Pessoas que acham que merecem tratamento especial: por que isso ocorre?

Você já conheceu uma dessas pessoas que transitam pelo mundo achando que merecem tratamento especial? Esta é uma característica que se manifesta com frequência. Vamos explicar porque isso ocorre.
Pessoas que acham que merecem tratamento especial: por que isso ocorre?

Última atualização: 07 maio, 2022

Há pessoas que acham que merecem tratamento especial. Ninguém concedeu a elas nenhum direito; elas também não são diferentes dos demais nem são feitas de um material mais interessante que possa colocá-las, por natureza, acima dos outros. No entanto, agem dessa forma. Comportando-se de forma arrogante, exigindo atenção, favores e preferências.

Na psicologia, essa atitude é definida como “senso de merecimento” e é um comportamento irracional. No entanto, é interessante saber que tal comportamento é muito comum durante a infância. Boa parte das crianças acreditam que merecem tratamento preferencial por causa da sua situação de vulnerabilidade. Elas têm a consciência de que a maioria das relações que mantêm com os adultos são assimétricas, sendo sobretudo receptoras.

Entretanto, conforme vão crescendo e desenvolvendo a autossuficiência, essa assimetria se perde gradualmente. Afinal, quem é autônomo e desenvolveu uma identidade forte tende a também evoluir na forma como se relaciona com os outros. O problema é quem pensa – assim como uma criança de 3 anos – que tem mais direitos do que qualquer outra pessoa.

Por que isso ocorre? Vamos analisar.

Irmãos discutindo representando pessoas que acham que merecem tratamento especial
Acreditar que temos direito a algo é uma expectativa saudável (e até mesmo necessária) em alguns casos. No entanto, achar que merecemos tratamento especial o tempo todo é um comportamento ameaçador e problemático.

Por que existem pessoas que acham que merecem tratamento especial?

As pessoas que acham que merecem tratamento especial pensam que possuem mais direitos do que os outros. É verdade que todos nós temos direitos. Por exemplo, o direito de ser respeitado, de ter um emprego, comida, moradia, relacionamentos felizes, etc. No entanto, há quem perceba a si mesmo como um imenso planeta no meio de uma galáxia solitária, ao redor da qual todos devem girar como satélites.

Essas figuras que integram nas profundezas do seu ser essa forma de favoritismo perpétuo revelam características psicológicas muito particulares. O psicanalista Dr. John Gedo, autor de livros como Teoria da Mente (1976), faz uma observação ilustrativa. Todos somos programados para acreditar que temos mais direitos do que os outros quando somos muito pequenos.

No entanto, conforme vamos crescendo, percebemos que os outros também têm necessidades. Nossos pais também têm a importante tarefa de polir esse egoísmo infantil quase inato, para favorecer a nossa empatia e abertura para os outros. No entanto, há quem não desenvolva essa habilidade: a de entender que todos igualmente merecem o mesmo tratamento.

Quem se sente especial não segue nenhuma instrução ou recomendação

Os pesquisadores Emily Zitek (Universidade de Cornell) e Alexander Jordan (Faculdade de Medicina de Harvard) realizaram um interessante trabalho em 2017. Através dele, descobriram que as pessoas que acham que merecem tratamento especial são as que mais desafiam as normas. Elas não aceitam instruções nem se integram em muitos contextos sociais. Mas por quê?

Quem acredita ter mais direitos do que os outros vê tudo como injusto. Essas pessoas têm dificuldade para aceitar recomendações ou normas porque acham que estão acima dos demais. Trata-se de um padrão de personalidade altamente problemático, em todos os níveis. A convivência com essas pessoas se torna um vai-e-vem de conflitos, desentendimentos e tensões.

Pessoas que acham que merecem tratamento especial: um traço muitas vezes patológico

O fato de que esse tipo de pessoa tem problemas para respeitar as normas já revela algo para nós. Podemos estar diante de alguém com um possível transtorno de personalidade. Em termos gerais, aqueles que se percebem com mais direitos do que os demais e que, além disso, também têm problemas para cumprir as regras, evidenciam um transtorno antissocial.

Da mesma forma, esses homens e mulheres – egocêntricos e que exigem tratamento preferencial – encontram-se dentro do espectro do transtorno narcisista. Essa falta de empatia e o ato de priorizar as próprias necessidades acima das dos outros já nos dá uma pista disso.

Por outro lado, este tipo de perfil é acompanhado por outras características que também podem ser conhecidas por nós:

  • De acordo com essas pessoas, o mundo sempre deve alguma coisa a elas. É como se tivessem feito coisas infinitas por toda a humanidade e o próprio mundo estivesse em dívida com essas pessoas.
  • Independentemente do que já têm ou conquistaram, sempre esperam receber mais.
  • Acreditam que aqueles ao seu redor são obrigados a fazer coisas por elas. Para isso, não hesitam em manipular e fazer uso da vitimização.
  • Quando os outros não cedem às suas exigências, podem reagir de forma teatral, infantil, tirânica e até mesmo violenta.
  • Não são gratas por nada do que alcançam e também não valorizam ninguém ao seu redor.

Além disso, é interessante considerar mais um detalhe. Há pesquisas que destacam que aqueles que convivem com a ideia de que merecem tratamento preferencial são, na verdade, pessoas infelizes e frustradas. Porém, essa insatisfação com a vida muitas vezes leva à hostilidade.

Mãe e filha simbolizando pessoas que acham que merecem tratamento especial
Para conviver com quem acha que tem mais direitos que os outros, é preciso aprender a estabelecer limites.

Como lidar com aqueles que esperam receber tratamento especial da nossa parte?

Muitos de nós já nos vimos em dinâmicas desse tipo. Essas nas quais temos que compartilhar tempo e espaço com pessoas que acham que merecem tratamento especial. Ambientes de trabalho, familiares e até mesmo com nossos amigos ou nosso parceiro. Estão são figuras diante das quais, se não estabelecermos limites, acabaremos sendo usados como súditos e marionetes para satisfazer o seu egoísmo.

Então, o que podemos fazer? Estas seriam algumas dicas:

  • Quando fizerem um pedido irracional, devemos rejeitá-lo com firmeza, explicando o motivo de forma assertiva. Também deixaremos claro que tais pedidos não devem ser realizados novamente.
  • Devemos entender que esses tipos de perfis não vão mudar, por mais que peçamos. Por isso, é importante que entendam as consequências de suas demandas: ganharão distância e desconfiança. E isso vai gerar infelicidade e frustração.
  • Não vamos cair em suas artes manipuladoras quando recorrerem à vitimização.
  • Tentaremos argumentar, lembrando da necessidade de ter em mente que todos temos direitos e necessidades. É sempre melhor explicar através do exemplo.

Para finalizar, no nosso dia a dia, sempre encontraremos pessoas com esse perfil. Dessas que tratam mal, falam com a voz da arrogância e andam com uma atitude de quem se sente mais merecedor do que todos os outros. Por isso, vamos nos proteger e aprender a estabelecer limites adequados, pois só assim poderemos salvaguardar a nossa saúde mental.

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  • Emily M. Zitek, Alexander H. Jordan. Psychological Entitlement Predicts Failure to Follow Instructions. Social Psychological and Personality Science, 2017; 194855061772988 DOI: 10.1177/1948550617729885
  • Moeller, S. J., Crocker, J., & Bushman, B. J. (2009). Creating Hostility and Conflict: Effects of Entitlement and Self-Image Goals. Journal of experimental social psychology45(2), 448. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2008.11.005