O curioso principio de Peter que revolucionou o jeito de enxergar a promoção no trabalho

· novembro 5, 2016

Laurence J. Peter era um professor de Ciências da Educação da Universidade do Sul da Califórnia. Ele escreveu um livro satírico chamado “O princípio de Peter” nos anos oitenta. O texto surgiu depois de uma longa observação sobre a forma como se administravam as hierarquias nas organizações. Seu enfoque básico é que as sucessivas promoções tornam as pessoas incompetentes.

Dizem que este princípio já havia sido descoberto por José Ortega y Gasset, quando formulou o seguinte conceito em 1910: “Todos os funcionários públicos deveriam ser rebaixados ao seu grau imediatamente inferior, porque foram promovidos até se tornarem incompetentes”.

Com base nesta premissa, Laurence Peter formulou duas grandes conclusões, que desde então são um ponto de referência dentro do mundo administrativo:

  • Com o passar do tempo, toda “posição” tende a ser ocupada por um funcionário que é incompetente para desempenhar suas obrigações.
  • O trabalho é realizado por aqueles funcionários que ainda não alcançaram o seu nível de incompetência.

“A burocracia é uma máquina gigantesca dirigida por pigmeus.”
-Honoré de Balzac-

O princípio de Peter em detalhe

É evidente que o princípio de Peter faz alusão ao fato de que quanto mais as pessoas ascendem nos seus cargos, mais incompetentes se tornam. Mas, por que isto acontece? A resposta está na própria dinâmica das promoções, que a princípio procuram premiar um bom funcionário, mas que a longo prazo podem provocar dificuldades para ele mesmo.

Foto de Laurence J. Peter

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Vejamos isto com atenção. Existe um funcionário que é excelente no que faz. Suponhamos que o caixa de um banco, que sempre tem tudo pronto na hora e nunca apresenta falhas no seu trabalho. Como prêmio pelo seu bom desempenho, a organização decide promovê-lo a chefe dos caixas. Para desempenhar esta nova função, o antigo caixa precisa adquirir novos conhecimentos e novas habilidades, o que implica, inicialmente, uma certa queda no seu nível de desempenho.

Contudo, se for alguém muito esperto e comprometido, em pouco tempo pode vir a desenvolver seu novo trabalho com total eficiência. Portanto, é provável que ganhe uma nova promoção e então comece o ciclo novamente. Isto irá se repetir até chegar ao cargo no qual será incompetente, de forma que não será merecedor de uma nova promoção.

O que Peter postula, então, é que como as organizações hierárquicas trabalham sob este tipo de modelo, os funcionários que ocupam os cargos mais altos costumam ter um elevado grau de incompetência. Estão ali porque já não podem subir mais, mas ao mesmo tempo nesse caminho foram perdendo a possibilidade de fazer aquilo que eram mais capazes.

Evitar as promoções?

A obra escrita por Laurence Peter tinha inicialmente um propósito sarcástico, mas foi tamanho o impacto que causou que também tem sido usada como ponto de reflexão importante nas organizações. A pergunta óbvia, depois que este mecanismo oculto por trás das promoções fica evidente, era: então é melhor não promover os funcionários? A impossibilidade de uma promoção não acabaria desmotivando as pessoas que trabalham?

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O que se concluiu é que as medidas ideais para que os altos cargos não sejam ocupados por pessoas levadas ao seu limite máximo de incompetência são duas: as escadas da aprendizagem e um novo critério na definição dos salários. As escadas de aprendizagem são um mecanismo para acompanhar as atividades profissionais com processos de capacitação, que também permitam avaliar quão preparada uma pessoa está para assumir um novo cargo.

Os novos critérios na definição de salários são uma boa ideia, de difícil aplicação. Procura-se premiar os bons funcionários com um salário maior e não necessariamente com uma ascensão. Isto implicaria, a longo prazo, que duas pessoas no mesmo cargo poderiam ter salários muito diferentes.

É previsível que esta falta de simetria se traduza em conflitos profissionais, de modo que é difícil de implementar. O que certamente tem sido implementado é o esquema de oferecer bonificações e privilégios aos trabalhadores com melhor desempenho, sobre certas diretrizes de avaliação previamente definidas.

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Como quer que seja, o fato é que o princípio de Peter nos coloca diante de um grande paradoxo: provavelmente as pessoas com mais poder e mais capacidade de decisão possuem um alto grau de incompetência. E têm nas mãos o destino de muitos. Será por isso que as grandes soluções para a sociedade nunca chegam?