Raiva e depressão: como se relacionam?

· maio 17, 2019
Raiva e depressão são expressões de frustração, mal-estar e incômodo frente à realidade. Representam o processamento fracassado de um mal-estar interno. Alguém que sempre está irritado provavelmente está deprimido, e vice-versa.

Raiva e depressão são duas realidades que costumam ser indissociáveis. O estereótipo nos diz que uma pessoa está deprimida quando se mostra triste, recuada e, mais ou menos, impenetrável em seus sentimentos de infelicidade. No entanto, não é bem assim. Essa é uma faceta da depressão, mas não é a única. Além disso, a depressão se manifesta de forma diferente dependendo do temperamento de cada pessoa.

Os estudos indicam que as pessoas que têm tendência à irritabilidade são mais vulneráveis diante da depressão. Mais precisamente, conseguiu-se estabelecer uma correlação entre a depressão e pessoas que têm ataques de raiva.

Os estados de raiva e depressão costumam ter um gatilho comum: a frustração. Esta, por sua vez, surge de um desejo ou um objetivo não alcançado ou não cumprido. Mais do que aquilo que não se obtém em si, o que desencadeia o mal-estar é a falta de recursos para processar essa frustração. Quase sempre, essa situação surge acompanhada de uma opinião pobre sobre si mesmo e de um passado com carências afetivas.

O efeito da depressão no cérebro

Raiva, depressão e inconsciente

Do ponto de vista do inconsciente, raiva e depressão fazem parte de um mesmo processo. Quase se pode dizer que são equivalentes. O que diferencia uma da outra é o objeto ao qual se dirigem. Enquanto a raiva se volta a algo externo, a depressão inclui os mesmos sentimentos agressivos, mas dirigidos à própria pessoa.

Raiva e depressão se conjugam de maneira tão perversa quanto harmônica, sendo as manifestações de uma e outra distintas. Na raiva, em particular quando há ataques ou explosões de agressividade, surge uma conduta destrutiva em direção ao outro. Um processo que dá voz a palavras que ofendem, minimizam ou degradam o outro.

Na depressão ocorre algo semelhante, só que nesse caso a pessoa dirige a violência verbal a si mesma. É tão destrutiva quanto a violência dirigida aos outros. E também muitas vezes aparece acompanhada de agressões físicas diretas ou, pelo menos, tentativas de agressão. É o caso, por exemplo, das condutas de risco, nas quais a integridade é colocada em perigo.

Raiva e depressão

Um círculo vicioso

A cadeia de fatos que conduzem à depressão costuma começar com um desejo frustrado. A pessoa deseja algo, mas não obtém e talvez, em princípio, isso não a atinja fortemente. Mas se essa situação de querer e não conseguir se repete várias vezes, é construído um sentimento de frustração muito mais profundo.

Ao mesmo tempo, isso incide na confiança que a pessoa tem em si mesma e sua autoestima se debilita. Se ela não expressar tudo isso, esse acúmulo de emoções fica em seu interior, oprimindo-a, e pode chegar a um ponto em que vai atingi-la, quebrando-a internamente.

Tendo chegado a esse ponto, é possível que a pessoa sinta uma aversão constante em relação ao mundo. De acordo com o temperamento que tiver, esse incômodo será expressado como uma rejeição e uma negação a se envolver com as coisas ao redor. Ou o contrário: uma tendência a incidir negativamente no meio em que vive, exatamente porque a pessoa o rejeita. Normalmente, ambas as formas de expressão se combinam e se sucedem.

Escutar e assumir as emoções

Raiva e depressão são dois estados destrutivos, tanto para quem os sente quanto para quem convive com eles. Geralmente, levam a conflitos desnecessários e situações de elevada intensidade emocional, que afastam os demais. Ao mesmo tempo, a culpa e o isolamento levam ao aumento da frustração, da raiva e da depressão.

A saída de tudo isso é simples e, ao mesmo tempo, complexa. Trata-se de aprender a escutar as emoções que estão dentro de nós e dar-lhes o valor que merecem. Não reconhecer esses sentimentos e não deixar que sejam expressados é o que vai se transformando em uma força opressora que acaba, posteriormente, nos machucando e machucando os outros.

Homem cansado com a mão na cabeça

Se você sente que esses sentimentos de tristeza ou raiva se transformaram em sombras, inundaram seu interior e você não consegue se livrar deles, é provável que você precise expressar o que está acontecendo.

Talvez um profissional tenha a capacidade de te ajudar a reinterpretar o que está acontecendo em seu mundo interno. Entender por que você deseja o que deseja e não obtém e como isso acaba te bloqueando. Caso contrário, raiva e depressão serão os fatores que começarão a ditar o que acontece com você.

  • Salguero Noguera, J. M., & Iruarrizaga Díez, I. (2006). Relaciones entre inteligencia emocional percibida y emocionalidad negativa: ansiedad, ira y tristeza/depresión. Ansiedad y estrés, 12(2-3), 207-221.