Respeitar os limites pessoais: por que alguns são incapazes de fazer isso?

04 Julho, 2020
Existem pessoas que não sabem respeitar os limites pessoais. Às vezes, não importa se estamos usando nossas armaduras psíquicas e emocionais, deixando claro onde estão nossas fronteiras: existem aqueles que as invadem e nos desrespeitam expressamente.
 

Respeitar e proteger os limites pessoais é um princípio de saúde, equilíbrio e bem-estar. No entanto, como bem sabemos, nem todo mundo age dessa forma. Por que existem pessoas que não consideram nosso direito à privacidade? Por que existem pessoas que se intrometem, invadem e boicotam nossas barreiras emocionais, mentais e até mesmo físicas?

Todos os temas referentes ao espaço pessoal são, muitas vezes, tão complexos quanto delicados. E são assim, em primeiro lugar, porque muitas pessoas podem ter dificuldade, em algum momento, de estabelecer com firmeza um limite, uma fronteira pessoal onde resguardam valores, identidades e direitos. Em segundo lugar, devemos aceitar também outra realidade um pouco mais chamativa e até desesperadora: existem perfis incapazes de identificar e respeitar esses sinais sociais.

Além disso, caso os enxerguem, não têm problemas em contorná-los. É o caso, por exemplo, de alguns casais, familiares, amigos… O componente emocional e essa proximidade que temos com certas pessoas podem levá-las a acreditar que têm o direito de violar nossas barreiras pessoais.

Um especialista no tema, o doutor Ernest Hartmann, nos explicou em seu livro Boundaries in the mind (Limites mentais) que existem certos distúrbios psicológicos e estilos de personalidade em que a pessoa não é capaz de identificar (e respeitar) esses códigos sociais tão básicos para a convivência saudável. Vamos nos aprofundar um pouco mais nesse assunto.

 

“Todos devem ser respeitados como indivíduos, mas ninguém deve ser idolatrado”.
-Albert Einstein-

Respeitar os limites pessoais

As pessoas que não sabem respeitar os limites pessoais

O respeito é uma das melhores qualidades que podemos exercitar. Dá força, sentido e coerência às relações humanas. Também nos permite criar ambientes mais dinâmicos, produtivos e, acima de tudo, felizes. Respeitar é tolerar, é deixar ser e, por sua vez, imprime um senso de dignidade que permite ao outro se realizar como pessoa, ter seu espaço e seu lugar no mundo.

Tudo isso parece tão inspirador quanto compreensível. No entanto, não observamos esse cenário diariamente tanto quanto gostaríamos. Existem pessoas que não sabem respeitar os limites pessoais, violando-os de diferentes maneiras:

  • Pedindo (exigindo) favores.
  • Apropriando-se de coisas que nos pertencem porque sentem que têm direito a isso.
  • Boicotando nossas opiniões, decisões, valores, crenças…
  • Contornando esses limites emocionais, colocando toda a culpa, toda a responsabilidade em nós.
  • Também não podemos esquecer as barreiras físicas. Determinadas pessoas podem pensar que têm o direito de nos tocar, cruzando esse limite onde o permitido se torna ofensivo.
 

Vamos ver, a seguir, quais possíveis razões podem levar essas pessoas a agir desse modo.

Estilos de personalidade acostumados a cruzar os limites pessoais alheios

Em um estudo publicado no Journal of Occupational Health Psychology, os psicólogos Bulger, Carrie A., Matthews, Russell A., Hoffman, Mark E conduziram várias investigações em ambientes de trabalho para descobrir o seguinte: é comum não haver o costume de respeitar os limites pessoais em contextos de trabalho.

