A raiva no processo do luto

setembro 18, 2019
Perder alguém, em alguns casos, significa ficar permanentemente preso à irritação, a uma raiva que não passa. É difícil entender por que o pior aconteceu com uma pessoa tão especial. A raiva é uma emoção muito comum no processo do luto.

A raiva é uma etapa comum no processo do luto. No entanto, há pessoas que ficam encalhadas nessa fase, que colapsam emocionalmente e ficam presas devido à perda que sofreram.

Não é fácil lidar com todo esse emaranhado confuso de sentimentos, no qual a irritação e a incompreensão pelo que aconteceu mudam nossa personalidade e vão nos levando a mergulhar em um estado muito debilitante.

William Shakespeare dizia que chorar faz com que o luto seja menos profundo. No entanto, quando alguém não consegue dar o passo para o desabafo emocional, essa pessoa se torna uma pedra que cai devido ao seu próprio peso no mais profundo poço de desconsolo.

Assim, dentre todas as etapas do luto definidas por Elisabeth Kübler-Ross, é muito possível que essa segunda, caracterizada pela raiva e pela frustração, seja a mais problemática.

Essa fase define o momento em que o indivíduo toma plena consciência da morte daquela pessoa querida, mas em vez de aceitar, acaba se rebelando. A mente começa a buscar culpados, e os sentimentos de injustiça, ressentimento e raiva vão se incrustando de maneira constante e profunda.

As emoções agem como um vento furioso que agita de maneira constante as roupas estendidas no varal, balançando-as, distorcendo-as, querendo arrancá-las da corda onde estão presas.

A pessoa quer manter o controle, mas se sente incapaz. Porque a raiva é fúria e, frequentemente, nos transforma em algo que não somos.

 “O luto suprimido fere. Faz estragos dentro do peito e é forçado a multiplicar sua força”.
-Ovídio-

Mulher tentando extravasar a sua raiva

A raiva no processo do luto: como ela se manifesta?

A raiva surge no processo de luto como uma reação à perda. Não podemos esquecer que essa emoção, assim como a ira, é um mecanismo instintivo que ajudou o ser humano a reagir diante do que o cérebro interpretava como uma ameaça.

Portanto, o que seria mais impactante do que perder alguém tão significativo? A marca da dor é enorme e, como tal, aparece uma resposta.

Experimentar esse tipo de realidade é completamente normal. Além disso, estudos como o realizado pelo doutor George A. Bonanno, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, afirma que não existem lutos “normativos”.

Portanto, embora tenhamos em mente as etapas estabelecidas pela doutora Kübler-Ross no passado, cada pessoa processa e enfrenta seu luto de uma maneira particular.

Apesar disso, vale ressaltar que lutos complicados, como o luto congelado ou tardio, quando a perda se arrasta durante anos e não é processada, podem levar à depressão. Vamos ver, portanto, como a raiva se manifesta no processo do luto.

Obsessão com o que aconteceu e perguntas sem respostas

Quando perdemos alguém, é comum que nos façamos muitas perguntas. Uma muito comum é aquela em que, como se fosse um lamento carregado de raiva, nos perguntamos por que essa pessoa específica e não outra.

Por que isso teve que acontecer justo com o meu pai? Ele era tão jovem ainda… Se era tão bom e tinha tanta vontade de viver, por que justo ele teve que ir? 

Esse tipo de ideia gera pontos fixos e obsessivos na mente da pessoa, que fica presa no seu processo do luto. A obsessão com o que aconteceu, buscando explicações e até culpados, é algo comum que alimenta a própria raiva.

Hipersensibilidade

A raiva no processo do luto faz com que a pessoa sofra, em muitos casos, de hipersensibilidade. De repente, qualquer estímulo inesperado, qualquer notícia ou fato repentino a afeta de maneira intensa.

A pessoa superestima tudo negativamente, qualquer coisa a afeta de maneira descontrolada e, até mesmo, devastadora.

A personalidade e o caráter mudam

Uma coisa que precisamos entender sobre a ira e a raiva é que elas têm um poder transformador. Elas nos mudam, nos transformam em alguém que não somos e de quem não gostamos.

A motivação desaparece. Aquilo que antes nos despertava paixão, deixa de nos interessar. A paciência e o interesse somem. Nós paramos de nos conectar com as pessoas. Ao mesmo tempo, a empatia diminui porque o sofrimento nos obriga a focar a atenção unicamente em nós mesmos.

A raiva no processo do luto

Apatia, dor física, depressão leve

A raiva no processo do luto também se traduz em doenças psicossomáticas. Assim, a dor de estômago, o cansaço físico e mental, as cefaleias, a insônia e uma maior tendência a ter infecções são recorrentes nessas situações.

Por outro lado, é comum perceber indicadores de depressão que, caso não sejam tratados, podem piorar ao longo do tempo.

Como tratar a raiva no processo do luto?

Um dos maiores perigos de sentir raiva nesse tipo de situação é que ela pode nos levar a ter comportamentos tão perigosos quanto prejudiciais para a nossa própria saúde.

Há pessoas que recorrem à bebida, aos jogos de azar ou a qualquer outro comportamento que lhes permita ‘esquecer’ a dor da perda. Sem dúvida, são situações muito complicadas.

Por isso, no momento de tratar esse tipo de realidade, devemos estar cientes de que a terapia psicológica não apenas é recomendável, mas é a única via para recuperar o controle da nossa vida e nos permitir avançar de novo.

Assim, as estratégias que costumam ser colocadas em prática são as seguintes:

Pontos-chave que devem ser trabalhados

  • Avaliação prévia do estado de saúde da pessoa. Antes de iniciar a terapia, é recomendável que o paciente passe por um reconhecimento médico para avaliar seu estado de saúde e a presença (ou não) de outras patologias.
  • Além disso, é preciso que a pessoa demonstre um compromisso firme de continuar com a terapia psicológica.
  • No momento de trabalhar a ira, é recomendável fazer uso da reestruturação cognitiva, identificando pensamentos limitantes e irracionais. Deve-se promover também a canalização emocional, o desabafo e recursos para aliviar o profundo mal-estar emocional.
Mulher caminhando descalça

Vale destacar ainda que esse tipo de terapia varia muito em função das necessidades de cada pessoa.

É um processo que, além disso, exige tempo e um vínculo firme entre a pessoa e o psicólogo. No entanto, o índice de sucesso é alto. Portanto, é possível superar esse tipo de situação. 

  • Bonanno, G. A., & Kaltman, S. (2001). The varieties of grief experience. Clinical Psychology Review21(5), 705–734. https://doi.org/10.1016/S0272-7358(00)00062-3
  • Shear, M. K., & Mulhare, E. (2009). Complicated Grief. Psychiatric Annals38(10), 662–670. https://doi.org/10.3928/00485713-20081001-10
  • Kübler-Ross, E. & Kessler, D (2016). Sobre el duelo y el dolor. Ed. Luciérnagas CAS.
  • Neimeyer, R., (2007). Aprender de la pérdida. Una guía para afrontar el duelo. Ed. Paidós.
  • O’Connor, N., (2007). Déjalos ir con amor. La aceptación del duelo. Ed. Trillas.