Como abrir as portas quando a quarentena terminar: o dia seguinte

11 Agosto, 2020
Desde o primeiro dia de confinamento, tantas mudanças aconteceram que imaginar como vai ser o dia seguinte ao seu término é um desafio. O psicólogo Marcelo Ceberio fala sobre o assunto a seguir.

Você já parou para pensar no que vai acontecer quando a quarentena realmente terminar? Todos temos defeitos e qualidades, mas nesta quarentena, os defeitos têm sido os protagonistas – mais vistos e identificados.

Por exemplo, há uma rachadura no teto que sempre esteve lá, mas agora que estamos em casa por tanto tempo, a vemos maior e mais profunda e até nos incomoda se não a consertarmos. Esse mesmo fenômeno ocorre entre pessoas que compartilham a quarentena.

Por um lado, isso acontece porque a ansiedade amplifica e potencializa as nossas imperfeições. Por outro lado, a percepção dos interlocutores no confinamento se concentra nas características disfuncionais. Uma combinação perfeita: nossos erros são exacerbados e percebemos em maior medida aqueles que os outros cometem.

Portanto, não é que sejamos mais “defeituosos”, mas sim que os defeitos são mais vistos, pois compartilhar três horas com uma pessoa é diferente de compartilhar o dia todo. Agora temos mais tempo para focar a nossa atenção. A fórmula é a seguinte:

Tempo de confinamento + aborrecimento + tédio + fim dos fatores de distração (dicas úteis para sobreviver em isolamento) + ansiedade.

Uma vez que tudo que foi recomendado já foi feito e os estímulos motivadores terminaram, começam a aparecer o tédio, a intolerância, o mau humor e, é claro, os aborrecimentos em relação aos defeitos dos outros e de nós mesmos. Então, se estamos agindo dessa maneira até agora, como faremos quando a quarentena terminar?

Como abrir as portas quando a quarentena terminar?

De uma cautela protetora a uma conspiração paranoica

Compilei uma série de histórias e comentários de pacientes que realmente chamaram a minha atenção e que, de alguma forma, preveem uma série de comportamentos que podemos ter quando a quarentena terminar.

Algo como tiques sistematizados em nosso corpo, atitudes e emoções que, possivelmente, se desenvolvem nos primeiros dias da ressocialização. Tudo vai depender do grau de consciência responsável que tivermos após a quarentena.

Sonhos durante a quarentena

Um reencontro muito próximo

Uma mulher me disse que sonhava que se reencontrava com sua melhor amiga após a quarentena. Elas se encontravam cara a cara, se olhavam nos olhos e ela ia em direção à amiga, com muito carinho, e a abraçava. Então, logo em seguida, sua amiga a empurrava vigorosamente.

Ela imediatamente percebeu o erro que havia cometido, levou as mãos à cabeça angustiada e assustada e, com isso, acordou.

Fugir dos transeuntes

Outro paciente sonhava que, quando saía na rua, tudo estava deserto, com carros quebrados, negócios fechados, casas saqueadas. À distância, alguns transeuntes parecidos com mortos-vivos tentavam se aproximar para lhe dar uma mordida mortal.

Ele começou a correr porque se esqueceu da máscara e, quando se virou, tinha a imagem do vírus em primeiro plano. Ele acordou num sobressalto.

A alegoria de mortos-vivos incorpora o coronavírus e acelera o medo de sair de casa.

O abraço rejeitado

Outro homem saiu para retirar o lixo e, a caminho do contêiner, encontrou seu vizinho, que também era seu amigo.

Quando se viram, foram se cumprimentar e se abraçar, até perceberem o que estavam fazendo e recuarem.

O pânico construtor

Um paciente estava em seu carro dirigindo para o supermercado chinês da sua cidade. Depois de uma verificação nas ruas, eles mediram a sua temperatura na entrada do mercado, o que o deixou nervoso.

Ele entrou e começou a suar e sentir calor, estava com falta de ar: quase um ataque de pânico. Ele sai, mas na saída, há outro controle. Acalorado, eles o testaram novamente e o homem ficou com medo de estar com febre, o que acelerava o seu batimento cardíaco e o fazia suar ainda mais, enquanto pensava em todas as complicações que teria se fosse internado. Mas não, a verificação deu negativa.

Ele percebeu que toda a limpeza do supermercado era à base de água sanitária e se sentia um pouco intoxicado; o ar livre o acalmou e oxigenou, e ele percebeu a paranoia que havia acabado de construir!

Homem dormindo

Saídas até o supermercado para “quebrar a tarde”

O tema do supermercado não é algo que é levado a sério. De fato, é uma das poucas saídas permitidas desde o início da pandemia, além de levar os cães para passear.

