Qual é a relação entre o consumo de drogas e os transtornos mentais?

· março 30, 2018

Afinal, qual é a relação entre o consumo de drogas e os transtornos mentais? O consumo de drogas é causa de uma grande quantidade de mortes por ano em todo o mundo. Em 2017, a ONU preparou um informe global sobre o consumo de drogas. Nele foi constatado que no ano anterior o número de mortes derivadas do consumo aumentou 114%.

Os efeitos prazerosos que elas produzem no cérebro, sequestrando de alguma forma o sistema de recompensa, levam a pessoa a se tornar viciada. Um consumo prolongado pode chegar a provocar deterioração neural que afeta a motivação, as emoções, a cognição e o controle executivo. Tudo isso, em alguns casos, pode se traduzir no desenvolvimento de um transtorno mental.

E o que é que se entende por transtorno mental? Segundo a definição clínica do DSM-5, o transtorno mental pode ser entendido como uma síndrome caracterizada por uma alteração clinicamente significativa do estado cognitivo, da regulação emocional e do comportamento de um indivíduo que reflete uma disfunção dos processos psicológicos, biológicos ou do desenvolvimento subjacentes a sua função mental.

As drogas e sua relação com a dopamina

A dopamina é um neurotransmissor liberado pelo cérebro. Dentre todas as suas funções, a mais importante para nós em muitos momentos é a de recompensa de prazer. Ou seja, quando fazemos algo de que gostamos, a dopamina é liberada, o que gera em nós uma sensação prazerosa. Dessa forma, nosso corpo tende a buscar repetidamente essas atividades que “provocam boas sensações” para voltar a experimentar essa sensação de plenitude.

Tanto a comida quanto o sexo são elementos que liberam dopamina, assim como as drogas. Todas elas vão liberar quantidades de dopamina em áreas muito particulares como, por exemplo, o núcleo accumbens. Esse núcleo vai ter uma grande participação no sistema de recompensa cerebral e na integração da motivação com a ação. Essa área mantém fortes conexões com o sistema límbico e com o hipocampo.

Dopamina

Como as drogas funcionam no cérebro?

Os neurônios são as células do sistema nervoso encarregadas da recepção, gestão e armazenamento da informação. Entre um neurônio e outro existe um espaço denominado espaço sináptico. Esse espaço é muito importante já que nele são liberados os neurotransmissores que possibilitam a comunicação química entre os neurônios. A dopamina é liberada e encontrada nesse espaço sináptico.

Isso implica que, quando se consome qualquer substância suscetível a gerar um vício, os níveis de dopamina no espaço sináptico aumentam. Nesse sentido, as drogas podem aumentar a liberação de dopamina nesse espaço, mas também podem bloquear parcialmente a receptação, de forma que o resultado é o mesmo. Esse aumento dos níveis de dopamina no espaço sináptico provocará efeitos prazerosos e de euforia.

No fundo, as drogas causam fisiologicamente o mesmo efeito que qualquer reforço natural, como uma conversa cúmplice de um grande amigo. O problema é que a intensidade do seu efeito é muito maior, de forma que o resto dos reforços naturais acabam “sendo insuficientes” depois que experimentamos as sensações que a droga nos traz. Aí está seu grande atrativo.

Teorias sobre a relação entre o consumo de drogas e os transtornos mentais

Algumas hipóteses que tem surgido – ainda sem muitos estudos que as sustentem – afirmam que um déficit dos níveis de dopamina – seja de forma natural ou por uma carência de reforços, de fontes que gerem prazer ou sensação de bem-estar – nos deixaria mais predispostos ao consumo de drogas.

Dessa forma, por não conseguir liberar dopamina suficiente, a pessoa poderia chegar a abusar daquelas atividades liberadoras de dopamina para alcançar os mesmos efeitos de prazer. No entanto, não podemos esquecer que, embora esteja começando a gerar um bom volume de pesquisas, essa é uma teoria que ainda precisa de muito apoio empírico que a consolide.

