque gosta. Esta motivação é intrínseca e é outro dos fatores explicativos da curiosidade.

A motivação intrínseca é a que nasce do interior da pessoa, a que nos impulsiona a realizar ações pela mera satisfação de fazê-las. Ela nos permite sentir autorrealizados e aumentar nosso crescimento pessoal. Pelo contrário, a extrínseca não precisa de nenhum incentivo externo (por exemplo, o dinheiro) nem está ligada à obtenção de algum resultado (ficar em primeiro).

As pessoas curiosas aprendem por prazer.

O exemplo mais claro deste tipo de motivação intrínseca são os hobbies: vamos andar de bicicleta porque nos sentimos bem e por que adoramos pedalar ao ar livre. Algo parecido acontece com a curiosidade: buscamos por gosto, porque nos produz satisfação conhecer algo no qual estamos interessados. Por puro prazer.

Como podemos ver, tanto a curiosidade quanto a motivação são fundamentais para que o aprendizado ocorra. Por isso, quando estudamos algo que não gostamos, é mais difícil para nós lembrar do assunto. Passadas algumas horas, acabamos nos esquecendo do que lemos.

“A inteligência é a capacidade de se adaptar à mudança”.
– Stephen Hawking –

Mulher feliz com suas conquistas

O que acontece no cérebro das pessoas curiosas?

A equipe de pesquisadores da Neuron descobriu que, ao estimular a curiosidade e despertar esta forte motivação intrínseca, provoca-se uma maior atividade no circuito cerebral relacionado com a recompensa nas pessoas curiosas. Na verdade, aumenta a atividade em três regiões-chave do córtex cerebral muito ligadas ao aprendizado, à memória e à repetição de comportamentos que geram prazer.

  • Núcleo caudado esquerdo: muito envolvido no aprendizado e na memória, assim como na aquisição de novos conhecimentos e emoções positivas.
  • Núcleo accumbens: foi estudada sua relação com os vícios e circuito de recompensa, principalmente com relação a reforçadores naturais: alimentação, sexo e videogames.
  • Hipocampo: é essencial para a formação de novas lembranças.

“A curiosidade recruta o sistema de recompensa, e as interações entre o sistema de recompensa e o hipocampo parecem colocar o cérebro em um estado no qual é mais provável que aprenda e retenha informação”.
– Ranganath –

Um futuro melhor

As descobertas deste grupo de cientistas e especialistas abrem as portas para novas pesquisas sobre possíveis maneiras de melhorar o aprendizado. Além disso, não somente em pessoas curiosas que se encontram perfeitamente saudáveis, como também naquelas que têm algum tipo de distúrbio ou transtorno neurológico.

A nível prático, estes resultados destacam a importância de que os professores estimulem a curiosidade dos alunos. De nada serve passar horas e horas estudando em frente a papéis pelos quais o aluno não sente o mínimo interesse.

Assim, o futuro passa por desenvolver estas novas estratégias educativas. O aprendizado poderia ser melhorado se estes professores atraíssem a curiosidade dos estudantes. O mesmo acontece nos postos de trabalho. Por tudo isso, considerando a inteligência como a capacidade de relacionar conhecimentos para resolver uma determinada situação, melhorar o aprendizado ou a memória, incentivar e potencializar a curiosidade pode contribuir para aumentá-la.

Referências bibliográficas

  • Graybiel A. M. (2005). Los ganglios basales: aprendo nuevos trucos y me encanta. Curr Opin Neurobiol 15:638-644.
  • Matthias J. Gruber, Bernard D. Gelman, Charan Ranganath (2014). States of Curiosity Modulate Hippocampus-Dependent Learning via the Dopaminergic Circuit. Neuron. DOI: 10.1016/j.neuron.2014.08.060.