Quando a ansiedade assume o controle, você deixa de ser você mesmo

outubro 1, 2019
Uma mente dominada pela ansiedade se sente incapaz de apreciar as coisas mais simples da vida. Está presa pela preocupação, pela angústia, pelo diálogo interno negativo e por um ponto de vista pessoal no qual, em vez viver, nos limitamos unicamente a ‘sobreviver’.

Quando a ansiedade assume o controle da nossa realidade, tudo muda, tudo se desfaz e se dilui. Porque a ansiedade é como aquela convidada incômoda que se aproveita de nós, que se nega a ir embora quando pedimos e bagunça tudo. Quando isso acontece, nossa personalidade muda e nós perdemos potencial, equilíbrio e bem-estar.

Vale destacar que, a partir do ponto de vista psicológico, os seres humanos são habilidosos especialistas em transformar a ‘bela’ em ‘fera’. O que isso significa? A ansiedade em si não é nossa inimiga, somos nós que a transformamos em um monstro incômodo que devora a calmaria e corrói a saúde.

Essa dimensão, quando bem controlada e calibrada a nosso favor, se torna uma excelente aliada. Ela nos permite reagir diante de ameaças, nos dá impulso, motivação, capacidade de conquista, etc.

No entanto, existe outro problema evidente por meio do qual a ansiedade acaba assumindo a forma do nosso pior inimigo.

Nossa sociedade é um cenário ideal para dar forma a perfis ansiosos. A ansiedade prospera em condições de incerteza, e hoje em dia o mundo está cheio de pequenas e grandes ameaças potenciais que não conseguimos controlar.

Por outro lado, há um fato chamativo: nossa sociedade, de certa forma, também premia os comportamentos ansiosos.

Estar sempre ocupado e preocupado, ter a agenda cheia ou fazer cinco coisas ao mesmo tempo é algo normal e até mesmo desejável. Quem não tem esse padrão de vida é tachado de preguiçoso ou despreocupado.

Vamos deixar uma coisa clara: dar poder à ansiedade provoca graves efeitos colaterais. Viver no piloto automático guiado por essa dimensão não é viver, é se limitar a sobreviver.

 “Ocultar ou reprimir a ansiedade provoca, de fato, mais ansiedade.”
-Scott Stossel-

Homem enfrentando ansiedade

O que acontece quando a ansiedade assume o controle?

Robert Edelmann, professor emérito de psicologia forense e clínica na Universidade de Roehampton, em Londres, afirma uma coisa interessante em seu livro Anxiety: Theory, Research and Intervention in Clinical and Health Psychology (Ansiedade: Teoria, Pesquisa e Intervenção em Psicologia Clínica, em tradução livre).

A ansiedade em si não é uma anomalia psicológica e menos ainda uma doença. É apenas mais um processo do funcionamento humano, algo normal. O único problema é que o ser humano tem se acostumado a fazer um mau uso dela.

Nós não podemos passar meses, anos e décadas inteiras acumulando tensões, medos e preocupações. Determinadas experiências não enfrentadas, um estilo de vida marcado pelo estresse contínuo e até mesmo um diálogo interno negativo são fatores que vão tornando mais intenso esse ambiente pressurizado no qual o ar não é liberado, mas perigosamente acumulado.

No entanto, longe de causar uma explosão, esse material incendiário entra em nós e em cada partícula do nosso ser, transformando-nos. É isso que acontece quando a ansiedade assume o controle.

Você para de confiar em si mesmo e passa a se autossabotar

A ansiedade nos transforma em alguém que vai contra as próprias expectativas. Pouco a pouco, o ponto de vista mental se torna mais negativo, chegando a se tornar nosso próprio mecanismo de boicote.

Qualquer ideia que passar pela nossa cabeça será posta em dúvida por aquela voz interior modulada pela ansiedade.

As metas, os desejos e os planos de futuro também serão objetos de crítica diante dos quais a ansiedade sussurra a cada instante que não vale a pena, que vamos fracassar repetidas vezes.

Também não importa que você tenha se esforçado muito para realizar uma determinada tarefa ou projeto. No fim, você vai duvidar tanto de si mesmo que acabará descartando qualquer ideia.

As relações pessoais perdem qualidade

Quando a ansiedade assume o controle do nosso cérebro e das nossas vidas, ela acaba por minar o valioso tecido relacional. Uma mente sempre ocupada costuma se descuidar, quase sem querer, daqueles que mais importam.

Ela faz isso porque tem dificuldade para detectar as necessidades alheias quando a própria pessoa sente angústia, pressão e mal-estar.

É difícil manter um caráter próximo, otimista e bem resolvido quando o que está ocorrendo por dentro é uma tempestade emocional. Tudo isso, sem dúvida, faz com que os vínculos familiares saiam perdendo e surjam vários problemas.

Por outro lado, as relações sociais também perdem força. É muito difícil manter as amizades ou fazer novos amigos quando a ansiedade está dentro de nós.

Mulher diante de um lago

Quando a ansiedade assume o controle, nada mais é interessante

Uma pessoa que sofre de ansiedade age por inércia: vai ao trabalho e volta para casa. Mantém conversas nas quais se limita a falar, responder, sorrir e ficar em silêncio.

Continua a realizar aquelas atividades que antes apreciava, finge se divertir e até aparenta uma certa felicidade. No entanto, acaba voltando para casa com uma grande sensação de vazio.

Os transtornos de ansiedade inundam nosso cérebro e nosso corpo por meio da noradrenalina e do cortisol. Esses hormônios, basicamente, nos limitam a ficar alertas, a nos manter no modo de sobrevivência.

É impossível, portanto, que consigamos aproveitar alguma coisa ou relaxar, porque no cérebro ansioso não há espaço para a serotonina e a endorfina.

Tudo isso faz com que acabemos nos tornando desconhecidos para nós mesmos. Passamos a apreciar praticamente nada, e nada parece ter significado. Pouco a pouco, navegamos por esse vazio existencial, no qual a ansiedade traça o rumo e também o caos. Não devemos permitir isso.

Não se pode deixar que essas situações se alonguem no tempo, porque o desgaste psicológico e físico é enorme.

Não devemos, portanto, hesitar em pedir ajuda. Os transtornos de ansiedade não são combatidos com antídotos, mas com estratégias e novas abordagens mentais que todos nós podemos aprender a colocar em prática.

  • Hofmann SG, Dibartolo PM (2010). Introduction: Toward an Understanding of Social Anxiety Disorder. Social Anxiety.
  • Stephan WG, Stephan CW (1985). Intergroup Anxiety. Journal of Social Issues.