Os transtornos mentais

Como já havíamos anunciado no início do artigo, o consumo de drogas pode ser o desencadeador de um transtorno mental, seja transitório ou permanente.

O DSM-V fala da intoxicação por substâncias e da abstinência como um transtorno em si mesmo. No entanto, existem outros tipos de transtorno mental induzidos por esse tipo de substância. Há alguns que têm uma maior incidência que outros, ou que aparecem em momentos específicos. Os mais característicos são: transtornos psicóticos, bipolares, depressivos e de ansiedade. Todos eles acontecem não só no momento de intoxicação (os efeitos imediatos das drogas), mas também durante a abstinência. Inclusive em alguns casos, algumas drogas podem chegar a gerar espectros de esquizofrenia.

Nesse sentido, os transtornos psicóticos se caracterizam por uma alteração nas funções cognitivas do cérebro, podendo chegar a provocar uma perda das capacidades intelectuais. Tais anomalias nos componentes cognitivos são de diferentes tipos.

Mulher enfrentando crise de ansiedade

Alteração na percepção

São alterações que afetam os sentidos.

  • Alucinações: a pessoa vê um objeto que na verdade não existe (ex. nave espacial).
  • Ilusões: o objeto existe de verdade, mas se deforma (ex. acredita-se que uma determinada pessoa, real, é o diabo disfarçado).
  • Parasitose: também chamada de síndrome de Eckbom. Imagina-se que animais como formigas, por exemplo, correm pelo corpo. A angústia que isso provoca leva a pessoa a decisões drásticas, como tirá-las de qualquer forma (ex. usando facas, tesouras, etc.)

Alteração no pensamento

Podem ser divididos em dois tipos:

  • No curso: perda da atenção e da capacidade associativa. A pessoa que apresenta essa disfunção como sintoma caracteriza-se por uma incapacidade de delimitar os estímulos que recebe. Ou seja, quando estamos falando com uma pessoa, estamos captando diversos estímulos: outras vozes, um carro que passa, as luzes dos comércios… As pessoas sem essa alteração são capazes de se limitar apenas às informações que querem transmitir, no entanto, uma pessoa com essa alteração não apenas transmitirá o que quer dizer, mas também introduzirá no seu discurso as luzes dos comércios, o carro que passa e as vozes de outras pessoas.
  • No conteúdo: ideias delirantes. Pensam coisas que não são reais, dando a elas uma natureza de realidade. Esse pensamento se encontra em um marco da possível realidade (ou seja, o que se pensa pode acontecer de verdade; a pessoa pode estar convencida de que seu parceiro a engana e é verdade que essa pessoa tem um parceiro, e que seu parceiro tem amigos, mas na realidade não a engana), mas há uma desorganização do conteúdo. É totalmente ilógico. (Ex. sensação de perseguição, ciúmes doentios, etc.)

As drogas provocam efeitos nocivos em diferentes planos ou níveis da pessoa, por isso seus efeitos são tão devastadores. Não apenas causam graves danos ao estado físico do corpo, mas também, como vimos, pode provocar graves transtornos ou limitações mentais. O tratamento para essas pessoas deve ser individualizado, de acordo com a patologia concreta que padeça e atendendo às circunstâncias sociais, ambientais e psicobiológicas que as levaram a consumir e manter o consumo.

Referencias bibliográficas

  • Gil-Verona, J.A., Pastor, J.F., de Paz, F., Barbosa, M., Macías-Fernández, J.A., Maniega, M.A., Rami-González, L., y Cañizares-Alejos, S. (2003). Neurología de la adicción a la drogas de abuso. Revista de Neurología, 36(4), 361-365.
  • Asociación Americana de Psiquiatría, (2014), Guía de consulta de los criterios diagnósticos del DSM-V, Washington, DC: EE.UU, American Psichiatry Publishing.