A ridícula ideia de não ver você nunca mais

· março 9, 2017

Que ideia ridícula, não é mesmo! Parece tão impossível… que a ideia em si não se sustenta. Não ver você nunca mais, não abraçar você nunca mais, não ouvir mais o ringtone que eu selecionei para você no meu celular. Não me envolver mais no seu cheiro, nem no seu jeito de colocar ordem, que só você sabia, ali por onde você passasse. Pensar que antes eu só podia sorrir diante dessa melodia.

Minhas mãos tremem, tremulam minhas pernas, meu coração faz um gemido que se afoga batendo oco, o chão escorrega, o ar ficou parado, meus pulmões estão vazios, já não sinto o ar que agita os cantos da camisa, as palavras ficam entaladas no estômago. Não posso gritar, nem fugir. Fico quieto, assim como o resto do mundo, congelado.

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Me debato na lama

Fecho os olhos, aparece a primeira lembrança, que espanto com rapidez. Nasce a ansiedade de criar mais, me abraço a essa necessidade como aquele que sobe no bonde cujo trajeto acaba no meio do precipício e sabe disso. Na minha cabeça aparece a ideia de acordar deste sonho onde caí sem querer, de dar um passo e cair.

Continuam os calafrios e as pedras caindo na mochila nas minhas costas. Os tendões ficam mais tensos e os meus músculos também. Os joelhos falham e, antes de perceber, estou no chão. Abaixo a cabeça e espero que venha a dor. Vamos, venha logo, me leve com você, acabe comigo. Que ridícula parece essa ideia de não ver você nunca mais.

As palmas das minhas mãos se afundam e pouco a pouco as unhas cravam a areia embarrada pela chuva, que ao ser atacada encharca os nós das mãos para não parecer estrangulada. Meus cotovelos se dobram, meus punhos se fecham e a água passa por entre os dedos. Meus olhos se abrem novamente e só veem a escuridão que se formou com meu corpo, essa onde ficou trancada essa ridícula ideia de não ver você nunca mais.

Ana se aproxima, percebo seus passos. Quero afastá-la e a única coisa que faço é tensionar mais o meu corpo. Aperto os olhos, porque agora as lágrimas são as que molham a terra. Em algum lugar na minha cabeça aparece uma ordem: vá embora, afaste-se. É um lugar muito longínquo porque Ana não escuta e me abraça, me abraça forte, com a força que apenas uma menina de cinco anos pode abraçar.

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É ridículo isso de não vê-la nunca mais

A necessidade de proteger nossa filha conflita com essa ideia, a de não ver você nunca mais. No fim das contas me entrego ao seu abraço, faço isto de forma inconsciente. O seu abraço perde força, me deixo cair para um lado e ela cai sobre mim. Libero essa ideia ridícula, a de não ver você nunca mais, e agora sou eu que a abraço com a força que todos os anos que você passou ao meu lado me dão; enquanto a dor começa a ser tão grande que o cérebro se rebela e começa a me anestesiar.

É uma morfina que entra na garganta, percebo porque me sufoca e não me deixa respirar.

-Papai, a mamãe não foi embora. É ridículo isso de não vê-la nunca mais.

Que diabos vai saber aquela pequena. A sua imagem viva. Me alegro por ela, porque ainda tem fé, porque a ideia lhe parece ainda mais ridícula do que para mim. Ali está, desafiando o futuro sem ter nem ideia da dor que virá. Por alguns instantes me apego à sua ignorância e essa mentira torna o ar menos denso, a água mais fria.

Quando eu me levantar sei que aquela ideia ridícula nos condenará a estar unidos para sempre, com um laço que irá mais além da genética. Me levanto, a pego nos braços e caminho devagar. Os primeiros passos de um longo caminho que ainda não concebo; uma parte de mim continua esperando a dor que virá, outra parte acaricia aquele pequeno rosto salgado que faz parte do imenso legado que ela me deixou.

A deito do seu lado do cama, lhe dou seu travesseiro. Ela deixa que o seu toque fino a acolha. Olho para ela e lhe canto uma canção de ninar que para mim continua ecoando muito longe. Mas acho que ela a ouve porque com suas mãos agarra uma das minhas e acaricia as rugas deixadas pela água, antes de ficar totalmente adormecida.