Psicologia comunitária: origens, características e fundamentos teóricos

Psicologia comunitária: origens, características e fundamentos teóricos

Última atualização: 09 Janeiro, 2021

Como podemos contribuir de forma mais ativa em nossa comunidade? Por que os problemas da sociedade podem afetar a nossa saúde e o nosso bem-estar? Esses são dois dos principais temas de interesse no campo da psicologia comunitária, um ramo da psicologia preocupado com a relação entre os indivíduos e a sociedade.

Esta é uma disciplina muito vasta que sintetiza elementos de outras áreas como a sociologia, a psicologia transcultural, psicologia social, saúde pública e ciências políticas. Os psicólogos que trabalham neste ramo analisam os aspectos culturais, econômicos, sociais, políticos e ambientais que cercam e influenciam a vida das pessoas ao redor do mundo.

O foco da psicologia comunitária pode ser aplicado ou teórico, mas geralmente há uma mescla de ambos. Alguns psicólogos comunitários realizam investigações sobre questionamentos teóricos. Outros utilizam essas informações de maneira imediata para identificar problemas e desenvolver soluções nas comunidades. Portanto, a psicologia comunitária é uma disciplina orientada ao estudo e à transformação social.

Unidos pela sociedade

Origens da psicologia comunitária

A psicologia comunitária surgiu nos anos 50 e 60 do século XX nos EUA. O motivo era a insatisfação, por parte de um grupo cada vez maior de psicólogos, com a capacidade da psicologia clínica em abordar problemas sociais mais amplos.

Entre os fatores que contribuíram para a origem da psicologia comunitária nos EUA, estão:

  • Um afastamento das práticas socialmente conservadoras centradas no indivíduo, na saúde e na psicologia durante um período relacionado a temas de saúde pública, prevenção e mudanças sociais após a Segunda Guerra Mundial;
  • O interesse crescente, por parte dos psicólogos sociais, nos preconceitos raciais e religiosos, na pobreza e em outras questões sociais;
  • A carência de tratamento de doenças mentais em larga escala para veteranos;
  • O questionamento do valor da psicoterapia como único tratamento para um grande número de pessoas com doenças mentais;
  • O desenvolvimento de centros comunitários de saúde mental e a desinstitucionalização de pessoas com doenças mentais em suas comunidades.

Muitos autores reconhecem que ocorreu uma reunião de psicólogos em 1965 durante a Conferência de Swampscott, que teria dado início oficial à psicologia comunitária contemporânea. Nela, os terapeutas concluíram que a psicologia precisava estar mais centrada nas mudanças sociais e comunitárias para abordar a saúde mental e o bem-estar. A partir deste momento, o ramo começou a crescer até os dias de hoje.

Características e fundamentos

Os direitos civis, o ativismo pacifista, o feminismo, o movimento antipobreza e a consciência ambiental proporcionaram o contexto no qual surgiu a psicologia comunitária.

Neste sentido, foi fundamental para o seu desenvolvimento a ideia de que a psicologia não deve focar apenas em tratar as pessoas na hora em que surgem os problemas, mas que também possui um papel importante ao abordar as condições sociais que aumentam os riscos de doenças e de angústia, como a pobreza e o racismo, por exemplo.

Assim, a psicologia comunitária possui um conjunto identificável de princípios que norteiam o ramo. Estes princípios incluem:

  • O bem-estar pessoal e o acesso a recursos;
  • A justiça social e a ausência da opressão;
  • Um senso de comunidade e conexão;
  • Múltiplas dimensões da diversidade (gênero, etnia, orientação sexual e deficiências, por exemplo);
  • Colaboração comunitária, participação, autodeterminação e empoderamento.

Na preocupação com a interdependência e a interação de indivíduos e grupos, a psicologia comunitária tenta delinear a criação de transações entre as pessoas e seus ambientes de modo que evitem disfunções, facilitem o empoderamento, a justiça social e promovam o bem-estar. Por conta disso, a psicologia comunitária insiste em níveis múltiplos de análise:

  • Individual (atitudes, cognições, emoções);
  • Microssistema (família, salas de aula, equipes);
  • Organizacional (escola, igreja, organização);
  • Comunidade (identidade, comunidades de experiência comum);
  • Macrossistema (ideologias, culturas, instituições sociais).
Peças de quebra-cabeça

As pesquisas na psicologia comunitária

A pesquisa na psicologia comunitária está baseada em um modelo colaborativo no qual o pesquisador trabalha em conjunto com a comunidade para lidar com as necessidades. Assim, este tipo de investigação deve conduzir à ação ou ter implicações claras para a ação.

Os focos de intervenção utilizados pela psicologia comunitária incluem programas de intervenção primária, intervenções de empoderamento, grupos de apoio mútuo (autoajuda) e estratégias de ação social (organização e defesa da comunidade, por exemplo).

Assim, o objetivo primordial das intervenções da psicologia comunitária é tratar as causas das doenças e da angústia utilizando estratégias direcionadas tanto aos fatores antecedentes quanto aos de facilitação.

Como podemos ver, a psicologia comunitária é uma disciplina que se preocupa com a utilização de recursos psicológicos para resolver problemas sociais, no intuito de conseguir realizar transformações.

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