A raiva, uma emoção que seduz o nosso monólogo interior

· outubro 7, 2016

A raiva é uma emoção que seduz nosso monólogo interior, que nos sequestra pensamento, palavra e ação. Uma arma defensiva que, se mal utilizada, pode se voltar contra nós mesmos e causar até grandes danos se a deixarmos crescer.

Em geral não gostamos de perder o controle, mesmo assim já foi comprovado em várias ocasiões que muitas vezes não podemos evitar a raiva. Isso ocorre, sem dúvida, porque ela é uma ferramenta natural da evolução para que os homens reajam às injustiças percebidas.
O fato de que uma criança reclame com insistência e veementemente que seu irmão tenha tirado seu brinquedo é, em essência, um modo de fazer valer seus interesses e de evitar que sua integridade seja ferida. O problema dessa emoção aparecerá se a criança não abre mão de seu protesto, mas também não pode planejar alcançar nenhum resultado.
Ou seja, se ficamos concentrados unicamente no “tiraram de mim meu brinquedo”, rapidamente nosso sistema fisiológico e cognitivo será dominado por uma espiral de sentimentos e pensamentos negativos que não permitem a resolução da situação.

homem-triste-com-raiva

A ideia de vulnerabilidade que se esconde por trás da raiva

Não gostamos de demonstrar que estamos com raiva em público, pois entendemos que isso implica uma falha de nossas características pessoais e emocionais. Temos medo de expressá-la e por isso acabamos demonstrando raiva só em nossa casa, acompanhados das pessoas que nos conhecem e que, portanto, esperamos que não nos julguem tanto por isso.
Essa emoção, injustamente tratada, é mal vista por nossa sociedade. Mesmo assim, como destacamos aqui já diversas vezes, manifestar raiva nos oferece informações sobre o que nos incomoda, dando a nós a opção de nos conhecer melhor e buscar o equilíbrio.
Há uma razão principal pela qual não gostamos de expressar raiva: a confundimos com a ira ou com uma expressão desmedida e descontrolada de nossos incômodos. Ou seja, equiparamos o fato de explodir e gritar com franzir o cenho quando algo nos incomoda.
Mas podemos dizer com certeza que a raiva não é como a ira, porque essa corresponde a uma consequência da má gestão daquilo que nos deixa irritados e nos atormenta. Fazemos de um grão de areia uma praia por não nos desfazermos do grão a tempo, e aí é que se arma o circo.
Quando não nos tornamos conscientes e não expressamos essa inquietude, aquilo que nos incomodou se converte em uma potente encruzilhada emocional que sequestra nossa mente, nosso cérebro e nosso corpo.

Por quê? Porque convertemos fatos isolados no foco contínuo de nossa atenção, impedindo a nós mesmos de desfazer uma bola de neve emocional que roda e roda, se tornando cada vez maior.

sombra-desespero

Compreensão e expressão, os primeiros passos da calma

Quando nos tornamos conscientes de nossos sentimentos e emoções, conseguimos dar um passo a mais para lidar com eles e transformá-los em utilidades, e não em danos. Digamos que pisamos no freio quando nos expressamos, pois liberamos grande parte da carga afetiva que promove a chegada de estados de ânimo negativos e potencialmente ameaçadores para o nosso equilíbrio.

Se voltarmos ao exemplo da criança com raiva pelo roubo de seu brinquedo, será mais fácil ver como é normal e adaptativo promover a igualdade por meio do protesto e do pedido de que seja restaurada a liberdade violada.

Mas, conforme já dissemos, uma vez que a raiva surge perante qualquer ameaça física ou psíquica, é importante lidar com esses sentimentos e emoções que já nasceram conosco. Caso contrário nos veremos dominados por pensamentos e ações que só trazem mal-estar sem qualquer preocupação de resolver situações.

menina-renascendo-apos-extravasar-sua-raiva

A anatomia do nosso cérebro emocional com raiva

Quando percebemos através dos nossos sentidos que uma injustiça foi cometida ou alguém faltou o respeito conosco ou com algo ou alguém de nosso interesse pessoal, nosso sistema límbico (amígdala e estruturas adjacentes) recebe uma faísca que põe em marcha toda a maquinaria.

Em outras palavras, é ativado o nosso sistema nervoso central e, com ele, nosso corpo e nossa mente se preparam para dar início à ação. Por sua vez, o neocórtex se encarrega de calcular e dar início a outra ação, essa mais ou menos ajustada à situação.

Assim, a descarga límbica supõe a liberação de catecolaminas (neurotransmissores norepinefrina, epinefrina e dopamina), o que nos ajuda a raciocinar de maneira decidida e rápida. Nesses momentos em que a ativação é grande, podemos ficar muito vermelhos. Nossas bochechas podem esquentar, nossas juntas empalidecer, e nossa mente ir a mil quilômetros por hora.

Por outro lado, a ativação do ramo adrenocortical fomenta uma ativação prolongada que nos predispõe a uma ação durante mais tempo. Essa hipersensibilidade consegue dominar a nossa mente, a qual tende a se alimentar do menu dos pensamentos negativos em espiral.

Ou seja, qualquer pequeno barulho nos fará pular, construindo raiva atrás de raiva e incapacitando-nos cognitivamente cada vez mais, pois não conseguimos raciocinar de modo adequado, o que nos leva a deixar de lado pensamentos que deteriam o aumento exponencial da raiva.

discussao-gerando-raiva

A distância emocional, necessária para esfriar a raiva

Como vimos, a chave para lidar com a raiva de maneira correta está em frear os impulsos. Isso pode ser alcançado de dois modos:

  • Tomando distância física e emocional da situação para evitar que a descarga de adrenalina nos domine e seja alimentada através de uma irritabilidade que reina.
  • Detendo nosso monólogo interno. Ou seja, nos distrairmos e não legitimarmos os pensamentos que passam a dominar a nossa mente.

É isso o que nos faz afirmar que a raiva é uma emoção que seduz o nosso monólogo interior, promovendo argumentos “mais que convincentes” de que aquilo que nos deixou com raiva é a origem de todo o mal.

Pensamento hostil traz pensamento hostil, e acaba sendo construída uma cadeia de raiva até que esta fica tão grande que é convertida em ira. Por isso, se nos questionarmos sobre esses pensamentos que tomam a forma de razões categóricas, conseguiremos apaziguar a cena mental que promove o mal-estar desmedido.

Assim, pouco a pouco, o fogo poderá ir desaparecendo quando deixamos de dar lenha para alimentá-lo, ajudando-nos a contemplar a situação longe das grades que antes nos dominavam. Esse é o primeiro passo para o bem-estar emocional.