Quando desejamos algo que não chega

abril 21, 2019
Muitas vezes não conseguimos aquilo que desejamos tanto, talvez porque o excesso de desejo revele que existe uma realidade inconsciente, à qual não prestamos atenção, que se impõe entre nós e aquilo que queremos conseguir.

Se pararmos para prestar atenção, são muitas as situações da vida nas quais desejamos algo que não chega. Lutamos com todas as nossas forças e, inclusive, empreendemos grandes esforços para alcançar nosso objetivo, mas nada acontece.

Parece que quanto mais desejamos alguma coisa, mais essa coisa se afasta. Muito frequentemente, quando deixamos de desejar com tanta intensidade, de repente, abre-se uma possibilidade que permite realizar aquele desejo.

Quando desejamos demais que algo aconteça, ou que chegue logo, já nos colocamos em um estado de inquietude e de certa inconformidade. As horas parecem dias e os dias parecem anos. Tentamos usar toda a paciência que temos disponível, mas não conseguimos tirar aquilo com o que tanto sonhamos da nossa cabeça.

Às vezes é um amor, outras é um emprego, ou dinheiro, a cura de uma doença, etc. Torna-se necessário alcançar tal coisa e sentimos que o nosso bem-estar depende disso.

Esta situação, na qual desejamos muito algo que não acontece, por assim dizer, é o lado oposto da coincidência. Não conseguimos fazer com que a realidade entre em sintonia com o nosso desejo. Fazemos o necessário e, por um motivo ou outro, o que esperamos acaba não acontecendo. Mas, por que tudo isso? Como isso pode ser explicado a partir do ponto de vista psicológico?

“Se você quer construir um navio, não comece procurando por madeira, cortando tábuas ou distribuindo o trabalho. A primeira coisa que deve ser feita é procurar homens que desejam o mar livre.”
-Antoine De Saint-Exupéry-

Mulher fazendo bolhas de sabão

Por que desejamos tanto?

A primeira pergunta que deveríamos fazer nestes casos é “por que desejamos tanto algo?”

O segredo está na palavra “tanto”. Este excesso revela que construímos circunstâncias que nos levaram a uma situação de urgência. Há uma necessidade muito forte, e satisfazê-la torna-se um fator decisivo para o nosso bem-estar. Sentimos que este “algo” que buscamos ansiosamente é, de forma ilusória, imprescindível para o nosso bem-estar.

O primeiro questionamento ajuda a entender se aquilo que tanto desejamos realmente tem o poder transformador que pensamos.

Alguns pensam que um grande amor pode acabar com a solidão, a tristeza e o isolamento. Outros pensam que um novo emprego dará sentido a suas vidas. Há também quem pense que ter muito dinheiro acabaria com os seus problemas, ou que superar uma determinada condição de saúde faria com que a vida se resolvesse.

O ato de colocar a felicidade em algo costuma levar a distorções de realidade. O comum é que esta seja a causa e consequência de um processo de idealização.

No fundo, é parte da ideia de que existe um estado de vida pleno, um paraíso que deve ser alcançado. Supostamente, não encontrá-lo causa incômodo. O objeto do nosso desejo representa este paraíso em nossa mente. Os seres humanos pensam assim.

Homem observando o horizonte

Por que o que desejamos tanto nunca chega?

A pergunta de por que o que desejamos nunca chega pode ter muitas respostas. Uma primeira aproximação nos leva a concluir que, às vezes, simplesmente desejamos o que não existe. Muitas vezes ficamos presos em desejos impossíveis e fantasias irrealizáveis, como a de sermos resgatados ou de nos tornarmos algo externo que dê motivo para a nossa existência.

Pensamos que o amor de outro ser humano vai resolver a nossa falta de amor próprio. Ou que o reconhecimento social nos dará a sensação de transcendência que não temos. Talvez que a vida que levamos e que construímos até agora de repente desapareça e se transforme em uma existência sem as carências ou erros de hoje.

Embora seja politicamente correto dizer que “tudo pode ser alcançado”, a verdade é que não, nem tudo pode ser alcançado. Existem objetivos impossíveis de alcançar e é preciso reconhecê-los.

Não podemos, por exemplo, viver para sempre. Também não é possível evitar que o sofrimento chegue às nossas vidas. Da mesma forma, há grandes façanhas que podem ser alcançadas, mas que supõem, muitas vezes, longos processos e esforços constantes e muito bem direcionados.

Também entra aqui o que Jung chamou de “sincronicidade”. Criam-se circunstâncias coincidentes com os processos inconscientes que vivemos.

Às vezes nos fixamos apenas em nossa mente racional e vemos que há um grande desejo, mas que não se materializa em uma conquista. Talvez, inconscientemente, desejemos outra coisa e, finalmente, acabamos alcançando.

O ser humano é tão complexo que, muitas vezes, quer sofrer. É claro que isso é o que acaba conseguindo, mas não percebe o que fez para chegar a este resultado.

  • Jung, C. G., Kahnemann, H., & Butelman, E. (1964). La interpretación de la naturaleza y la psique: la sincronicidad como un principio de conexión acausal. Paidós.