Funções executivas: habilidades mentais do cérebro humano

· junho 5, 2018

As funções executivas são processos cognitivos complexos. São aquelas atividades mentais que realizamos para nos relacionar com as pessoas ao nosso redor, criar, priorizar determinada atividade, controlar o tempo e até mesmo para automotivação. É como uma sequência automática de processos que executamos diariamente sem nem perceber.

Pode ser que à primeira vista tudo isso pareça um pouco difícil de entender. Frequentemente, ouvimos que o cérebro trabalha como um computador e que utiliza quase os mesmos mecanismos. Bom, é possível dizer que ele é muito muito melhor.

As funções executivas são aquelas habilidades incrivelmente sofisticadas através das quais controlamos nosso comportamento e alcançamos nossos propósitos. Algo que supera notavelmente qualquer tipo de tecnologia.

“É no cérebro onde tudo acontece”.
– Oscar Wilde –

Observemos um exemplo. Vamos para a cama com um livro. Enquanto procuramos o capítulo no qual paramos na noite anterior, pensamos no que vamos fazer amanhã. Escolhemos um propósito, decidimos o que é melhor adiar e o que priorizar. Nos animamos com os objetivos propostos para o dia seguinte. Depois nos concentramos na leitura pensando que dentro de uma hora precisamos apagar a luz e ir dormir.

Esta simples cena demonstra como nosso cérebro realiza uma infinidade de processos em uma curta fração de tempo. Apenas alguns segundos. Escolhemos, priorizamos, planejamos, supervisamos e nos concentramos em diferentes objetivos.

O maravilhoso mundo da psique humana

As funções executivas e o lobo frontal

O ser humano não vem ao mundo com todas as funções executivas prontas para serem utilizadas. É curioso saber, por exemplo, que muitos processos adquirem sua plena funcionalidade em torno dos 25 anos de idade.  A razão? Estas capacidades cognitivas se localizam, em sua maioria, nas estruturas pré-frontais e são, por sua vez, as últimas a se desenvolverem.

O primeiro neurologista que falou dessas funções, assim como do sistema executivo, foi Alexander Luria. É possível dizer, além de tudo, que estes processos constituem um fato muito recente a partir de um ponto de vista filogenético.

Dentro da nossa evolução como espécie, representam o mais novo, e se associam também com os dois marcos muito concretos: a aquisição da linguagem e o aumento dos lobos frontais. Estes eventos foram uma revolução na época.

Nossos grupos sociais ficaram mais sofisticados, apareceu a cultura, o controle do nosso entorno e toda uma sucessão de avanços que vieram a construir o que somos hoje.

No entanto, cabe assinalar um aspecto essencial. Embora esteja em nosso código genético que estes processos vão melhorando à medida que amadurecemos (costumam aparecer entre os 8 e 12 meses de idade, junto com o desenvolvimento da linguagem do bebê), a plena aquisição das funções executivas depende de vários aspectos.

Criança atenta com o olhar

A partir dos 2 anos de idade, o tipo de interação que recebemos é essencial, assim como a sua qualidade. As experiências estressantes ou um apego inseguro dificultam seu correto desenvolvimento.

  • Um dos maiores entendedores do cérebro executivo é, sem dúvidas, Elkhonon Goldberg. Assim como ele nos explica em seu livro “Como investir em seu cérebro”, as funções executivas residem no lobo frontal. Isto é, por assim dizer, a área da nossa cultura e das nossas interações sociais.
  • Assim, se uma criança não desfrutar de um vínculo significativo com os seus progenitores ou da experiência da educação, dificilmente vai desenvolver ou usar com eficácia estes refinados processos cognitivos.
  • Por outro lado, é importante dizer que as funções executivas podem ser, às vezes, empobrecidas por transtornos como a dislexia, o transtorno de déficit de atenção com ou sem hiperatividade, a discalculia, a esquizofrenia ou qualquer dano cerebral.

Entretanto, a boa notícia é que estas funções cognitivas podem ser treinadas. Enquanto não existirem problemas neurológicos graves, todos nós podemos refinar muito mais a engrenagem das funções executivas.

Que tipo de funções executivas nós temos?

Os animais também têm suas funções executivas. Porém, estas são um pouco mais rudimentares. Elas apresentam suas necessidades, um sistema perceptivo que as guia em seu comportamento e um sistema físico e motor orientando a satisfazer essas necessidades, estes instintos.

“O córtex pré-frontal é um dos mais recentes filogeneticamente e o último a amadurecer na ontogênese. É aí onde residem nossas funções mais refinadas, aquelas que todos nós deveríamos treinar diariamente.”
– K. Goldberg-

No ser humano a coisa é um pouco mais sofisticada. Nós nos movemos apenas para satisfazer as nossas necessidades. Além dos instintos, o que nos caracteriza são as metas, as obrigações, os laços sociais e nosso cenário cultural e social. Nosso entorno é tão complexo que precisamos de um cérebro capaz de se adaptar a este caleidoscópio de estímulos internos e externos. É aí que entram em ação as funções executivas.

São as seguintes.

  • Planejamento: gerar uma sequência de ideias para alcançar um objetivo.
  • Raciocínio: o ser humano compara informação, descarta, escolhe, analisa, gera soluções.
  • Controlar e lidar com o tempo. Sabe monitorar o tempo que deve dedicar a cada tarefa, sabe quando se estende em excesso ou quando deveria investir mais tempo em determinada coisa.
  • Organizar, estruturar a informação de forma que tenha sentido e finalidade.
  • Inibição. É a capacidade de reprimir e controlar nossos instintos ou vontades para que o nosso comportamento seja correto.
Conexões do cérebro humano

  • Foco e controle da atenção.
  • Supervisão e monitoramento das nossas tarefas, objetivos ou desejos.
  • Memória de trabalho. Armazenar a informação para depois acessá-la em um determinado momento é uma das funções executivas mais importantes.
  • Flexibilidade: capacidade para mudar de foco, estar aberto a outras ideias e aprender com elas.

Para concluir, o cérebro executivo é, sem dúvidas, o maior presente que a nossa evolução como espécie nos ofereceu. No entanto, há uma nuance que não podemos deixar de lado: as funções executivas perdem funcionalidade à medida que envelhecemos. Assim, nunca é demais ressaltar o que comentamos acima:

Não deixemos passar um dia sem aprendermos algo novo. Não deixemos passar um momento sem cultivar a curiosidade, o sentido crítico ou a interação de qualidade com nossos amigos e familiares. Tudo isso são nutrientes para o nosso cérebro, energia para que estes processos cognitivos resistam ao longo do tempo.