Quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie

20 Maio, 2020
Quanto Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie, ele escreveu uma carta para seu amigo e colega Ludwig Binswanger. Nela, explicou que, de certo modo, sua dor era uma forma de seguir apegado ao amor e, por isso, era melhor não se desprender totalmente dela.
 

Quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie, ele se viu obrigado a mudar muitas das suas teorias sobre o luto. Ele teve plena consciência de que aquela dor e aquele vazio nunca iriam embora. Poderiam se tornar mais fracos com o tempo, mas nunca sumir. Por sua vez, ele entendeu que não existiam refúgios para onde ir e poder aliviar o sofrimento, porque a morte de um filho era, no seu parecer, algo inconcebível.

Sophie Freud era a quinta filha de Sigmund Freud e Sophie Halberstad. Ela nasceu em 12 de abril de 1893 e quase de imediato se tornou a favorita do pai. Aquela menina, quase sem saber por quê, acalmou o caráter tirânico e patriarcal do pai da psicanálise. Ela era bela, bem resolvida e sempre decidida a seguir sua própria vontade, além do que o ambiente determinava.

Ela se casou aos 20 anos com Max Halberstadt, fotógrafo e retratista de Hamburgo. Aquele garoto de 30 anos não era rico, nem muito especial ou com uma boa projeção, e por isso Sigmund Freud sabia que sua filha poderia um dia passar alguma necessidade. No entanto, ele não se opôs ao romance e fez sua filha prometer que o manteria atualizado sobre seus problemas e preocupações.

A jovem Sophie assim o fez. Ninguém poderia prever que a felicidade da favorita de Freud não duraria muito, e que apenas seis anos depois do casamento ela acabaria falecendo.

“Trabalho tudo que posso, e sou grato pelo que tenho. Mas a perda de um filho parece ser uma lesão grave. O que se conhece como luto provavelmente durará muito tempo”.
-Carta de Freud a Ludwig Binswanger-

 
As duas filhas de Freud

Quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie

Um ano depois do casamento entre Sophie e Max Halberstadt, nasceu Ernst Wolfgang. O próprio Sigmund Freud se sentiu fascinado pelo pequeno, e não hesitou em escrever sobre aquele nascimento para seu colega Karl Abraham:

“Meu neto Ernst é um pequeno e encantador companheiro que ri de maneira marota quando alguém está prestando atenção. É uma criatura valiosa nesses tempos nos quais só cresce a bestialidade desatada”

Lembremos que a Primeira Guerra Mundial rondava a Europa. Sigmund Freud foi uma das primeiras figuras que alertaram sobre esse pensamento desconcertante e brutal que estava germinando inclusive na sua cidade natal, Viena. Não obstante, seu círculo pessoal e familiar não foi afetado até que Hitler chegou ao poder em 1933.

Até então, Freud seguiu desenvolvendo seu trabalho enquanto continuava trocando cartas com sua filha Sophie. No dia 8 de dezembro de 1918, nasceu seu segundo neto, Heinz. Foi então que a jovem comentou com seu pai que estava passando por problemas financeiros e que a chegada desse segundo filho era uma bênção… porém também um problema.

 

Freud não hesitou em oferecer a eles a ajudam de que precisavam. Mesmo assim, como podemos ler em As cartas de Sigmund Freud, também ofereceu a sua filha conselhos sobre os métodos contraceptivos da época. No entanto, eles não pareceram eficazes porque um ano depois Sophie estava grávida de novo.

Sophie Freud

A terceira gravidez não desejada, quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie

Quando Sophie escreveu para seu pai anunciando com medo sua terceira gravidez não desejada, seu pai respondeu o seguinte:

Se você acredita que a notícia me deixa bravo ou consternado, está enganada. Aceite esse bebê, não se engane. Em alguns dias chegará um pagamento para você proveniente de parte das minhas novas edições.

No entanto, em 1920 a Europa se tornou vítima da gripe espanhola e Sophie, muito debilitada pela terceira gravidez, acabou sendo contaminada em janeiro do mesmo ano. Ela faleceu pouco dias depois, por uma infecção. Quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie, escreveu sobre o impacto daquela experiência.

Explicou, por exemplo, que não pôde encontrar transporte para estar junto de sua filha nos seus últimos dias. A única coisa que pôde fazer foi ir ao seu enterro e assumir uma perda para a qual ele não conseguia encontrar sentido nem explicação. Não obstante, outro fato que chamou a atenção aconteceu nove anos depois daquela perda. Em uma carta que ele escreveu para um dos seus melhores amigos e colegas Ludwig Binswanger, ele fala que ainda não havia conseguido superar a perda.

 

“Sabemos que a dor aguda que sentimos depois de uma perda segue seu curso, mas também permanecemos inconsoláveis e nunca encontramos um substituto. Não importa o que aconteça, não importa o que façamos, a dor sempre estará lá. E é assim que deveria ser. É a única forma de perpetuar um amor que não queremos abandonar.”
-Carta de Sigmund Freud a Ludwig Binswanger-

Sigmund Freud e o luto

Em As cartas de Sigmund Freud podemos inclusive ler as cartas que Freud e o doutor Arthur Lippmann, do hospital de Hamburgo, enviaram um ao outro depois da morte de Sophie aos 26 anos. Nela, o pai da psicanálise lamenta que a medicina não tenha podido dispor de métodos contraceptivos eficazes. Além disso, nessas cartas ele lamenta inclusive o que ele chamava de “uma lei tola e desumana que obrigava as mulheres a continuar com gestações indesejadas”.

Quando Sigmund Freud perdeu sua filha Sophie, tentou lidar com o luto a seu modo e o fez durar por mais de 10 anos, até o ponto de ter que reformular esse conceito em suas teorias.

Ele teve que assumir que, na hora de enfrentar perdas, era possível experimentar tanto tristeza quanto melancolia, e que ambos estados eram aceitáveis. Inclusive, a própria dor era um desafio compatível com a sobrevivência. Era, e é, esse laço obstinado que a pessoa se nega a abandonar, porque é o único modo de seguir sentindo o amor de um ser querido.

  • Freud, Sigmund (2016). “Cartas a sus hijos”, T. II, Ed. Paidós, 2016.