Ouvir queixas e advertências na infância: a ansiedade da vida adulta

· julho 6, 2017

Uma menina olha através da janela do carro o que acontece ao seu redor. Ela está no banco de trás, relaxada e cheia de um espírito curioso. Com um temperamento doce e ambicioso por encher sua vida de sensações, enquanto ouve como seus pais falam.

Estão angustiados pelas despesas, lembrando de rancores passados e verbalizando em voz alta constantemente como a vida é dura e como demoram para conseguir as coisas. Não é a primeira vez que isto acontece. Após vários outros trajetos do mesmo jeito, os pensamentos da menina parecem ficar opacos. Ao descer do carro para ir à escola, a sua mãe pede para ela ter cuidado. Não especifica com o quê.

A mochila dessa menina está cada vez mais pesada. Nem a boa situação econômica, nem os colegas legais, nem o fato de ter vivido uma infância sem traumas irão evitar que constantemente sinta que alguma coisa não está bem. Alguma catástrofe iminente pode acontecer.

A sua família diz para ela ter cuidado, que muitas coisas ruins acontecem, e que se a avisam disso é porque se preocupam com ela e não querem que nada de ruim lhe aconteça. Não especificam que tipo de experiências são essas com as quais precisa ter cuidado e se pode fazer alguma coisa para preveni-las ou para se defender delas se acontecerem. Tudo é recebido de forma passiva, sem nenhuma instrução especial.

A sua curiosidade fica presa na sua imaginação. Passa a ter muito medo de começar qualquer ideia que passe na sua cabeça. A sua rede de alerta se expandiu em direção a tudo que sente e vive. Nada disso estava no seu cérebro, mas as queixas e advertências o estão modificando. Ela está desenvolvendo o Transtorno da Ansiedade Generalizada, mas passará por centenas de diagnósticos errados até descobrir isto.

Criança olhando por janela de carro

Um medo que não desaparece, uma preocupação que vem do nada e toma conta de tudo

O Transtorno da Ansiedade Generalizada não é um episódio de estresse, uma preocupação temporária sobre alguma coisa em especial ou um estado de irritabilidade por mais tempo que o normal. Este transtorno é resultado de uma grande quantidade de experiências de vida que modificaram o sistema cognitivo, emocional e fisiológico do indivíduo até conseguir se somatizar como uma forma de reagir diante do medo de uma maneira quase instintiva.

Como muitos outros transtornos psicológicos, não tem uma origem orgânica, mas este ainda em menor proporção tem a ver com uma origem biológica ou genética. Costuma se apresentar com maior frequência em filhos que nasceram quando as mães já eram mais velhas, mas não se sabe exatamente o que significam estes resultados. Só existem correlações e não conclusões causais a este respeito, mas seria um aspecto interessante a estudar com mais profundidade futuramente.

Homem em meio a nuvens e neblina

A Ansiedade Generalizada no adulto se caracteriza por uma sensação de preocupação constante baseada na antecipação de acontecimentos futuros. O adulto com Ansiedade Generalizada foi uma criança que aprendeu que estar preocupado era uma forma de se conectar com a vida, não simplesmente um sinal circunstancial de alerta no qual se propõe o que fazer com relação a um assunto em especial.

A preocupação é uma forma de fuga da realidade, uma desculpa diante do medo e da incerteza. Um espírito de luta e criatividade anulado pela escuta de queixas, preocupações, lamentos do passado e advertências não específicas de perigo constantes.

O medo e a evasão: uma forma de dar razão à queixa

Os momentos mais críticos para a ansiedade se tornar crônica têm espaço nos primeiros anos da juventude, contudo, esta ansiedade pode ter sua origem na própria infância. Essa menina que estava cheia de curiosidade olhando através da janela nunca conseguiu descer do carro e realizar o que ela sonhava.

Ficou inabilitada por conselhos que talvez não valessem nada para ela, com advertências de segurança sem que existisse um perigo, e assim os constantes comentários sobre o seu comportamento arriscado e pouco adequado anularam o seu espírito empreendedor. Diante do julgamento e questionamento do que ela faz, a sua autoestima se vê comprometida e ela prefere evitar, deixar sem terminar atividades e procurar justificar de outra forma, como supervalorizar a dificuldade da tarefa, a sua falta de determinação.

A menina curiosa parou no início de uma ponte. Parece que as pessoas a atravessam com facilidade e vão comprando bilhetes para a vida adulta, como se tivessem existências limitadas. A menina antes da ponte está paralisada porque não para de ouvir queixas e advertências. Agora, ser adulta veio muito rápido para ela e de forma muito pesada.

Menina com seu ursinho de pelúcia

Fazer e pensar: uma forma de sair do ciclo da ansiedade

Existem poucas ações tão contraprodutivas quanto dizer a alguém que padece de ansiedade que pare de senti-la, como se fosse um rabisco a lápis que pode ser apagado com duas passadas de borracha. A pessoa que padece de ansiedade precisa de tempo para desconstruir um sistema de alerta anômalo, que está super ativado com relação a qualquer assunto ou tarefa.

Além disso, costuma se preocupar com experiências nas quais “falhou” no passado e muitas vezes se culpa por qualquer prazer vivenciado, desde a compra de uma roupa até uma saída com amigos. Parece que o prazer não faz parte do seu jeito de viver a vida, pois depois da paz, qualquer “coisa ruim” pode acontecer.

O mais adequado para uma pessoa que sofre deste transtorno é começar a conviver com suas experiências internas de ansiedade sem que isso implique renunciar ao fato de VIVER. Isto parece complicado, mas na verdade o único remédio válido para a ansiedade é justamente o contrário à evasão: o enfrentamento e execução de um plano previamente estabelecido é a forma mais eficaz de atravessar essa ponte para a independência.

Considerando que muitas vezes este transtorno é confundido com outros como a depressão, fobias ou condutas obsessivas, o seu diagnóstico pode ser tardio. Começar o tratamento com algo além de estabilizar o paciente é complexo. Existem remédios como a venlafaxina que ajudam e criam menos dependência do que qualquer benzodiazepina.

Um tratamento multidisciplinar, integrado e que recupera o compromisso da pessoa afetada é fundamental para que esta pare de contemplar a vida através dos seus pensamentos e mergulhe nela. Se não for assim, da distância os monstros sempre projetam sombras grandes e paralisantes, tão confusas e ameaçadoras quanto as da menina que olhava pela janela do carro naquela manhã.