As recordações felizes também deixam cicatrizes

As recordações felizes também deixam cicatrizes

Abril 19, 2016 em Psicologia 5 Compartilhados
Recordações de um passado feliz

A mítica Audrey Hepburn disse que o melhor para ser feliz é “ter uma memória ruim”. Há alguma verdade nisso, pois em vários campos da psicologia é consensual que se você pensar no futuro terá ansiedade, e se pensar no passado terá depressão. Mas o que acontece com as recordações felizes?

Todos já experimentamos alguma vez o paradoxo de recordar momentos alegres e sentir uma profunda tristeza nos invadindo, nascida da sensação de que o que aconteceu está muito longe de voltar a acontecer. Nestes momentos, quando os compartilhamos, a nossa voz costuma embargar com um resíduo de nostalgia, como se fosse o eco de um tempo que já passou e ao qual voltaríamos, pelo menos por um tempo, sem pensar muito.

Assim, colocar a nossa máquina do tempo mental para funcionar, ainda que seja para um lugar em que aconteceu algo que guardamos com carinho, pode perturbar o nosso estado de espírito. Até mesmo o castigo que nos deram depois de fazer uma boa travessura parece agora, à luz da nossa mente, algo agradável e alegre. Por isso, as boas recordações fazem com que as más adormeçam, e também deixam cicatrizes.

“Às vezes, as recordações felizes são as mais difíceis de superar.”
-À Procura de Eric-

Rosa

O erro de recordar pensando que continuamos sendo os mesmos

Às vezes nos esforçamos para recordar o passado nos convencendo de que poucas coisas mudaram. Nós continuamos sendo os mesmos, colecionando rugas e dívidas que ainda podemos assumir.

Às vezes recordamos como a única saída para nos sentirmos bem, para nos distrair ou para falar um pouco com alguém que já nos deixou, dizendo ou não um adeus, com ou sem uma explicação. O fato é que nas coisas boas sempre encontramos um lamento por seu final, ainda mais quando ele parece ou é definitivo.

“O errado é olhar o ontem com os olhos de hoje,
querer que as coisas voltem a ser iguais
quando você já não é o mesmo,
como se fosse possível reciclar os suspiros
ou dar um mesmo beijo pela segunda vez.
Os mudos não gritam, os surdos não ouvem a música,
com as letras que se escreve tarde
você não pode escrever agora,
o amor que foi, esse já nunca volta.”
-Marwan-

Não é possível clonar uma mesma experiência. Muitas das experiências que vivemos acabam sendo tão bonitas porque tiveram um final. Talvez seja verdade que tenhamos que assumir que essa época foi a mais maravilhosa, que estamos certos em reservar um lugar na nossa alma para ela.

É o primeiro passo para fazer parte de um grupo muito especial, uma profissão com um grande futuro, o criador de momentos maravilhosos.

As recordações felizes permanecerão sempre, se você deixá-las quietas

Os desejos são boas recordações que se transportam para o futuro. Desejamos poder construir na nossa vida esse sentimento especial que um dia, no passado, invadiu a nossa mente, corpo e espírito. A memória construiu detalhes da recordação que não soubemos integrar no momento.

 “Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.”
-Dante Alighieri-

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A verdade é que pode ser muito mais duro recordar um momento feliz do que um triste quando você está mal. A recordação triste te dá a razão de que sempre houve motivos em sua vida para você estar infeliz. A boa recordação te faz pensar: “Estarei desperdiçando os melhores anos da minha vida por não voltar a sentir aquilo que hoje recordo como a minha melhor época neste mundo?”.

A cicatriz da recordação ruim te machuca, pode fazer você sentir ira ou raiva. A cicatriz da recordação boa sangra porque evoca, com tristeza e melancolia, tempos melhores.

O que fazer para curar a cicatriz de uma boa recordação

Existem recordações pelas quais nos apaixonamos. Passagens da nossa vida que são preenchidas com detalhes inventados que seguem em conformidade com a sensação geral deste momento, fazendo com que ela fique mais forte na nossa memória. É como um amor que evolui e permanece externamente na primeira fase de idealização.

A melhor coisa para romper esta aura é confrontá-la com a realidade. Não com a realidade daquele momento – é claro que você não vai poder regressar a ele – mas sim com pessoas que compartilharam aquele momento com você e que podem te dar uma visão mais realista do que aconteceu e de como você se sentiu.

Quando você tratar a recordação como um todo e deixar de trair a si mesmo pensando que é como um filme romântico, você se dará conta de que nada que nos acontece é absolutamente bom ou mau, apenas contém nuances disso. Esteja ciente desses limites, assim como de tudo o que é positivo.

O fato de ter experimentado algo uma vez propicia que isso se repita com pessoas diferentes e de formas diferentes, porque ao saborear algo bom e doce de verdade, estamos preparados para saber apreciar tudo isso de novo. Afaste o erro de cálculo do seu olhar para o passado e abra os olhos para aproveitar o novo caminho que aparece à sua frente.

Se virmos com olhos realistas, as recordações felizes não deixarão de ser felizes, mas você terá a sensação de que tudo o que é bom já passou. Assim, as recordações felizes deixarão de ser cicatrizes e passarão a ser pegadas do que você viveu, como se tivessem sido deixadas ao andar sobre a areia molhada. Você gosta da sensação dessas pegadas e, assim, elas permitem que você caminhe para outro lugar de forma agradável.

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