Por que temos alucinações?

11 Janeiro, 2021
Pacientes com alucinações somáticas têm percepções de sensações corporais anormais ou experiências físicas.

As alucinações são fenômenos fascinantes. Segundo o dicionário da Real Academia Espanhola, a alucinação é uma sensação subjetiva que não é precedida por uma impressão nos sentidos. Mas afinal, por que temos alucinações?

A palavra alucinação foi descrita pela primeira vez por Lavater para se referir a “fantasmas e espíritos que caminham pela noite”. Posteriormente, o termo foi usado para descrever um comportamento que a pessoa entende como adaptado, mas é percebido por um observador como negligente e insensato (1).

No sentido técnico, o termo “alucinação” foi apresentado pela primeira vez em 1837. Foi nessa época que o psiquiatra francês Jean Etienne Esquirol (1772-1840) publicou seu livro intitulado Des Maladies Mentales (2). Nele, descreve claramente o significado da palavra alucinação.

Resumindo, as alucinações podem ser definidas como percepções que ocorrem na ausência de um estímulo externo correspondente. Além disso, elas podem envolver qualquer um dos estímulos perceptivos. Por isso, existem vários tipos de alucinações: auditivas, visuais, táteis, olfativas e gustativas.

Por que temos alucinações?

Para começar, nem todos os pacientes que têm alucinações apresentam algum transtorno psicótico. As razões pelas quais alucinamos podem ser psiquiátricas e não psiquiátricas.

Mulher tendo alucinações

Alucinações auditivas

Também são conhecidas como paracusia. Trata-se de percepções sonoras na ausência de estímulos externos identificáveis. A seguir, apresentamos as possíveis causas deste tipo de alucinação (3):

  • Lesões periféricas;
  • Apoplexia;
  • Doença do ouvido médio;
  • Doença do ouvido interno;
  • Distúrbio do nervo auditivo;
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
  • Depressão psicótica;
  • Transtorno dissociativo de identidade;
  • Mania;
  • Delírio;
  • Síncope;
  • Alucinose alcoólica;
  • Esquizofrenia;
  • Malformações arteriovenosas;
  • Epilepsia do lobo temporal;
  • Lesões pontinas;
  • Transtornos do Sistema Nervoso Central (SNC).

Entre 60% a 90% dos pacientes com esquizofrenia e cerca de 80% dos pacientes com psicose afetiva apresentam alucinações auditivas (3). Além disso, no caso das alucinações auditivas na psicose, estas costumam ser complexas. Uma manifestação comum é, por exemplo, ouvir vozes.

A pessoa pode ouvir duas vozes diferentes falando sobre ela na terceira pessoa. As vozes podem ser percebidas como vindas de dentro ou de fora da cabeça da pessoa. Algumas pessoas afetadas ouvem seus próprios pensamentos em voz alta.

Alucinações visuais

Elas se manifestam como percepções sensoriais visuais na ausência de estímulos externos (4). Estas falsas percepções podem consistir em imagens formadas (pessoas, por exemplo) ou imagens não formadas (como luzes, por exemplo) (5).

Este tipo de alucinação pode ocorrer em vários distúrbios (6):

  • Problemas neurológicos;
  • Epilepsia;
  • Enxaqueca;
  • Distúrbios do nervo óptico;
  • Lesões hemisféricas;
  • Lesões do tronco cerebral;
  • Glaucoma;
  • Narcolepsia;
  • Condições oftalmológicas;
  • Condições na retina;
  • Condições tóxicas e metabólicas;
  • Alucinógenos;
  • Transtornos afetivos;
  • Doença retiniana;
  • Enucleação;
  • Transtorno da coróide;
  • Anomalias maculares;
  • Formação de catarata;
  • Síndromes de abstinência de drogas e álcool;
  • Encefalopatia tóxico-metabólica;
  • Transtornos de conversão;
  • Privação sensorial;
  • Privação de sono;
  • Hipnose;
  • Experiências emocionais intensas.

O DSM-IV-R considera as alucinações visuais como um diagnóstico primário para determinados transtornos psicóticos, incluindo entre eles a esquizofrenia e os distúrbios esquizoafetivos (7).

Alucinações olfativas

Envolvem cheiros que a pessoa sente e que também não vêm de nenhum estímulo físico. Eles podem ocorrer em decorrência de várias condições psiquiátricas. Entre elas:

  • Esquizofrenia;
  • Depressão;
  • Transtorno bipolar;
  • Distúrbios alimentares;
  • Abuso de substâncias.

