As necessidades sociais: conquista, poder e filiação

30 Janeiro, 2020
Muitas vezes nós nos perguntamos o que pode estar motivando o comportamento de uma pessoa. Em relação a isso, os psicólogos Murray e McClelland descobriram que precisamos satisfazer uma série de necessidades.
 

Quais são os elementos que regulam o comportamento? São muitos os teóricos que falaram sobre as motivações dos seres humanos em relação às necessidades sociais, assim como os estudiosos que tentaram determinar por que nós nos comportamos de uma determinada maneira quando temos muitas alternativas.

Na base de qualquer comportamento estão os fatores motivacionais. Ou seja, certos elementos que favorecem que o comportamento ocorra de uma certa maneira ou não siga uma direção específica. Entre esses fatores motivacionais, estão as necessidades sociais.

Os fatores motivacionais não são apenas objetivos que as pessoas querem alcançar. Na verdade, no estudo da motivação existem duas abordagens diferentes:

  • A motivação entendida como objetivos, metas e valores.
  • A motivação entendida como instintos, necessidades ou pulsões.

A partir da segunda abordagem, vários autores estudaram quais são os instintos e as necessidades que o ser humano “esconde” por trás da execução de um comportamento.

 
Homem pensativo ao pôr do sol

As necessidades: fatores motivacionais primários

As necessidades se classificam dentro do grupo de fatores motivacionais primários. Isso significa que satisfazer as necessidades (também as necessidades sociais) é uma condição de sobrevivência.

Murray (1938) entendia as necessidades como a propensão a agir de uma certa maneira. Para ele, as necessidades são internas (tanto biológicas quanto psicológicas). Em seu esquema, nesse ponto não estão incluídas aquelas pressões do meio para que nos comportemos de uma determinada maneira em um determinado momento.

As necessidades, além disso, incluem processos cognitivos, emocionais e comportamentais que integram verdadeiras linhas de ação para o sujeito. Assim, as necessidades marcariam aquilo que a pessoa faz.

 

Murray dedicou grande parte de seu trabalho teórico ao estudo das necessidades. De seu trabalho herdamos o Teste de Apercepção Temática (TAT), no qual são avaliadas as necessidades pessoais de cada indivíduo. Ao mesmo tempo, também elaborou o Personality Research Form (PRF), no qual Murray tentou avaliar a personalidade a partir de seu modelo de necessidades.

As necessidades sociais de McClelland (1987)

McClelland, psicólogo norte-americano que trabalha na universidade de Harvard e Boston, propõe três necessidades primárias que, para ele, estariam na base do nosso pensar, sentir e agir: as necessidades sociais.

McClelland define as três necessidades mais importantes do ser humano, aquelas às quais são acrescentadas o adjetivo “social”. Essas necessidades surgem da própria natureza do homem, que é um animal social e precisa de um processo de socialização para desenvolver suas habilidades.

As necessidades sociais que McClelland identifica são:

  • A necessidade de conquista.
 
  • A necessidade de poder.
  • A necessidade de motivação.

Essas necessidades não são universais, visto que são fruto da natureza histórica do ser humano, mas também de seu contexto social e cultural. Por isso, a lista de necessidades pode ser relativamente mutável, embora consistente.

A necessidade de conquista: sentir-se bem e melhor

McClelland identifica a necessidade de conquista na base do comportamento do ser humano. Por causa dela, a pessoa costuma querer otimizar seu rendimento, não tanto pelos benefícios materiais que isso pode trazer, mas pela satisfação de já ter feito e ter feito bem.

A partir de uma tarefa, a pessoa pode aumentar seus sentimentos de autoeficácia ao se sentir melhor, ao se sentir competente.

Por isso, a necessidade de conquista se relaciona com a realização de algo bem feito simplesmente pela satisfação do resultado que se obtém e a melhoria e o desenvolvimento de habilidades pessoais.

A necessidade de poder: sentir-se dominante

A segunda necessidade que McClelland identifica na base do comportamento de algumas pessoas é a necessidade de poder. Essa necessidade de poder ou de prestígio influencia certas pessoas a querer o controle das situações e das pessoas, assim como de sua capacidade de ação.

 

Essa necessidade engloba a busca do status e de posições de controle institucional, social e grupal. Por isso, as características dessas pessoas estão relacionadas com o poder, o controle e o domínio.

Paralelamente, as pessoas que têm uma necessidade de poder muito alta também são indivíduos que não sabem assumir o fracasso, a frustração e a derrota. Essa necessidade de poder, levada ao extremo, pode estar relacionada com problemas arteriais, estresse e doença.

Por isso, quando a necessidade de poder é alta, é importante trabalhar o senso de responsabilidade da pessoa.

A necessidade de filiação: sentir-se querido

A última das necessidades sociais que McClelland estuda é a necessidade de filiação. Parece ser a necessidade mais clara e, provavelmente, a que mais pessoas teriam em comum.

A partir da necessidade de filiação, a pessoa buscaria manter relações afetivas e sociais com uma pessoa ou um grupo de pessoas.

Embora isso pareça óbvio, não é excessivo deixar claro que a socialização é uma motivação para o desenvolvimento de habilidades ou capacidades importantes, desde a linguagem até a empatia.

 

Por isso, com base nessa necessidade, as pessoas se preocupam em se mostrar atrativas para o resto. Querem ser aceitas e incluídas no grupo. A necessidade de filiação ilustra como as pessoas preferem as relações com um amplo grupo de pessoas, no qual podem se sentir valorizadas.

Da necessidade de filiação pode derivar a necessidade de intimidade, mais específica de relações afetivas amorosas. McAdams define a necessidade de intimidade como a busca por uma interação afetuosa e íntima com o outro. Observou-se que essa necessidade era mais alta em mulheres do que em homens.

Amigas rindo juntas

As necessidades sociais são os únicos fatores motivacionais?

As necessidades sociais expostas não são as únicas que estão na base do comportamento do ser humano. De fato, existem muitos outros elementos, como a motivação de controle.

 

A partir da perspectiva de R. W. White (1959), estudou-se como o homem buscava, a todo custo, poder controlar seu ambiente e equilibrar as transações existentes entre organismo e contexto.

Deci (2008), por outro lado, entende que a motivação intrínseca mais importante do ser humano é exercitar suas próprias capacidades e alcançar a maestria em diferentes ambientes (sem que disso derivem recompensas externas).

A teoria da autodeterminação, por fim, entende que a necessidade do homem reside em aprender e obter recursos suficientes para ser independente. Isso significa que o homem busca desafios para praticar, passar a ser habilidoso e se sentir competente diante das tarefas que lhe são propostas.

Seja como for, e privando-lhes de qualquer acepção, parece claro que, entre nossas necessidades mais importantes como motivadoras do comportamento estariam a necessidade de se sentir competente, a necessidade de se sentir em um grupo e a necessidade de controle dentro desse grupo.

 

Por outro lado, conhecer sua faceta motivadora nos permite explicar, entender e intervir em comportamentos disfuncionais.

  • Doyal, L; Gough, I. (1994). Teoría de las necesidades humanas. Barcelona-Madrid, Icaria- Fuhem.
  • Maslow, A. (1954). Motivación y personalidad. Barcelona, Sagitario.
  • Schütz, A. (1965). ‘The social Word and the theory of social action’, en D.Braybrooke (ed.) Philosophical Problems of the social Sciencies. New York, Macmillan.