Quem dera a educação despertasse a mesma paixão que o futebol

· agosto 29, 2016

Quem dera se algum dia a educação despertasse a mesma paixão que o futebol. Quem dera fosse tão relevante e essencial que nossas crianças e jovens pudessem ter uma educação de qualidade. Uma educação em que as descobertas despertem a mesma emoção que um gol ou uma cesta no último minuto.

Quem dera pudéssemos aliviar os nossos professores, quem dera fizéssemos de sua profissão um trabalho bem considerado e remunerado. Quem dera víssemos em nossas crianças seu verdadeiro potencial, quem dera os governos adotassem os professores dos melhores meios para que esses pudessem ensinar da forma mais individualizada possível, acolhendo e ressaltando os pontos fortes de cada um dos seus pupilos.

Quem dera o adolescente que pergunta e demonstra paixão pelo que os livros contam despertasse a mesma expectativa nos pais, na sociedade, que o adolescente que promete ser um melhor do mundo, prata, bronze ou todos de uma vez. Quem dera os jornais que aludem a novas descobertas fizessem aquelas manchetes tão esperadas e interessantes como as dos dias posteriores aos grandes jogos.

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Enquanto lemos e pensamos nesses “quem dera”, existem milhares de crianças que não têm nada para comer, que buscam uma parcela de chão para poder estudar um livro herdado, que olham seu caderninho de notas e não sabem o que aconteceu. Milhares de crianças que se frustram com a matemática, milhares de análises que não compreendem, guerras que não conhecem. Guerras, preconceitos e crenças que enganam com sua intenção de seguir adiante, de sobreviver.

Está constatado que grande parte dos sistemas educativos do mundo são inadequados pela sua insuficiência, pois limitam o estudo à escola e não partem do conhecimento das crianças para potencializá-los. Ainda que os meios sejam diferentes, a má educação está presente tanto nos países pobres quanto nos desenvolvidos.

O efeito “doutor futebol”

É algo bem conhecido no contexto médico: nos dias de jogos de futebol e nas épocas de competições importantes, as emergências dos nossos hospitais ficam mais vazias. Um fenômeno tão curioso que provoca certa reflexão sobre nossas paixões.

Na Espanha foram realizados estudos sobre esse fato e as conclusões são que 35% menos pacientes chegam às emergências, sendo que a porcentagem é maior (44%) se considerarmos pessoas com doenças menores ou pouco relevantes. A diferença é significativa e nos faz questionar nossos hábitos.

Hábitos que se refletem na pergunta – de resposta obrigatória – que fazemos a nossas crianças praticamente desde que começam a articular suas primeiras palavras: “Para qual time você torce?”. Não nos questionamos, habitualmente, que talvez a criança não goste de futebol ou, pelo menos, não tenha tanto interesse assim. Os “obrigamos” a ter uma resposta,  a marcar um gol.

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A educação é a base da sociedade

O segredo do sucesso da educação finlandesa, referência clara nesse quesito, é que suas atuações são caracterizadas pela consideração com o professorado que foi selecionado e aos quais são oferecidos meios para que possam se converter em instrutores maravilhosos.

Dessa maneira, a garantia que a educação deve oferecer é a de instruir cada criança de acordo com o seu potencial, assegurando que cada pessoa possa chegar a se superar, e não fabricando agendas gerais que não dão espaço a nenhuma adaptação e sim a muitas frustrações, a muitos aborrecimentos, a notas desastrosas e a perdas que são difíceis de quantificar pela sua importância para a sociedade, para a espécie ou para o planeta.

O melhor sistema educativo é o que consegue fazer os estudantes irem além e melhorarem seus resultados, individualizando e flexibilizando o currículo que é proposto. Ou seja, transformar em realidade uma proposta educativa baseada no conceito vygostkiano de capacidade e de potencial.

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Isso não quer dizer que devamos deixar de nos emocionar com o esporte. Seríamos tolos se não entendêssemos que, além do seu componente lúdico, é uma fonte de diversão e um contexto perfeitamente válido para a formação de valores. Um time não seria bom se seus componentes não entendessem a importância da cooperação, se não colocassem em prática o princípio de Gestalt de que o todo é muito mais que a soma das partes.

É um milagre que a educação sobreviva ao nosso sistema educativo

A educação, tal como se define em termos de recursos e de conceito, hoje está em déficit na maior parte do planeta. Einstein, um dos maiores gênios da história, afirmou que é um milagre que a curiosidade humana sobreviva à educação regrada.

Vamos concordar que algo está errado e esse algo não é de agora. Por que uma criança de 4 anos faz mais de 100 perguntas por dia e uma criança de 10 começa apenas a se preocupar com as respostas das provas? A resposta é fácil, pois como sociedade estamos cortando as asas das nossas crianças. E isso não acontece apenas na escola.

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Porque se a criança não pode aprender pelo caminho generalista que foi traçado para ele e para o resto das crianças da sua idade, então deve-se ensinar pelo caminho no qual a criança aprenderá, pelo caminho que indicam suas capacidades. Porque, no final, trata-se principalmente de termos em mente que o verdadeiro direito não é o de sermos iguais, mas sim o de sermos diferentes e sermos tratados como tal, começando pela educação.