Por que mergulhamos em relações de dependência?

Por que mergulhamos em relações de dependência?

junho 30, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Por que mergulhamos em relações de dependência?

Todos, independentemente de sermos homens ou mulheres, jovens ou mais velhos, podemos nos encontrar vivendo  uma relação de dependência emocional. Às vezes pensamos que isso não pode acontecer conosco, mas vale a pena considerar que provavelmente essas pessoas também pensavam que nunca iriam cair nesse poço.

Assim, antes de sermos tão radicais com nossas afirmações, deveríamos nos perguntar: o que pode nos levar a construir uma relação de dependência? O que sentimos quando estamos em um relacionamento assim? Como podemos perceber que estamos em um relacionamento como este?

Por um lado, se nós temos conhecimento do que implica uma relação de dominação e dependência podemos nos dar conta com mais facilidade de que estamos em um relacionamento disfuncional, e isso pode nos dar mais força para mudar a situação. Por outro lado, poderemos detectar quando outras pessoas estão em uma relação de dependência, e assim tentar avisá-las criteriosamente.

O que nos leva a uma relação de dependência?

Todos nós temos expectativas a cerca de nós mesmos e do par que gostaríamos de ter. Essas idéias são influenciadas por crenças sociais e culturais. No nosso caso, aprendemos que para sermos felizes temos que ter um parceiro e priorizar o casal em qualquer outra coisa (Castelló, 2006). Buscamos continuamente relações de casal que nos completem, de modo que preencham as nossas necessidades. Procuramos fora em vez de olhar para dentro. Isso faz com que não possamos ser suficientes para nós mesmos, que alimentemos medos e busquemos os outros  para os obstruírem.

“Se nós não nos sentimos suficientes para nós mesmos, então dependemos do outro, e se dependemos do outro não somos livres”.
-Villegas-

Armadilha da dependência emocional

Por outro lado, a maneira de estabelecer vínculos afetivos está muito condicionada pela forma como vivemos a conduta de apego na infância (Guix, 2011). Por exemplo, se tivemos um excesso de proteção, sentiremos insegurança e iremos procurar pessoas que nos protejam. Por outro lado, se tivemos pouco ou nenhum vínculo afetivo buscaremos desesperadamente alguém para nos dar o afeto de que precisamos.

O tipo de relacionamento que observamos entre os nossos pais também nos influencia em nossos relacionamentos em casal. Por exemplo, se em nosso ambiente presenciamos uma relação de dominação e dependência, na qual parece que podemos amar e receber maus-tratos ao mesmo tempo, poderíamos estabelecer uma relação do mesmo estilo já que nós conhecemos em primeira mão os mecanismos que a mantêm.

De qualquer forma, o ideal seria que não procurássemos a metade da laranja que nos completa, já que ela não existe. Na realidade, nós estamos completos e somos responsáveis ​​pela nossa própria felicidade. Além disso, teríamos que criar nossos próprios critérios ao escolher a forma como queremos nos relacionar com o nosso par, sem sermos influenciados (excessivamente) por qualquer padrão. É importante ter claro o que queremos e o que não queremos em um relacionamento.

O que sentimos quando estamos em uma relação de dependência?

Vivendo em uma relação de dependência não podemos ser nós mesmos, nos sentimos limitados e anulados, sempre tentando agradar ou não perturbar nosso par. Sentimos ansiedade, desconfiança, culpa, medo, etc. “Sintomas” que podem ser devidos à uma baixa autoestima, a sentir que não valemos nada ou que somos inferiores ao nosso parceiro, a necessitar excessivamente do outro, a sentir medo ou intolerância à solidão.

“Se não somos nós mesmos, se somos apenas no outro, se somos o reflexo, nossa autoestima depende de a luz chegar ou não em nós. Como a lua, que quando não recebe a luz do sol, é como se não existisse “.
-Villegas-

Casal com dependência emocional

Além disso, quando estamos em um relacionamento tóxico tendemos a aguentar mais do que deveríamos: comentários desagradáveis ​​de desvalorização, olhares e silêncios de incriminação, censuras, invasão de privacidade, constantes perguntas para controlar, mentiras… Inclusive podemos chegar a suportar agressões verbais e físicas. Às vezes a idealização do par nos leva a desculpar o seu comportamento (cansaço, nervosismo, ele faz o melhor que pode, etc.) e nós pensamos que isso vai mudar. Outras vezes é o precipício que imaginamos o que nos trava.

Como podemos perceber que estamos em uma relação de dependência?

Não é fácil perceber que estamos em uma relação de dependência emocional, mas há sempre indicadores e sinais que refletem essa disfuncionalidade, como por exemplo, as emoções. Nossas próprias emoções nos mostram que a relação não está funcionando bem. Em um relacionamento saudável não deveríamos sentir medo nem sofrimento.

“As emoções expõem os problemas para que a razão os resolva.”
– Greenberg –

Quando estamos dentro da relação, podemos perder a perspectiva e ver apenas o que nós amamos sobre o nosso parceiro. Na verdade, não vemos o que não estamos dispostos a ver, e muitas vezes percebemos quando já percorremos um longo caminho (Grad, 2015). Por isso, é importante escutar e considerar – não obedecer de maneira sistemática – os conselhos sinceros das pessoas que nos conhecem bem. Por mais que nos desagrade que outras pessoas nos digam “essa pessoa não é para você, você deve deixá-la”, e que pensemos que eles não nos entendem… Pode ser que eles estejam certos.

Tatuagem de asas

Mas, por que suportamos uma relação que nos faz sofrer? Especialmente quando se supõe que é uma relação livre que temos porque acreditamos que o nosso parceiro é um apoio importante, uma fonte de confiança na qual podemos encontrar alguma incondicionalidade. Se isso não é assim, talvez seja necessário romper com a dinâmica ou reconsiderar a situação.

A verdade é que nós podemos ter um relacionamento saudável, sem dependência ou sofrimento, baseado na confiança e no respeito. Por isso, é importante notar que nós também temos parte da responsabilidade: Nós não somos responsáveis ​​pelo que o outro faz, mas sim pelo que nós fazemos. Se nós mudarmos (agirmos, pedirmos ajuda…) a situação irá mudar.

FONTES:

Castelló, J. (2006). Dependência emocional. Características e tratamento. Madrid: Alianza Editorial.

Grad Powers, M. (2015). A princesa que acreditava em contos de fadas. Barcelona: Ediciones Obelisco.

Greenberg, L. S. (2000). Emoções: um guia interno. Bilbao: Desclée de Brouwer.

Guix, X. (2011). T’estimo Tant! Els estils afectius i pelos compromis. Barcelona: portic. (A versão castelhana é Como eu te amo! Por Aguilar Editorial)

Villegas, M. (2011). O erro de Prometheus: psico(pato)logia do desenvolvimento moral. Barcelona: Herder.

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