Por que algumas pessoas entram em grupos abusivos ou seitas?

· março 4, 2019
Qualquer um está suscetível a se unir a um grupo abusivo ou a algum tipo de seita. Descubra as estratégias que eles usam para captar e doutrinar seus membros.

As seitas são grupos nos quais ocorre algum tipo de abuso psicológico. O abuso psicológico é entendido como um processo de aplicação sistemática e contínua de estratégias de pressão, controle, manipulação e coerção com o fim de dominar outras pessoas para conseguir uma submissão às mensagens que o grupo dita.

Desse modo, os grupos abusivos operam por meio da manipulação, do domínio, do controle, da exploração, do abuso e da coação. Recentemente ouvimos falar do caso de Patrícia Aguilar, que foi captada por um grupo abusivo no Peru, onde permaneceu por mais de um ano.

A jovem foi encontrada sozinha, cuidando de vários menores, entre eles seu filhos, em uma casa localizada em uma área considerada perigosa na selva do Peru. Todos eles estavam em condições insalubres e as crianças menores não frequentavam nenhum tipo de ambiente de ensino.

“Era muito tarde quando nos demos conta. São psicopatas que se sentem bem sendo sádicos em relação a suas vítimas”.
-Familiares de uma vítima de um grupo abusivo-

Grupos abusivos

Como é o abuso psicológico das seitas

Os adeptos que se mantêm em um grupo abusivo assim o fazem por serem enganados. Normalmente, o líder da seita não pede nada e dá e promete muito a princípio. Dessa forma, quando a pessoa se dá conta de onde está, já desenvolveu uma dependência completa e conseguir se desvencilhar e dar a volta por cima pode ser muito difícil. Segundo Álvaro Rodríguez-Carballeira e sua equipe, os grupos abusivos exercem os seguintes abusos:

  • Isolamento. Trata-se de isolar o sujeito no que diz respeito ao seu psicológico, o convívio social e o físico. Pretende-se que a pessoa se desvincule do mundo exterior e perca sua rede social. Dessa forma, o indivíduo se distancia e se desliga das pessoas próximas, dos seus valores, do passado e, como consequência, da sua própria história.
  • Controle e manipulação da informação. Limita-se o acesso à informação e aos meios de comunicação, permitindo apenas determinadas leituras. Além disso, ocorre uma reinterpretação da informação dos fatos externos, sem mostrar evidências que possam levar a qualquer conclusão diferente. O grupo também supervisiona e controla a educação das crianças.
  • Controle sobre a vida da pessoa. Controlam suas atividades, seu dinheiro, seu tempo, suas relações afetivas e sexuais e supervisionam seu comportamento. Além disso, controlam sua saúde física e mental, com o objetivo de debilitá-las. O objetivo primário é ter o maior controle possível sobre a pessoa para que, quando as exigências começarem, a pessoa não possa negar.

“Você fica cego, é uma marionete e a doutrinação o impede de ver”
-Ex- membro de um grupo abusivo-

  • Abuso emocional. Para conseguir uma maior submissão, ocorre a tentativa de intervir no sentimentos e emoções daqueles que estão sendo enganados. Por exemplo:
    • As emoções positivas que sentem são intensificadas
    • Usam a intimidação e ameaças
    • Promovem emoções como o desprezo, a humilhação e a rejeição
    • Manipulam a culpa
    • Instiga-se que confessem pecados ou desvios da doutrina, para depois perdoá-los
  • Doutrinação em um sistema de crenças absoluto e maniqueísta. As ideias prévias são desacreditadas, inserindo um sistema de crenças fechado e a sensação de ter sido escolhido para ser membro daquele grupo, que possui A verdade e que é superior ao resto do mundo.
  • Imposição de uma autoridade única e extraordinária. Uma autoridade única se impõe, e nela se concentra todo o poder. Os seguidores devem obedecer sempre sem questionar.
Terapia em grupo

O perfil dos adeptos às seitas e grupos abusivos

As seitas são muito adaptáveis, elas são capazes de usar a tecnologia para encontrar as pessoas que podem ser mais sensíveis a sua influência e, portanto, melhores vítimas. Temos que entender que nem todas as seitas são muito grandes, há algumas que são formadas por poucos indivíduos.

Além disso, é um erro afirmar que um adepto se une a uma seita porque ele é fraco ou vulnerável. Os adeptos não são fracos psicologicamente, muito menos burros. Essas crenças funcionam como um mecanismo de defesa nosso, que quer nos diferenciar das pessoas que foram vítimas desse tipo de situação e influência.

A realidade é que qualquer um pode ser captado, atraído quando estiver em um momento difícil. Logo, mais do que pessoas vulneráveis, poderíamos falar de pessoas que estão vulneráveis, por estarem passando por um momento especialmente delicado em que buscam algum apoio. “Você entra porque esses grupos têm algo que interessa para você, em nenhum momento eles dizem que é uma seita estruturada, nem que vão arruinar a sua vida” (ex-membro de um grupo abusivo).

“80% dos adeptos das seitas têm estudo técnico a nível superior”, diz José Miguel Cuevas. Entre eles temos advogados, médicos, funcionários e pessoas marginalizadas. Os grupos abusivos “buscam pessoas brilhantes com a capacidade de enriquecer o grupo; poucos vão buscar pessoas que não tenham potencialmente um benefício para o grupo”

“É como se pegassem o seu coração, jogassem ele na merda e o atirassem de volta na sua cara”.
-Ex-membro de um grupo abusivo-

  • Rodríguez-Carballeira, Á., Saldaña, O., Almendros, C., Martín-Peña, J., Escartín, J., & Porrúa-García, C. (2015). Group psychological abuse: Taxonomy and severity of its components. The European Journal of Psychology Applied to Legal Context, 7, 31–39. doi:10.1016/j.ejpal.2014.11.001
  • Saldaña, O., Rodríguez-Carballeira, Á., Almendros, C., & Escartín, J. (2017). Development and validation of the Psychological Abuse Experienced in Groups Scale. The European Journal of Psychology Applied to Legal Context, 9(2), 57–64. doi:10.1016/j.ejpal.2017.01.002