  • Em média, é comum observar esse comportamento em perfis acostumados a ostentar o poder (empresários, diretores, chefes de departamento, supervisores…).
  • Da mesma forma, é comum que essa falta de respeito pelos limites pessoais alheios ocorra em personalidades narcisistas. São aqueles homens e aquelas mulheres acostumados a manipular e controlar os outros para fins específicos. Além disso, carecem de empatia para entender que causam danos com esse comportamento.
Portão fechado no campo

As pessoas mais próximas a você e o fator emocional

Estávamos falando sobre isso mais acima. As pessoas que menos costumam respeitar os limites pessoais são (em geral) aquelas que mais deveriam nos levar em consideração. Assim, é comum que certos familiares, amigos ou até mesmo parceiros(as) assumam que têm o direito de nos pedir ou de fazer certas coisas apenas porque são importantes para nós.

 
  • Ao burlar esses limites, essas pessoas também estão nos testando. Desse modo, em cada concessão feita, entendem que não há problemas, que não há consequências. Aliás, existe também a possibilidade de irem além da próxima vez.
  • Esse fato provoca uma lenta erosão. Ao permitir, ao dizer “sim” quando queremos dizer “não”, nossa própria autoestima vai sendo comprometida.

Acumulamos um grande sentimento de culpa e frustração. Com o tempo, o tecido do autoconceito fica tão danificado que os poucos limites pessoais que podem restar também tendem a ser dissolvidos.

O que fazer com pessoas que não sabem respeitar os limites pessoais?

Se um pessoa não sabe respeitar os limites pessoais do outro, a primeira pergunta que devemos nos fazer é a seguinte: será que eu deixei bastante claro para os outros onde estão minhas fronteiras? Fui firme o bastante para que os outros entendessem o que podem e o que não podem fazer?

Fica claro que sempre existem perfis com uma tendência maior a desrespeitar, a acreditar que têm esse direito de nos violar. No entanto, existe uma série de aspectos sobre os limites pessoais que devemos considerar:

  • Eles nos ajudam a melhorar as relações sociais. Não apenas é recomendável fazer uso deles, como também são altamente necessários.
  • Amar alguém também implica saber dizer “não”. Ninguém estabelece um limite por egoísmo ou maldade. Pelo contrário, o objetivo é o bem-estar psicológico, o respeito pelos espaços. Isso é fundamental para a saúde.
 

Dicas para lidar com essa situação

Uma vida sem limites é como uma casa sem muros. Precisamos dos limites urgentemente, precisamos deles para ter abrigo, segurança e um espaço onde possamos conter o que somos e precisamos. Portanto, se houver uma pessoa que não respeita esses limites, é preciso deixar claro com firmeza onde estão nossas fronteiras.

  • Devemos ser claros na hora de lembrar a essa pessoa o que é permitido e o que não é.
  • Considere que, ao delimitar esses limites, é possível que a outra pessoa reaja com um certo despeito, incômodo ou indignação. Quem está acostumado a ultrapassar as barreiras alheias não costuma receber uma advertência de bom grado. Apesar disso, devemos insistir com assertividade.
  • Aja com coragem:
    • Coragem intelectual defendendo seus pensamentos.
    • Coragem emocional, protegendo emoções e sentimentos.
    • Fale com firmeza e coragem física para proteger o que é seu (posses e espaço pessoal).
Impor limites no relacionamento

Para concluir, a questão dos limites pessoais é um aspecto que às vezes fica pendente em nossas vidas. Se não os esclarecermos primeiro por dentro, eles não vão ficar claros para os outros. Assim, e não menos importante, é bom lembrar que eles devem ser protegidos diariamente como os preciosos bens que são.

Independentemente de gostarmos ou não, sempre haverá alguém esperando nos encontrar com a guarda abaixada para ultrapassar essa fronteira. Nós não devemos permitir isso.

 
  • Hartmann, Ernest (1991) Boundaries in the Mind. Basic Books
  • Bulger, C. A., Matthews, R. A., & Hoffman, M. E. (2007). Work and Personal Life Boundary Management: Boundary Strength, Work/Personal Life Balance, and the Segmentation-Integration Continuum. Journal of Occupational Health Psychology12(4), 365–375. https://doi.org/10.1037/1076-8998.12.4.365