Também acontece de alguns pacientes perceberem que são a fonte de um odor desagradável. Essa síndrome é chamada de síndrome de referência olfativa. As pessoas acometidas por esta síndrome tendem a tomar banho em excesso, abusar do uso de perfumes ou desodorantes e até mesmo a se afastar de seu círculo social (8).

Alucinações gustativas

Os pacientes podem sentir salivação, sensação de sede ou alterações no paladar. Estas alucinações podem ocorrer quando a fissura silviana que se estende até a ínsula é estimulada eletricamente (9).

Semelhantes às olfativas, as alucinações gustativas estão associadas a condições no lobo temporal e também a lesões do opérculo parietal (9, 10).

Alucinações táteis

Podem incluir a percepção da presença de insetos na pele ou sob a pele, ou também a estimulação de pressão sobre a pele (11). Estas alucinações foram associadas ao abuso de substâncias, à toxicidade ou à abstinência (12). Além disso, são características da intoxicação por cocaína ou anfetamina (11).

Mulher se coçando

Alucinações somáticas

Os pacientes têm percepções de sensações corporais anormais ou experiências físicas. Pode ser o caso, por exemplo, de uma pessoa ter a sensação de não ter estômago ao comer (11). Estes tipos de alucinações foram associadas com a ativação das áreas do cérebro que são apresentadas a seguir:

  • O giro pós-central;
  • O opérculo parietal;
  • A ínsula;
  • O lobo parietal inferior.

Sendo assim, aparentemente as razões pelas quais temos alucinações são muitas e muito diversas. Portanto, dependendo do tipo de alucinação de que estamos falando, podemos atribuí-la a um ou outro distúrbio. Além disso, dependendo do tipo de alucinação que ocorre, algumas áreas do cérebro ou outras serão ativadas.

Definitivamente, o motivo de termos alucinações depende muito da existência de outros sintomas que podem nos orientar para as causas desses fenômenos.

  1. Siegel, R. K., & West, L. J. (1975). Hallucinations: Behavior, experience, and theory. John Wiley & Sons.
  2. Esquirol, J. D. (1837). 1845. Mental Maladies: Treatise on Insanity.
  3. Cummings, J. L., & Mega, M. S. (2003). Hallucinations. Cummings JL. Clinical neuropsychiatry. New York: Grune & Stratton, 19851221-233.
  4. Norton, J. W., & Corbett, J. J. (2000, February). Visual perceptual abnormalities: hallucinations and illusions. In Seminars in neurology (Vol. 20, No. 01, pp. 0111-0122). Copyright© 2000 by Thieme Medical Publishers, Inc., 333 Seventh Avenue, New York, NY 10001, USA..
  5. Kaplan, H. I., & Sadock, B. J. (1989). Typical signs and symptoms of psychiatric illness. Comprehensive textbook of psychiatry, 1, 538-542.
  6. Cummings, J. L., & Miller, B. L. (1987). Visual hallucinations: clinical occurrence and use in differential diagnosis. Western Journal of Medicine, 146(1), 46.
  7. SHAPSE, S. N. (2008). THE DIAGNOSTIC AND STATISTICAL MANUAL OF MENTAL DISORDERS i.
  8. Ropper, A. H., Samuels, M. A., & Klein, J. P. (2009). Disorders of smell and taste. Adams and Victor’s principles of neurology. 9th ed. New York, NY: McGraw-Hill Companies, 216-224.
  9. Ropper, A. H., & Samuels, M. (2009). Epilepsy and other seizure disorders. Adams and Victor’s principles of neurology, 9.
  10. Capampangan, D. J., Hoerth, M. T., Drazkowski, J. F., & Lipinski, C. A. (2010). Olfactory and gustatory hallucinations presenting as partial status epilepticus because of glioblastoma multiforme. Annals of emergency medicine, 56(4), 374-377.
  11. Nurcombe, B., & Ebert, M. H. (2008). The psychiatric interview. Ebert MH Nurcombe B, Loosen PT, et al, eds. Current diagnosis and treatment: psychiatry. 2nd ed. New York, NY: McGraw-Hill Companies, 95-114.
  12. Lewandowski, K. E., DePaola, J., Camsari, G. B., Cohen, B. M., & Ongür, D. (2009). Tactile, olfactory, and gustatory hallucinations in psychotic disorders: a descriptive study. Ann Acad Med Singapore, 38(5), 383-385.