A vontade de sair é tanta que ir ao supermercado se tornou um grande evento. As pessoas se arrumam, trocam de roupa como se estivessem indo a uma festa, pegam suas bolsas e seguem alegremente para algum supermercado perto de casa.

Já no supermercado, algumas coisas interessantes estão acontecendo em relação às atitudes das pessoasFenômenos que podem ser analisados ​​por psicólogos e sociólogos que estudam os comportamentos humanos.

Antes, as pessoas iam de um lugar para o outro com o carrinho de compras sem preocupações, inadvertidamente roçavam umas nas outras e até pediam desculpas quando se tocavam. Porém, nestes tempos, não acontece o mesmo. Em alguns casos, houve uma mudança da cautela protetora para uma conspiração paranoica: se uma pessoa usando uma máscara é vista vindo com seu carrinho, outra pessoa dá um giro de 90º no corredor mais próximo.

No entanto, por mais prudente que seja a higiene, é impossível controlar todas as frentes. Nesse mesmo supermercado, alguém infectado pode tossir e colocar as mãos na boca. E com a palma da mão cheia de bactérias, pegar um carrinho. Ele faz suas compras e vai embora, deixando as barras do carrinho contaminadas.

Depois de um curto período de tempo, o carrinho está disponível e alguém o pega. Além de pegar o carrinho de compras, também se contamina com os vírus deixados nele. Se você tocar espontaneamente seu rosto ou nariz, a rota da infecção está pronta.

Mulher no supermercado

Muitas perguntas e poucas respostas para quando a quarentena terminar

Então, o que acontecerá no dia seguinte ao término da pandemia? Continuaremos com os cuidados intensivos no que diz respeito à esterilização? Certamente alguns rituais de higiene prevalecerão com o tempo, mesmo quando a quarentena terminar.

Por exemplo, o fato de trocar os sapatos e não entrar em casa com os mesmos sapatos com os quais andamos nas calçadas ou nas ruas. É algo que naturalmente não pensávamos antes e que pode ser um dos aprendizados que a quarentena nos deixou.

Uma das mudanças que parece estar se firmando é o trabalho remoto. O teletrabalho é uma alternativa que veio para ficar.

As pessoas vão viajar menos, haverá menos poluição, aglomeração de pessoas nas áreas dos escritórios, gastos com refeições ao meio-dia, aluguel de apartamentos por empresas, etc., embora também ocorra a deterioração econômica de muitas empresas que vivem do público consumidor.

As outras pessoas vão continuar sendo uma ameaça de contágio? Voltaremos a beijar, abraçar, apertar as mãos como um sinal de saudação, ou vamos passar a cumprimentar a todos a 2 metros de distância? Como será o estilo de saudação no futuro? Vamos continuar levando o álcool em gel no carro ou na bolsa?

Que enigma! E como abriremos as portas das empresas, bancos, restaurantes, universidades, escolas e a casa dos nossos amigos? Podemos usar os cotovelos, a parte do corpo que nunca imaginaram que serviria como uma mão adicional.

Estou muito intrigado se voltaremos a usar os banheiros públicos em estações de serviço, restaurantes ou estações de trem. Além disso, quando estivermos desesperados diante de uma dor de barriga ou uma bexiga cheia, essas sensações vão superar o medo?

Continuaremos com essa sensação de contaminação e sujeira ambiental quando a quarentena terminar? Essa sensação que nos faz voltar para casa e sentir que precisamos tomar banho e nos encher de álcool para apagar os vestígios virais acumulados no ambiente externo. Em outras palavras, devemos mudar ou devemos resistir? Quantas perguntas, não é mesmo?

A verdade é que quase ninguém desfrutou dessa quarentena. Exceto pessoas com fobia social, para quem ficar trancado em casa era perfeitamente útil para aliviar seus sintomas, a quarentena foi um inconveniente para todo mundo.

No entanto, cada pessoa neste planeta construiu seu próprio significado para essa quarentena. Portanto, não houve apenas uma quarentena, mas sim várias, que acabaram se transformando em uma estratégia preventiva.

E cada um, da mesma maneira que construiu sua própria quarentena, à sua medida, também construirá particularmente o seu dia seguinte a ela. Seja como for, o mais importante é sair dessa situação crítica de maneira graciosa e com algum aprendizado.

A pandemia é um fato, e depende de cada um de nós construí-la como uma oportunidade de alcançar algo que pode ser capitalizado para aplicar em outras experiências. Aí reside a base do aprendizado, literal e metaforicamente: como e com o que abriremos essas novas portas quando tudo isso terminar?