Reciprocidade assimétrica: um obstáculo nas relações humanas

A reciprocidade assimétrica, um obstáculo nas relações humanas

Março 19, 2018 em Psicologia 144 Compartilhados
Reciprocidade assimétrica: um obstáculo nas relações humanas

A equidade faz parte da base da maioria dos relacionamentos que mantemos. Por outro lado, todos sabemos que a equidade total é uma utopia. Nunca é possível alcançar um equilíbrio perfeito entre o que se dá ou se recebe e fazer com que, quando está em nossas mãos, receba mais o que mais merece ou mais necessita. No entanto, quando o que prevalece é uma reciprocidade assimétrica clara, há uma grande deterioração em muitos vínculos.

Todos conhecemos uma ou mais pessoas que dão tudo pelos outros, que compartilham tudo o que têm. Pessoas para as quais, por tudo que dão, é difícil responder da mesma maneira. Também é razoável que seja impossível estabelecer igualdade total no que cada um entrega. Também não é desejável que seja assim: teria mais a ver com cálculo do que com a espontaneidade.

Por outro lado, o conceito de “dar” é muito amplo. Significa dar outros bens materiais ou espirituais. Dentro destes, se encontram o carinho, o tempo, a escuta, etc. Se prevalece uma reciprocidade assimétrica, o comum é que uma das partes se sinta confortável recebendo e não faça nenhum esforço para corresponder. Esta é uma atitude que se torna particularmente crítica nos relacionamentos em casal.

“Permitir uma injustiça significa abrir caminho para todos as que se seguem”.
-Willy Brandt-

Agulhas conectadas entre si

As causas da reciprocidade assimétrica

Vale a pena nos perguntarmos por que às vezes se configuram relacionamentos nos quais se instala essa reciprocidade assimétrica. O mais comum é que esse fenômeno seja o resultado de dois tipos de situações. Em ambas é construída a ideia de que um dos envolvidos tem uma maior capacidade, ou tem um dever maior, em relação ao outro ou aos outros.

A primeira situação ocorre quando há uma pessoa que tem algum tipo de força especial. Por exemplo, possui mais habilidades para resolver problemas, tem mais conhecimentos ou simplesmente é mais forte emocionalmente do que aqueles ao seu redor. Esta virtude especial acaba jogando contra essa pessoa. Os outros esperam que seja ela quem resolva, oriente, etc., sem qualquer coisa que compense sua contribuição ou desgaste.

Esse tipo de situação às vezes se estende até à ação do Estado. É o chamado “assistencialismo”. Baseia-se na ideia de que uma pessoa, por ter algum tipo de vulnerabilidade, não precisa corresponder ao que lhe é atribuído. Embora existam situações em que essa reciprocidade assimétrica se justifica, isso só se aplica para circunstâncias muito específicas e de maneira temporária.

Quando o mais vulnerável é obrigado a doar

A segunda situação em que a reciprocidade assimétrica geralmente é configurada é oposta à anterior. Acontece quando uma das partes é desprezada ou despojada de sua dignidade. Forma-se então a ideia de que ela deve dar tudo de si em troca de muito pouco, porque de uma forma ou de outra suas necessidades são menos importantes do que as dos outros.

Isto é o que aconteceu ao longo da história com os povos escravizados. Forjaram ideias segundo as quais, por alguém ter uma certa cor de pele ou por pertencer a uma determinada cultura, não existem direitos. Nesses casos, o submetido apenas deve dar tudo de si, sem esperar nada em troca.

Isso também acontece em muitas relações humanas, particularmente em relacionamentos familiares ou de casais. Estabelecemos a ideia de que a parte mais frágil ou vulnerável tem mais obrigações do que a outra ou as demais. Aquele que não estudou uma profissão deve servir a quem sim. Ou imaginamos que quem é mais inseguro deve se submeter aos demais para obter sua aceitação.

Casal tendo uma discussão

Os efeitos da reciprocidade assimétrica

Embora, de uma forma ou de outra, sempre haja alguma reciprocidade assimétrica nas relações humanas, quando esta é desproporcional, gera efeitos muito nocivos para os envolvidos. O que faz, no final, é criar condições injustas e prejudiciais. Injustas porque uma pessoa acaba sendo um instrumento da outra, e prejudiciais porque essa falta de reciprocidade é uma forma de violência, que também gera violência.

Em todos os casos, incluindo o do Estado, quem se vê obrigado a dar sem receber está sendo explorado. Esse equilíbrio aparente pode ser mantido relativamente estável por algum tempo, mas mais cedo ou mais tarde vai gerar uma crescente insatisfação, que muitas vezes acaba por romper o falso equilíbrio.

Manipular a mente

Para aqueles que dominam, em todo caso, a reciprocidade assimétrica também não contribui muito. Você pode ter o domínio ou contar com os bons ofícios gratuitos de alguém, mas isso de alguma forma também o degrada e, às vezes, o torna inútil. Também o coloca em um estado de necessidade. O que seria do mestre sem o seu escravo? O que resta daquele que domina quando não tem mais seu dominado?

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