O que há por trás das tensões no relacionamento?

· dezembro 5, 2017

Com a idealização do amor e certos manuais que pretendem eliminar as contradições da vida, se tornou mais difícil amar. Em uma coisa o passado foi melhor: a forma de lidar com as tensões no relacionamento. Não parecia que eram algo tão extraordinário, e costumavam ser aceitas como um acontecimento normal.

Isso mudou muito na atualidade. Parece que o amor entre duas pessoas, para que seja assumido como válido, deve excluir as contradições. As tensões no relacionamento são vistas como um sinal de alarme. Uma evidência de que existe algo errado.

“O amor é física; o matrimônio, química”. 
-Alejandro Dumas –

Agora não se parece aceitar o fato de que duas pessoas que se amam podem acabar se machucando. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, a implica. A maioria das relações humanas deixa muito a desejar, se a compararmos com modelos ideais. Ainda sim, podem ser fortes e resistentes.

Com o parceiro não inauguramos uma história inédita. Na verdade, damos continuidade a vários roteiros que já trazemos do passado. Ao relato de amor inacabado que escrevemos desde que nascemos com nossos pais. A outros amores falidos ou alegres que já não existem. Não chegamos novos e com o papel em branco a nenhuma de nossas relações.

Imagens de homem e mulher sobrepostas

As origens das tensões no relacionamento

O primeiro motivo das tensões no relacionamento é a queda das expectativas românticas. Não é que a outra pessoa seja uma fraude. O que termina caindo, ao menos em parte, é aquele conjunto de sonhos e propósitos ideais com os quais costumamos iniciar uma relação. Especialmente quando sentimos que estamos diante do “amor de nossas vidas”.

É natural que se produza uma idealização do outro. Está incluído na gaveta dos processos psicológicos que aparecem durante a fase de paixão. Algumas pessoas são mais propensas a isso e outras menos, mas em todos os casos existe algo.

Logo, também é natural que se inicie uma linha de pequenas desilusões. Descobrimos que no quebra-cabeças, definitivamente, faltam peças. Ao contrário do que tínhamos imaginado inicialmente, aquela pessoa nos aborrece às vezes. Também chega a nos incomodar. E talvez é mais deste mundo, e não de outro, como tínhamos suposto.

Este ponto marca a dissolução de muitos relacionamentos em amadurecimento. Em outros é somente uma etapa. O interesse de fundo se mantém, assim como a compatibilidade. O afeto é mais forte que a decepção. São assumidas então aquelas tensões no relacionamento como um impedimento que não é determinante. Se alguém quiser levar para o lado dramático, sofrerá uma crise de expectativas e realidade.

Tensões no relacionamento

Tudo se acomoda depois de um tempo

O declínio das expectativas românticas é somente o começo. Duas pessoas podem ser muito espertas e realistas. No entanto, ao se tornarem um casal, vários elementos (pensamentos, comportamentos, emoções, etc) deixam de estar em seu lugar. Muitas vezes, em algum ponto de qualquer união estável, ambos se perguntarão se não terão errado em sua escolha amorosa.

Assim é o amor: contraditório: As tensões no relacionamento são o pão de cada dia, não a exceção à regra. Não existe nenhuma relação humana tão cheia de contrastes como a que existe entre um casal que forma uma união amorosa. Um erro que perdoamos em um filho ou um amigo sem problemas, pode crescer no contexto de relacionamento. As paixões, incluído o aborrecimento, sempre estão na ordem do dia.

Sem perceber, todos os casais negociam regras secretas. Um será o forte e o outro se deixará ser protegido. Um será o compreensivo e o outro o exigente. Um se angustiará pelos dois e o outro trará a calma. A união não só se baseia no afetos, e sim nos fortes mecanismos psicológicos que, na maior parte das vezes, avançam sobre o terreno do inconsciente. E quando não são cumpridos estes acordos nunca firmados, aparecem as tensões no relacionamento.

Existe quem não aceita o fato de que assim é o amor verdadeiro. Não desejam renunciar às fantasias de uma relação plenamente harmônica que cumpra com a ideia do amor em maiúsculas, mas tampouco querem renunciar a uma que equilibre suas imperfeições. Uma em que não existam tensões no relacionamento, e sim um bem-estar constante que faça justiça à promessa “e viveram felizes para sempre”. Um amor que não implique perdões nem frustrações. Justo o tipo de afeto que jamais irão encontrar, pela simples razão de não existir.